“A política é a arte da composição, da negociação e do cálculo. Expor conflitos internos pode enfraquecer alianças, alimentar adversários e desviar o foco das disputas realmente relevantes”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
Confira:
Na política, tão importante quanto ter razão é saber dizê-la. A história está repleta de exemplos de líderes que comprometeram projetos, alianças e carreiras por não dominarem a arte da palavra prudente. O episódio recente envolvendo Michelle Bolsonaro, ao tornar pública uma desavença familiar em torno das articulações do Partido Liberal no Ceará, remete, em certa medida, ao estilo político de Ciro Gomes: a impulsividade verbal.
Ciro construiu uma trajetória marcada por declarações contundentes, frequentemente polêmicas. Admirado por alguns por sua franqueza e criticado por outros por sua incapacidade de conter os impulsos, tornou-se conhecido por protagonizar sucessivos embates públicos e por declarações que lhe custaram desgastes políticos, inclusive durante campanhas presidenciais.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, sempre cultivou uma imagem pública de discrição. Justamente por isso, surpreendeu ao divulgar um vídeo com duras críticas ao senador Flávio Bolsonaro, expondo uma divergência que muitos consideravam restrita ao ambiente familiar e às negociações internas do partido.
O pano de fundo da controvérsia é a disputa política no Ceará. Enquanto o PL conduz suas negociações oficiais, setores ligados à ex-primeira-dama manifestam simpatia por uma candidatura ao Senado que não acompanha integralmente a estratégia partidária para o governo estadual. A divergência, legítima em qualquer democracia, ganhou dimensão nacional quando deixou os bastidores para ocupar o espaço público.
Coincidentemente, quase ao mesmo tempo, Ciro Gomes voltou a fazer severas críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus filhos em entrevista à revista Veja. Michelle, por sua vez, escolheu responder às tensões internas também pela via pública. São episódios distintos, mas que revelam um traço comum: a convicção de que toda divergência deve ser verbalizada imediatamente.
Essa postura pode satisfazer apoiadores mais apaixonados, mas costuma produzir efeitos colaterais indesejáveis. A política é a arte da composição, da negociação e do cálculo. Expor conflitos internos pode enfraquecer alianças, alimentar adversários e desviar o foco das disputas realmente relevantes.
Nesse aspecto, Michelle parece aproximar-se justamente do estilo de um de seus mais ferrenhos adversários políticos. Ao privilegiar o confronto público em detrimento da discrição, acaba reproduzindo um comportamento que tantas vezes foi atribuído a Ciro Gomes: a dificuldade de medir o peso das palavras.
Talvez ambos desconheçam — ou simplesmente ignorem — a célebre observação de Winston Churchill: “O tato é a habilidade de dizer a alguém para ir para o inferno de tal maneira que ele espere ansiosamente pela viagem.”
Na política, como na vida, nem toda verdade precisa ser proclamada imediatamente, nem toda divergência precisa transformar-se em espetáculo. Há momentos em que o silêncio estratégico vale mais do que o desabafo. E a prudência, quase sempre, produz resultados mais duradouros do que a eloquência impetuosa
Barros Alves é jornalista e poeta