Com o título “Não te quero pânico”, eis a crônica de Tuty Osório deste sábado.
Hora de se deliciar com um bom texto.
Confira:
No dizer dos paulistanos, talvez de mais gente, o meu amigo Afonso é do tipo cabeçudo. Gosta de conversas sérias, leituras densas, fica entediado com a dita filosofia de bar. Apesar de ser um protagonista desse gênero. Depois que conheceu Gotardo, não tive mais paz. A cerveja gelada num fim de tarde de uma barraquinha de praia da Beira Mar, vira uma longa tese sobre os afetos da atualidade. Em tempo de eleições, então, Afonso está afiado e Gotardo, sedento de reflexões profundas, dá corda que Afonso pega com facilidade. Meu esporte predileto é conversar, quem me conhece sabe. Só que ando cansada de tantas conclusões surgidas de uma cartola nada mágica, sem
encantamento, sem cor. Calma, não virei alienada, condição impossível pra mim. É só cansaço, mesmo.
Daí que o Afonso agarrou com gosto a ideia de que é o receio que nos comanda a vida. Cresci ouvindo que era o sonho e fico chateada com esse papo de medo soberano. Só que não posso negar que é verdade. Permeia tudo. A rua, a casa, o voto, a submissão ao trabalho precarizado a todos os níveis. Acaba com o amor, mesmo de quem acredita que o amor não acaba quando é amor. Sinceramente, era mesmo o que faltava. Além desse cansaço ancestral que me assola, ainda ter que lidar com o invasor que espreita em cada esquina, em cada som irrompido no meio da noite. No que vemos, mais ainda do que não conseguimos ver.
No último encontro expressei revolta. Falei que não estou a fim de ouvir, falar, ter. Geralmente atenta a Afonso, choquei com tal reação. Ficou triste, calou, e fiquei apavorada de perdê-lo. Afonso é um amigo que não se adia, imagina perder. Quando sumiu num lapso longo da própria memória, perambulando por ruas desconhecidas, perdido de si e de nós, quase enlouqueci. Tem passado longas temporadas por Fortaleza e não pergunto o que tem feito da vida. Tem condições financeiras para um sabático de qualquer tamanho. Confesso que o invejo porque ando mesmo precisando de um e não posso parar de correr atrás dos cobres de cada dia. Daí que fiquei aflita, repetindo que queria ouvir, sim, que tinha sido um impulso. Conquistei o seu perdão, ou a sua condescendência. Consolou-me com um abraço. Mudou de tema.
Que o Afonso não me escute, mas não estou a fim dessa parada. Dizem que proporciona segurança. Mentira. É paralisante, péssima companhia. Não quero saber, Passo sem. Estou atrás de consciência. Bondade. Acolhimento. Difíceis, porém, transformam ou consolidam o sossego da alma. Até para serenar é preciso trilhar. Com muitos ou poucos obstáculos. Nas lidas presentes e passadas não foi temer que me trouxe as maravilhas. Filhas, arte, contemplação, foram conquistadas por ter ampliado a esperança. Pactuado com a confiança. Se estamos sendo dominados, e, acredito que estamos, vamos reagir. Sem ganhar burrice. Muito menos afastar amigos. Cafona, contudo, bacana experimentar juntar, em lugar de individuar. De minha parte, eu estou aqui.
*Tuty Osório
Jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em
2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.