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“O Eixo do Mundo está mudando para a Ásia?” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvlaho é advogado e mestre em Negócios Internacionais. Fotot: Acervo Pessoal.

Com o título “O Eixo do Mundo está mudando para a Ásia?”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais. “As perspectivas para as próximas décadas indicam que a Ásia continuará exercendo papel crescente na economia, na ciência, na tecnologia, na produção industrial e na diplomacia internacional. Sua dimensão populacional, sua capacidade produtiva e seus investimentos em inovação lhe conferem vantagens competitivas significativas”, expõe o articulista.

Confira:

Ao longo da história, o centro de gravidade da civilização nunca permaneceu fixo. Durante a Antiguidade, as grandes civilizações floresceram no Oriente. Posteriormente, a Europa tornou-se o principal polo político, econômico, científico e militar do planeta, sobretudo a partir das Grandes Navegações, da Revolução Industrial e da expansão colonial. No século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consolidaram-se como a maior potência global, conduzindo uma ordem internacional baseada na força econômica, tecnológica e militar do Ocidente. Entretanto, o século XXI parece inaugurar uma nova etapa da história, na qual inúmeros indicadores sugerem um deslocamento gradual do eixo mundial em direção à Ásia.

Sob a perspectiva econômica, os números são eloquentes. A Ásia responde atualmente por uma parcela crescente da produção mundial, do comércio internacional e da manufatura industrial. Países como China, Índia, Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Indonésia e Singapura apresentam elevados níveis de industrialização, crescimento tecnológico, investimentos em infraestrutura e crescente protagonismo financeiro. A China já ocupa posição central na economia internacional, liderando diversos setores industriais, investimentos em infraestrutura global e inovação tecnológica, enquanto a Índia desponta como uma das economias de maior crescimento do planeta, impulsionada por sua vasta população, pela expansão dos serviços digitais e pela formação de capital humano altamente qualificado.

Além disso, a região concentra alguns dos maiores centros financeiros e tecnológicos do mundo. Cidades como Xangai, Shenzhen, Singapura, Seul e Tóquio tornaram-se referências globais em inovação, inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, robótica e comércio internacional. A crescente integração econômica asiática, somada à expansão das cadeias produtivas e dos investimentos em infraestrutura regional, fortalece ainda mais esse protagonismo.

Paralelamente ao crescimento econômico, observa-se uma impressionante transformação social. Milhões de pessoas saíram da pobreza nas últimas décadas em diversos países asiáticos, formando uma ampla classe média consumidora. Esse fenômeno impulsiona o mercado interno, amplia a capacidade de investimento e fortalece a estabilidade econômica. A educação, tradicionalmente valorizada em muitas
sociedades asiáticas, contribuiu para a formação de profissionais altamente qualificados nas áreas de ciência, engenharia, medicina e tecnologia, elevando significativamente a competitividade internacional desses países.

Enquanto isso, grande parte do Ocidente enfrenta desafios estruturais importantes. A Europa vive um acelerado processo de envelhecimento populacional. Em praticamente todos os países europeus, as taxas de fecundidade permanecem muito abaixo do nível necessário para a reposição da população. Situação semelhante ocorre em diversos países da América do Norte e, de forma cada vez mais evidente, também na América do Sul. O Brasil, por exemplo, experimenta uma rápida redução da fecundidade, acompanhada pelo envelhecimento da população e pela diminuição relativa da população jovem. Essa transformação traz impactos profundos para os sistemas previdenciários, para o mercado de trabalho, para os gastos públicos com saúde e para a dinâmica econômica das próximas décadas.

É importante reconhecer, contudo, que a própria Ásia também enfrenta desafios demográficos. Países como Japão, Coreia do Sul, China, Singapura e Taiwan registram algumas das menores taxas de natalidade do mundo, igualmente abaixo do nível de reposição populacional. A principal diferença reside no fato de que outras nações asiáticas, especialmente a Índia, a Indonésia, as Filipinas e diversos países do Sudeste
Asiático, ainda possuem populações relativamente jovens, o que contribui para manter o dinamismo econômico e ampliar o mercado consumidor regional. Assim, a vantagem demográfica asiática não é uniforme, mas decorre da diversidade do continente e do
peso de suas populações numerosas.

Outro aspecto frequentemente menos observado é a dimensão religiosa dessa transformação. Durante séculos, o cristianismo concentrou seu maior número de fiéis na Europa e, posteriormente, nas Américas. Entretanto, nas últimas décadas, o crescimento relativo do cristianismo, especialmente do catolicismo, tornou-se mais expressivo em diversos países asiáticos. Embora os católicos ainda constituam minoria na maior parte do continente, as comunidades católicas apresentam elevado dinamismo missionário, aumento de vocações religiosas, participação ativa dos leigos e significativa expansão das instituições educacionais e assistenciais.

Países como Filipinas, Índia, Coreia do Sul, Vietnã e comunidades presentes na própria China demonstram crescente vitalidade da Igreja. Em diversas regiões asiáticas, observa-se um aumento nas conversões, na participação comunitária e no florescimento de novas lideranças eclesiais. Ao mesmo tempo, muitas dioceses europeias enfrentam redução do número de sacerdotes, fechamento de paróquias e diminuição da prática religiosa, refletindo o processo de secularização que caracteriza boa parte das sociedades ocidentais. Ainda assim, o maior crescimento numérico do catolicismo nas últimas décadas tem ocorrido sobretudo na África, seguida por partes da Ásia, indicando uma mudança gradual do centro demográfico da Igreja para o chamado Sul Global.

Do ponto de vista geopolítico, a ascensão asiática também se manifesta pelo fortalecimento de novos mecanismos de cooperação econômica e financeira, pelo aumento da influência diplomática regional e pela crescente capacidade tecnológica e militar de diversas nações. A expansão das rotas comerciais, dos investimentos em infraestrutura, da pesquisa científica e da inovação consolida um ambiente internacional cada vez mais multipolar, no qual a Ásia ocupa posição central.

Entretanto, afirmar que o eixo do mundo já se deslocou completamente para a Ásia seria uma simplificação. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta, preservam enorme capacidade de inovação científica e tecnológica e abrigam algumas das principais universidades, empresas e centros financeiros globais. A Europa, apesar de seus desafios demográficos, mantém elevado nível de desenvolvimento humano, sólida capacidade científica e importante influência política e cultural. O cenário mais provável não é a substituição absoluta de um polo por outro, mas a formação de uma ordem internacional mais distribuída, em que diferentes centros de
poder coexistem.

As perspectivas para as próximas décadas indicam que a Ásia continuará exercendo papel crescente na economia, na ciência, na tecnologia, na produção industrial e na diplomacia internacional. Sua dimensão populacional, sua capacidade produtiva e seus investimentos em inovação lhe conferem vantagens competitivas significativas. Ao mesmo tempo, os desafios relacionados ao envelhecimento populacional, às
desigualdades sociais, às tensões geopolíticas e às mudanças climáticas exigirão soluções igualmente complexas.

Em síntese, os indicadores econômicos, demográficos, tecnológicos e religiosos apontam para uma profunda reconfiguração do sistema internacional. O século XXI tende a ser marcado por um protagonismo asiático cada vez maior, sem que isso implique necessariamente o desaparecimento da influência ocidental. Mais do que uma simples transferência de hegemonia, assiste-se ao surgimento de um mundo multipolar, no qual a Ásia deixa de ser apenas um importante ator regional para consolidar-se como um dos principais centros da economia, da cultura, da inovação e, possivelmente, da vida religiosa mundial nas próximas gerações.

*Vanilo de Carvalho

Advogado e mestre em Negócios Internacionais.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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