“O (des)encanto com a Copa há 30 dias” – Por Luiz Henrique Campos

Eita, mundo do futebol cheio de dribles.

Com o título “O (des)encanto com a Copa há 30 dias”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Pesquisa recente aponta que 53% dos brasileiros não demonstram interesse pela competição. O dado, por si só, já seria impensável há algumas décadas”, expõe o colunista.

Confira:

Faltam apenas 30 dias para o início de mais uma Copa do Mundo. Em outros tempos, esse seria o suficiente para mudar o humor do país. As ruas começariam a ganhar bandeiras, as conversas de esquina migrariam para escalações improváveis e o Brasil, ainda que por algumas semanas, pareceria reencontrar o raro sentimento de unidade nacional. Mas algo mudou.

Pesquisa recente aponta que 53% dos brasileiros não demonstram interesse pela competição. O dado, por si só, já seria impensável há algumas décadas. Afinal, fomos educados sob a crença de que éramos o país do futebol, a pátria de chuteiras descrita por Nelson Rodrigues, onde Copa do Mundo não era apenas esporte, mas quase um rito cívico. Resta a pergunta. Ainda somos?

A resposta talvez esteja menos no futebol e mais no Brasil que nos tornamos.

Dentro de campo, a seleção já não mobiliza o mesmo pertencimento. Nossos craques são formados cedo demais para o mercado externo, vivem longe do cotidiano nacional e muitas vezes parecem mais conectados a marcas globais do que ao imaginário popular que um dia fez de Pelé, Zico, Sócrates, Romário e Ronaldo símbolos de identificação coletiva.

A camisa amarela, por décadas emblema espontâneo de orgulho nacional, também perdeu parte de sua inocência simbólica. Apropriada politicamente por campo ideológico específico, deixou de ser ponto de encontro para se tornar, para muitos, sinal de exclusão. O que era festa virou senha; o que era abraço virou trincheira. E há ainda o desencanto mais amplo.

Um país esmagado por crises sucessivas, pela desigualdade persistente e pela exaustão política já não encontra no futebol a mesma capacidade de suspensão da realidade. O escapismo perdeu força quando a própria vida exige atenção integral. Talvez não seja a Copa que tenha perdido encanto. Talvez sejamos nós que perdemos a capacidade de nos reconhecer coletivamente nela

Se um dia a Copa foi espelho de nossa identidade, o reflexo agora revela o Brasil real, fragmentado, desconfiado e cansado. E talvez a maior derrota não seja a ausência do hexa, mas a incapacidade de voltar a vestir a mesma camisa — no sentido mais profundo que isso um dia significou.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

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