“O Colapso do Lulopetismo – Crônica de uma Candidatura em Ruínas” – Por João Arruda

João Arruda, professor aposentado da UFC e sociólogo. Foto: Arquivo Pessoal.

Como título “O Colapso do Lulopetismo – Crônica de uma Candidatura em Ruínas”, eis artigo assinado por João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “(…) o lulopetismo deixa de ser apenas um projeto desgastado e passa a se configurar como um ciclo em vias de encerramento, incapaz de se recompor diante da perda de legitimidade e de apoio estrutural”, expõe o articulista.

Confira:

A realidade política brasileira já não permite ambiguidades: a candidatura do presidente Lula entra em processo acelerado de derretimento político. As pesquisas eleitorais divulgadas recentemente convergem para um diagnóstico inequívoco: crescimento consistente de Flávio Bolsonaro e retração contínua das intenções de voto do ex-presidiário. No cenário de segundo turno, o que antes era tratado como hipótese, já se consolida como tendência, com o favoritismo do adversário. Analistas políticos de diferentes espectros passam a classificar o ambiente como crescentemente hostil ao lulopetismo e aos seus puxadinhos, e o próprio presidente começa a emitir sinais de recuo, flertando com a possibilidade de não disputar o pleito.

A deterioração do cenário não é fortuita, mas consequência direta de uma conjuntura profundamente adversa. Após mais de três anos de governo, o legado que se impõe é marcado pela desordem fiscal, pela voracidade arrecadatória e pela asfixia crescente da sociedade produtiva. O retrato social é alarmante: cerca de 80% dos lares brasileiros convivem com algum nível de endividamento, enquanto mais de 81 milhões de cidadãos encontram-se inadimplentes, o maior número desde o início da série histórica, em 2010. Trata-se de um quadro que evidencia não apenas dificuldades econômicas, mas a falência do modelo de gestão petista..

E o horizonte, no curto prazo, é ainda mais sombrio. Os aumentos recorrentes dos combustíveis funcionam como um gatilho inflacionário imediato, elevando custos logísticos e pressionando diretamente o preço dos alimentos, um golpe frontal sobre a população de baixa renda, outrora categoria decisiva das vitórias eleitorais petistas. Mas o papel da economia em um processo eleitoral é implacável: governos que perdem o controle sobre a inflação do consumo básico veem sua popularidade ruir em ritmo acelerado. Não por acaso, a máxima de Delfim Netto permanece atual e incontestável: “O bolso é a parte mais sensível do corpo humano”.

Se o desgaste econômico já compromete severamente o projeto de reeleição do ex-presidiário, a crise institucional adiciona uma camada ainda mais corrosiva. Investigações que avançam sobre estruturas centrais do poder colocam o governo sob permanente suspeição, e o presidente não consegue, nem politicamente, nem simbolicamente, se desvincular desse contexto, como deseja Sindônio Palmeiras, marqueteiro do planalto. Os inquéritos envolvendo a grande corrupção no INSS e o fabuloso escândalo do Banco Mastertornaram-se o epicentro de uma crise que conecta figurões dos Três Poderes, contribuindo para alimentar a percepção pública da desordem e fragilidade moral das instituições. A menção de nomes próximos ao círculo familiar do presidente, como Lulinha – “o filho do rapaz- e Frei Chico, em relatórios de inteligência e depoimentos, adiciona uma carga emocional e política explosiva, fornecendo munição constante para uso da oposição.

As delações premiadas de Vorcaro, Fabiano Zettel e Maurício Camisotti instauraram um verdadeiro clima de desordem e apreensão no núcleo duro do lulopetismo, do STF e do Congresso Nacional. Os vazamentos, que já começam a ganhar o domínio público, aliados à continuidade dessas investigações nos próximos meses, têm potencial para transformar a campanha eleitoral em um terreno minado, marcado por crises sucessivas e desgaste permanente. Esse cenário se torna ainda mais crítico diante de um fator incontornável: o peso histórico das acusações de corrupção associadas à figura do próprio presidente. No imaginário coletivo, essa vinculação não apenas persiste, como se mantém latente, pronta para ser reativada a cada novo fato revelado. Nesse contexto, a candidatura deixa de ser apenas fragilizada, passa a enfrentar um processo de inviabilização estrutural, com danos profundos à sua sustentação política e eleitoral.

E há ainda um fator adicional que agrava esse cenário já profundamente adverso ao lulopetismo e seus puxadinhos. Dados recentes da Transparência Internacional e do instituto PoderData comprovam uma deterioração consistente na percepção pública sobre a corrupção no país. Segundo o PoderData, a parcela de brasileiros que acreditam que a corrupção aumentou no governo Lula saltou de 39%, em janeiro de 2024, para 49%, em janeiro de 2026, um avanço expressivo de 10 pontos percentuais em apenas dois anos. No plano externo, a Transparência Internacional aponta a contínua piora do Brasil em rankings globais de integridade, reforçando a imagem da existência de crescimento da corrupção institucionalizada. Confirmando essa avaliação, o Tribunal de Contas da União (TCU) revelou recentemente a identificação de 31.481 licitações com indícios de fraude e ineficiência desde a posse do descondenado, detectados por meio de sofisticados cruzamentos de dados. Em conjunto, esses elementos consolidam a percepção de um ambiente marcado por fragilidade nos mecanismos de controle e crescente desconfiança da sociedade.

Diante desse quadro de deterioração acelerada, que aponta para uma crise institucional de grande envergadura, o desfecho deixa de ser incerto e passa a se delinear com nitidez: o establishment nacional inicia um movimento visível de descolamento do consórcio Executivo–STF. Setores influentes da grande mídia, como Rede Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Revista Veja, Metrópoles e Poder360, que durante anos atuaram como sustentação de narrativas legitimadoras desse arranjo de poder, passam a adotar uma postura progressivamente crítica e, em alguns casos, abertamente oposicionista. Trata-se de uma inflexão que sinaliza mudança de ventos no ambiente político brasileiro.

Na mesma direção, entidades historicamente influentes, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Conselho Federal de Medicina (CFM), diversas associações de imprensa e segmentos relevantes do empresariado, incluindo o agronegócio e o poderoso sistema financeiro, começam a vocalizar desconforto e oposição ao status quo vigente. Trata-se de um movimento que transcende a retórica e indica uma reconfiguração concreta das forças de poder no país. Quando os pilares institucionais e econômicos de sustentação de um projeto político começam a ruir simultaneamente, o desfecho tende a ser inexorável.

É importante frisar que esse afastamento não se explica por um despertar tardio de consciência institucional, mas por um cálculo frio e pragmático: à medida que o desgaste do governo se aprofunda e sua capacidade de sustentação se fragiliza, os custos de permanência nesse alinhamento passam a superar, de forma inequívoca, os benefícios políticos e econômicos. Em cenários de erosão acelerada do poder, como o que presenciamos, o abandono não é exceção, mas regra. Nesse contexto, o lulopetismo deixa de ser apenas um projeto desgastado e passa a se configurar como um ciclo em vias de encerramento, incapaz de se recompor diante da perda de legitimidade e de apoio estrutural. Sem força para reagir, resta-lhe apenas um melancólico enterro no lixo da história.

*João Arruda

Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará

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