“Brasil se acostumou a crimes que chocam por alguns dias e depois se dissolvem no noticiário. A mensagem transmitida é sempre a mesma: a violência compensa”, aponta o jornalista Luís Pellegrini
Confira:
A tortura e mutilação do cachorro Orelha por quatro adolescentes, na Praia Brava, uma das regiões mais nobres de Florianópolis, não causou comoção nacional por acaso. O horror não foi apenas o crime em si, mas o que ele revela sobre o Brasil que estamos naturalizando: um país onde a crueldade se repete, a impunidade se arrasta e a indignação precisa disputar espaço com a anestesia moral.
O que chocou no caso Orelha foi a violência em estado bruto – sem álibi, sem justificativa, sem conflito. Um ato de sadismo contra um ser indefeso. Quando a brutalidade surge assim, despida de qualquer narrativa que a maquie, ela nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: até onde fomos na banalização do mal?
Esse episódio dialoga diretamente com outros crimes emblemáticos que marcaram o país nos últimos anos. O assassinato da vereadora Marielle Franco, executada no coração do Rio de Janeiro, tornou-se símbolo internacional não apenas pela violência, mas pela demora nas investigações, pelas lacunas e pelas resistências em esclarecer completamente quem mandou matar e por quê. A mensagem transmitida foi clara: a justiça no Brasil costuma ser seletiva, lenta e frágil.
O mesmo padrão se repetiu na Amazônia, com os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. Ali, a violência não foi um acidente, mas o produto de um território entregue ao crime ambiental, ao garimpo ilegal e à omissão do Estado. Houve responsabilizações pontuais, mas o sistema que produz esse tipo de crime permanece praticamente intacto.
O Brasil se acostumou a conviver com crimes que chocam por alguns dias e depois se dissolvem no noticiário. A mensagem transmitida é sempre a mesma: a violência compensa, ou ao menos não cobra preço alto.
O caso Orelha expõe a mesma lógica – apenas deslocada para outro corpo, outro alvo, outra forma de vulnerabilidade. A violência contra animais é parte da mesma engrenagem que tolera a violência contra pessoas, sobretudo contra aqueles que não têm poder, visibilidade ou proteção institucional. Não se trata de comparar sofrimentos, mas de reconhecer padrões.
O desrespeito à vida no Brasil é problema estrutural e institucional que se arrasta há séculos. Exemplo disso é a experiência que vivi há alguns anos em Campina Grande, a segunda maior cidade da Paraíba. Visitava o Grande Mercado Municipal, uma verdadeira cidade dentro da cidade, e acabei passando por uma pequena rua cheia de pequenas lojas e quiosques. Nas portas dos negócios grande sacos plásticos e de estopa já revelavam a especialidade do local: os sacos estavam cheios de estilingues – que lá são chamados de bodoques ou baladeiras. Esses objetos são considerados brinquedos e presenteados às crianças com a finalidade de matar passarinhos. O uso dessas armas mortíferas como divertimento é didático: com elas as crianças aprendem desde muito cedo a extrair prazer em matar pequenos seres indefesos. O uso é generalizado, mas todos parecem considerar perfeitamente natural esse aprendizado do matar por matar.
Há décadas, estudos em criminologia indicam que a crueldade contra animais funciona como alerta social: onde ela se instala, a empatia já foi corroída. Não por acaso, sociedades que relativizam esse tipo de violência também relativizam chacinas, execuções policiais, mortes de indígenas e feminicídios.
A comoção causada por Orelha, portanto, não foi exagero. Foi um raro rompimento da anestesia coletiva. Em um país acostumado a números – tantos mortos aqui, tantos ali -, a história concreta, com nome, rosto e dor, atravessou o escudo da indiferença. Orelha não era estatística. Era a prova viva de que a barbárie deixou de ser exceção.
O verdadeiro risco está no dia seguinte. Quando o caso sai do noticiário, quando a indignação arrefece, quando a punição não vem – ou vem de forma simbólica. A impunidade é pedagógica: ela ensina que a violência compensa, ou ao menos não cobra preço alto.
O Brasil não sofre por falta de leis. Sofre por falta de consequência. Enquanto crimes brutais continuarem sendo tratados como episódios isolados, e não como sintomas de um modelo social e político adoecido, novos “casos Orelha” seguirão surgindo – contra animais, contra ativistas, contra jornalistas, contra mulheres, contra pobres.
A pergunta que fica não é sobre a comoção, mas sobre o que faremos depois dela.Ou reagimos com justiça e memória, ou aceitamos a barbárie como paisagem permanente.
Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis