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“O Brasil na corrida por data centers” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista.

Com o título “O Brasil na corrida por data centers”, eis artigo de Alex Araújo, economista e ex-secretário do Desenvolvimento Local do Ceará. “Durante muito tempo, competitividade foi sinônimo de incentivo financeiro: quanto mais isenção fiscal, mais atrativo o país. Mas na economia da inteligência artificial, o recurso mais escasso não é dinheiro. É confiança institucional — a certeza de que as regras de hoje ainda vão valer daqui a quinze anos”, expõe o articulista.

Confira:

Nos próximos cinco anos, o mundo vai testemunhar um dos maiores ciclos de investimento em infraestrutura tecnológica da história. Microsoft, Amazon, Google, Meta, Oracle e OpenAI já anunciaram planos que, somados, ultrapassam US$ 1 trilhão até o fim da década. O destino desse dinheiro não são apenas modelos de inteligência artificial mais capazes. É o que sustenta esses modelos por baixo: data centers, redes elétricas e sistemas de refrigeração capazes de operar em escala descomunal.

Essa é a primeira coisa que precisa ficar clara. Sem energia abundante e sem capacidade computacional instalada, não existe inteligência artificial — existe apenas um algoritmo esperando eletricidade.

E é exatamente aí que aparece uma janela de oportunidade para o Brasil.

O gargalo que ninguém vê

Nos Estados Unidos e na Europa, o dinheiro não é o problema. O problema é a fila. Em várias regiões, um novo data center espera de cinco a sete anos só para conseguir conexão à rede elétrica. Enquanto isso, a demanda por processamento continua crescendo em ritmo exponencial. Essa combinação — capital sobrando, energia faltando — abre uma janela estimada em cerca de três anos para qualquer país capaz de oferecer infraestrutura competitiva agora.

O Brasil reúne uma combinação de atributos que poucos países têm ao mesmo tempo: matriz elétrica majoritariamente renovável, energia disponível, mercado consumidor grande, estabilidade geopolítica, uma extensa rede de cabos submarinos que conecta o país aos principais mercados globais e uma localização quase equidistante entre América do Norte, Europa e África.

Essas vantagens deixaram de ser apenas comparativas. Estão se tornando vantagens competitivas de verdade.

Um data center não é só concreto e cabo. Ele funciona como uma porta de entrada para toda uma economia digital: atrai provedores de nuvem, empresas de inteligência artificial, centros de pesquisa, startups e serviços financeiros. Cada novo empreendimento reduz a dependência brasileira de infraestrutura estrangeira e fortalece o que os especialistas chamam de soberania digital — a capacidade de um
país processar e guardar seus próprios dados, sem depender de decisões tomadas em outro continente.

Então a pergunta óbvia é: se a oportunidade existe, o que falta para o Brasil aproveitá-la?

A resposta é surpreendente, porque o obstáculo não é mais tecnológico. É institucional.

O verdadeiro custo de construir no Brasil

Um estudo da FGV Projetos — Potenciais Impactos Socioeconômicos da Consolidação do Brasil como Hub Internacional de Infraestrutura Digital na Era da Inteligência Artificial — aponta a fragmentação regulatória como o principal fator de perda de competitividade do país.

Na prática, isso significa o seguinte: construir um data center no Brasil exige navegar, ao mesmo tempo, por regras ambientais, normas de uso do solo, regimes tributários distintos entre estados e municípios, legislação de telecomunicações, proteção de dados e cibersegurança — cada uma com seu próprio órgão regulador, suas próprias exigências e pouca conversa entre si.

O investidor, então, não calcula apenas o custo de erguer o prédio. Ele calcula o custo de atravessar esse labirinto institucional. E como esses projetos envolvem bilhões de dólares e prazos de retorno de quinze a vinte anos, qualquer incerteza regulatória se traduz em um prêmio de risco mais alto — ou seja, o investidor exige um retorno maior só para compensar o medo de não saber o que vai acontecer no meio do caminho.

A competição entre países já não se decide por mão de obra barata. Decide-se por quem oferece previsibilidade.

Os principais hubs (centros de referência internacional) tratam data centers como infraestrutura crítica nacional — a mesma categoria de portos, aeroportos ou redes elétricas. Essa classificação permite licenciamento coordenado entre órgãos públicos e políticas de incentivo estáveis ao longo do tempo. E, curiosamente, o que mais atrai investimento não é o tamanho do benefício fiscal. É a certeza de que as regras não vão mudar no meio do jogo.

No Brasil, essa certeza ainda não existe. Convivemos com sobreposição de normas, insegurança sobre qual regime tributário vai prevalecer, diferenças enormes entre municípios vizinhos e nenhum marco legal que integre essas peças. O resultado são custos invisíveis, mas reais: prazos de implantação mais longos, despesas de conformidade mais altas, disputas judiciais frequentes — e, no fim, projetos viáveis que escolhem outro país só para fugir da incerteza.

Governança como vantagem competitiva

Talvez esse seja o ponto mais importante de todo o debate. Durante muito tempo, competitividade foi sinônimo de incentivo financeiro: quanto mais isenção fiscal, mais atrativo o país. Mas na economia da inteligência artificial, o recurso mais escasso não é dinheiro. É confiança institucional — a certeza de que as regras de hoje ainda vão valer daqui a quinze anos.

O Brasil já tem energia, conectividade, localização estratégica e mercado. O que falta construir é uma arquitetura institucional que integre, sob uma mesma visão, política energética, transformação digital, proteção de dados, telecomunicações, tributação e licenciamento ambiental.

A pergunta não é mais se o Brasil tem vantagens competitivas. A pergunta é se ele tem capacidade institucional para usá-las.

Essa janela não fica aberta para sempre. Uma vez que os grandes polos internacionais se consolidem, efeitos de aglomeração — concentração de talento, fornecedores especializados, capital e inovação em um mesmo lugar — tendem a reforçar sua liderança por décadas. Depois disso, alcançar quem saiu na frente fica muito mais difícil e muito mais caro.

A corrida global por data centers, no fim das contas, não será vencida pelo país com mais energia ou mais capital disponível. Será vencida por quem conseguir coordenar Estado, mercado e regulação em torno de uma estratégia clara. O recurso decisivo do século XXI não é só a infraestrutura digital em si — é a capacidade de orquestrar tudo o que a sustenta.

E é exatamente aí que o futuro do Brasil está sendo decidido agora.

*Alex Araújo

Economista e ex-secretário do Desenvolvimento Local do Ceará.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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