Com o título “O conservadorismo cearense e a força que não veio da Bíblia nem da bala”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assiinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psicólogo. “O nosso eleitor parece estar produzindo direita menos corporativa e mais ideológica; menos dependente das estruturas tradicionais das igrejas e das corporações de segurança e mais vinculada a lideranças políticas capazes de sintetizar diferentes insatisfações”, expõe o colunista.
Confira:
Há algo de particularmente cearense no resultado das eleições de 2026 que, a meu ver, merece ser observado para além da simples contagem de cadeiras conquistadas pela direita no país. O conservadorismo avançou no Brasil, mas os tradicionais representantes da “Bíblia” e da “bala” não avançaram na mesma proporção no nosso Estado, e essa diferença diz muito sobre o modo como o eleitor cearense pode estar reorganizando suas preferências políticas. No restante do país, o crescimento da direita veio acompanhado, em muitos estados, da presença maior de policiais, militares, delegados, pastores e lideranças religiosas no Congresso. No Ceará, entretanto, a fotografia é outra.
A direita ganhou força aqui, é verdade. O PL ampliou seu espaço e nomes identificados com o bolsonarismo obtiveram votações expressivas. Mas não assistimos à formação de uma grande bancada diretamente vinculada às igrejas ou às forças de segurança. No caso da Bíblia, por exemplo, apareceram 268 candidatos aptos a disputa pelo cargo de deputado federal, enquanto no âmbito estadual foram 18 identificados explicitamente pelo título religioso. Desses, apenas o Pastor Frota foi eleito deputado estadual, com 28.316 votos. No caso da “bala”, entre as candidaturas explicitamente identificadas com segurança pública/militarismo, nenhum foi eleito, ficando de fora nomes como Coronel Bezerra, Delegado Gelson Autista, Soldado Noélio, Sargento Reginauro e Capitão Wagner.
Esse talvez seja o dado mais interessante da eleição cearense. O eleitor não abandonou a pauta dos costumes, tampouco deixou de se preocupar com a violência. O que parece ter mudado foi a forma de representar essas demandas. Em vez de necessariamente escolher o candidato porque ele é pastor, militar ou policial, parcela significativa do eleitorado parece ter optado por políticos cuja identidade principal é ideológica. André Fernandes, apesar de se identificar com Bíblia e “bala”, é o exemplo mais eloquente. Sua votação extraordinária demonstra que é possível reunir, em torno da mesma candidatura, o eleitor conservador, o eleitor religioso, o eleitor preocupado com segurança e o eleitorado bolsonarista.
A identidade política, assim, passou a ser maior do que a identidade corporativa. Essa está sendo a principal diferença entre o Ceará e boa parte do Brasil. Enquanto em outros estados a direita encontrou nos representantes da “Bíblia” e da “bala” uma de suas principais formas de expressão eleitoral, aqui essas pautas parecem ter sido incorporadas por direita mais ampla, digitalizada e fortemente personalizada. Não interpreto isso como rejeição à religião ou às forças de segurança, mas como mudança de intermediários. O eleitor pode continuar defendendo valores conservadores e cobrando respostas mais duras para a criminalidade sem necessariamente considerar que um pastor deva ser seu principal representante ou que um policial seja, por definição, o melhor porta-voz dessa agenda.
O resultado do Senado torna essa peculiaridade ainda mais evidente. Enquanto o país elegeu quantidade expressiva de representantes oriundos das forças de segurança, o Ceará escolheu Cid Gomes e Luizianne Lins. Nenhum dos dois pertence ao campo que nacionalmente protagonizou a expansão da chamada direita da “Bíblia e da “bala”. É por isso que não me parece correto afirmar simplesmente que o Ceará seguiu a onda conservadora nacional. Seguiu, mas à sua maneira. O nosso eleitor parece estar produzindo direita menos corporativa e mais ideológica; menos dependente das estruturas tradicionais das igrejas e das corporações de segurança e mais vinculada a lideranças políticas capazes de sintetizar diferentes insatisfações.
Essa distinção será importante para compreender o Ceará dos próximos anos, porque talvez estejamos diante de nova etapa do conservadorismo cearense, com uma direita sem necessariamente ser conduzida pelos pastores ou pelos homens da farda. Essa é uma das revelações políticas mais interessantes deixadas pelas urnas de 2026 e que desde já deve começar a preocupar os lideres de esquerda no poder.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista, psicólogo e titular da coluna !Fora das4Linhas”, do Blogdoeliomar.