“O estadista contra o gangster: a guerra suja da perversa elite brasileira contra o povo” – Por Francisco Bezerra

Francisco Bezerra é jornalista, radialista escritor.

Com o título “O estadista contra o gangster: a guerra suja da perversa elite brasileira contra o povo”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. “O duro é assistir ao nosso maior líder popular da história deste país tendo que se submeter a humilhação que é disputar uma eleição contra um gangster. Um candidato que já deveria estar preso e não em campanha
eleitoral”,expõe o articulista.

“As guerras, a pobreza e as injustiças sociais são o maior atestado do primitivismo, do egoísmo e da incompetência humana.” (Augusto Branco).

Confira:

Os tempos que estamos testemunhando são os mais sombrios de nossa história recente. Digo isto do alto dos meus 65 anos. Nasci em 1961, um ano de muitas atribulações políticas. Com 6 meses e 25 dias de governo, para ser bem preciso, Jânio da Silva Quadros, o “homem da vassoura”, surpreende o mundo político nacional e internacional ao renunciar, no dia 25 de agosto, o Dia do Soldado, a mandato presidencial, conquistado no ano anterior, quando derrotou nas urnas, com o apoio da golpista UDN, o candidato da coligação PSD/PTB, marechal Henrique Teixeira Lott. Abriu-se a partir daí uma crise institucional do tamanho do rio Amazonas, pois os ministros militares vetaram a posse do vice, legitimamente eleito (até a eleição de 1960, o eleitor votava no candidato a presidente e no vice), o trabalhista João Goulart, que naquele momento empreendia viagem diplomática à China comunista.

Para debelar a crise política e o perigo iminente de uma guerra civil, entrou em campo o time da conciliação nacional, à frente o “capitão” da equipe, o mineiro Tancredo Neves. Para estancar a sangria política que jorrava dos quartéis e do parlamento nacional, o remédio foi a instituição, via emenda à Constituição de 1946, do sistema parlamentarista de governo. Desse modo, João Goulart assumiu a presidência como Chefe de Estado e Tancredo Neves envergou o cargo de primeiro- ministro.

Quem achava que a ferida estava curada caiu do cavalo. Em 1963, Goulart retoma plenos poderes com a volta do presidencialismo, após plebiscito realizado no dia 6 de janeiro de 1963. Os golpistas de plantão não engoliram a mudança do sistema de governo e muito menos concordavam com as reformas de base que começaram a ser implementadas pelo político gaúcho. No dia 2 de abril de 1964, eclode o golpe civil partido do Congresso Nacional, quando o presidente das duas Casas, senador Auro Moura Andrade, declara vaga presidência da República, alegando que o presidente abandonara o poder e o país encontrava-se, segundo ele, acéfalo. Uma patranha descarada já que João Goulart não se ausentara do território nacional, encontrando-se na cidade de Porto Alegre. O golpe civil, então, abriu caminho para
que os militares instaurassem uma ditadura cruenta que perdurou por longos 21 anos.

Por trás de todas estas escaramuças, acolitando a ações dos patetas militares, ela sempre ela, nossa elite branca, escravagista e preconceituosa. Aquela que pensa igualzinho a um dos presidentes ditadores durante o regimente militar. Num cinismo escancarado, o cavalariço presidente João Figueiredo, em entrevista à imprensa nacional, disse preferir o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo. Mais a cara da classe dominante brasileira, impossível. Com efeito, o estamento “superior” das classes do poder econômico apoiou abertamente um regime de exceção que prendeu, torturou, matou e baniu brasileiros patriotas que defendiam a volta da democracia. Comandando o condomínio midiático a serviço desta elite apátrida, as Organizações Globo, mentindo, omitindo e imbecilizando a turma do andar de baixo.

A Globo, no entanto, era só a ponta do enorme iceberg que levou o Brasil ao caos econômico e social, ajudando a perpetrar desigualdades históricas e desumanas. A mesma Globo que, no auge de seu poderio de audiência, tentou fraudar a eleição de Leonel Brizola a governador do Rio de Janeiro em 1982, escondeu as Diretas Já, favoreceu a candidatura dos “bacanas” em 1989, quando, depois de 29 anos, o brasileiro voltou a ter o direito de escolher seu mandatário de forma direta. Naquele ano inesquecível, Lula, representando as classes populares, foi para a disputa em segundo turno, contra o candidato dos brancos bem nascidos, o famoso caçador de marajás, Fernando Collor de Melo, um playboy corrupto e irresponsável, construído “nas coxas” (como se diz no meio do populacho) nos laboratórios de marketing da mídia corporativa. O ardil da globo, ao editar criminosamente o último debate entre os dois candidatos, contribuiu de forma decisiva para a derrota do petista.

Com Collor começou o desmonte do Estado brasileiro. A posteriori vieram os tucanos comandados por Fernando Henrique para completar a obra de destruição do patrimônio nacional com o projeto das privatizações selvagens. Neste contexto, as empresas brasileiras, superavitárias e vitais para o desenvolvimento nacional, foram vendidas na bacia das almas, beneficiando empresas multinacionais e a turma do rentismo daqui e de alhures.

Sobre a nossa elite branca perversa e inimiga do povo brasileiro, ninguém melhor para definir seu caráter entreguista e antipovo que o inesquecível antropólogo Darcy Ribeiro. Pegamos aqui um pedaço de um texto de sua autoria inserido no livro “Ensaios insólitos,” lançado originalmente em 1979 pela Editora L&PM: “Nunca se viu, em outra parte, ricos tão capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para
subjugar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empresários, doutores e comandantes. Quase sempre cordiais uns para com os outros, sempre duros e implacáveis para com subalternos, e insaciáveis na apropriação dos frutos do trabalho alheio. Eles tramam e retramam, há séculos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro. Deformado e constrangido e atrasado. E assim é, sabemos agora, porque só assim a velha classe pode manter, sem sobressaltos, este tipo de prosperidade de que ela desfruta, uma prosperidade jamais generalizável aos que a produzem com o seu trabalho, mas uma prosperidade sempre suficiente para reproduzir, geração após geração, a riqueza, a distinção e a beleza de nossos ricos, suas mulheres e filhos.”

Outro herói brasileiro de nacionalidade italiana, Mino Carta, sempre que pode deixou nua esta elite despudorada e putrefata. A visão do jornalista e escritor sobre a elite brasileira foi marcada por críticas contundentes à sua formação histórica, ao seu comportamento social e ao seu distanciamento em relação ao país real. Disse ele: “A elite brasileira sofre de uma profunda incapacidade de se enxergar criticamente,
mesmo diante de evidências claras das mazelas sociais do país. Essa classe social frequentemente tenta ostentar uma sofisticação superficial e vazia, revelando um provincianismo cultural de uma minoria alienada. Assim sendo, afirmo com todas as letras: quem se imbecilizou no Brasil não foi o povo, mas sim a sua elite, que vive submersa em privilégios e desconectada dos destinos da nação. Em minhas análises
sobre a conjuntura do país, não há como desvincular os limites da sociedade contemporânea à herança histórica de uma elite de viés colonial e escravocrata, incapaz de promover transformações estruturais profundas que tire o país do atraso.”

O professor Jessé Sousa, em seu “best-seller,” “A Elite do atraso: da escravidão à Lava Jato,” defende que os problemas sociais, a desigualdade e a corrupção no Brasil não nascem do “patrimonialismo” herdado de Portugal (tese clássica de autores como Sérgio Buarque de Holanda), mas sim da herança da escravidão. O autor caracteriza a elite brasileira não como produtiva, mas como uma “elite do saque” que utiliza o Estado e a manipulação ideológica para apropriar-se dos recursos nacionais. Além dos personagens já citados acima, é bom registrar que vários outros intelectuais, sociólogos e historiadores brasileiros dedicaram suas obras a criticar severamente a formação, o comportamento e a influência da elite do Brasil para sabotar um projeto de Nação. Florestan Fernandes, fundador da sociologia crítica no Brasil, apontou que a burguesia e as elites brasileiras nunca foram verdadeiramente democráticas. Ele cunhou o termo “autocracia burguesa” para explicar como as elites fecham canais de participação popular para proteger seus interesses econômicos.

Por sua vez, o sociólogo, historiador, geógrafo, escritor, filósofo, político e editor brasileiro, Caio Prado Júnior, analisou a formação do país a partir do sentido da colonização. Para ele, as elites brasileiras moldaram a economia e a sociedade para atender ao mercado externo, mantendo uma estrutura de exploração que impedia o desenvolvimento de uma nação justa e soberana. As suas obras inauguraram, no país, uma tradição historiográfica identificada com o marxismo, buscando uma explicação diferenciada da sociedade colonial brasileira.

Não menos cáustico em suas críticas à nossa elite subserviente e vassala dos interesses das grandes potências mundiais, o jurista, sociólogo, historiador, cientista político e escritor brasileiro, Raimundo Faoro, em sua obra clássica Os Donos do Poder, criticou o que chamou de estamento patrimonialista. Ele teoriza que uma elite burocrática e política se apossou do Estado brasileiro desde o período colonial, tratando o bem público como propriedade privada para autopreservação. E como não citar, neste ensaio ou artigo crítico, o mestre Milton Santos. O geógrafo criticou duramente as elites por promoverem uma “globalização perversa”. Ele defendia que as classes dominantes brasileiras organizaram o território e as cidades de forma a segregar os mais pobres, priorizando o lucro financeiro em detrimento das necessidades humanas básicas.

Outros tantos sociólogos e historiadores brasileiros defendem a tese que a desigualdade e a hierarquia social brasileiras não vêm do “homem cordial” ou do Estado corrupto, mas da continuidade de uma sociedade escravista que moldou a economia, a política e o direito. Conforme ainda teses de pensadores de Pindorama, a elite econômica nacional é caracterizada como uma classe que não produz riqueza real, mas apropria-se de recursos públicos, juros da dívida e monopólios por meio do Estado. O discurso anticorrupção e o foco no “patrimonialismo” são armas ideológicas usadas pela elite e pela grande mídia para criminalizar a política, esconder a exploração real e paralisar a ascensão das classes populares.

Sublinho ainda a crítica ácida da socióloga Marilena Chauí, sobretudo à classe média nacional a quem ela chama de “capataz” da elite. Segundo ela, a classe média não possui capital econômico próprio, mas utiliza seu capital cultural para alinhar-se aos interesses dos mais ricos. “Alimentada por preconceitos, a classe média reproduz o ódio contra a “ralé” (o subproletariado e os mais pobres) e funciona como o elo que transmite os valores, a moral e a ideologia da classe dominante para o restante da sociedade através de instituições como escolas, jornais, livros e meios de comunicação. A classe média é o braço ideológico e de reprovação moral da elite,” argumenta com ênfase Marilena.

Pois bem, na conjuntura atual, numa hora crucial para o futuro da nação, onde temos de um lado um estadista, um cidadão do mundo, um líder planetário, o Lula, e do outro um gangster, um desprezível “lombroso,” que pretende instituir no Brasil a República do Crime Organizado, como já fizera no Rio de Janeiro, nossa elite branca, escravagista e abjeta apoia às escancaras Flávio Bolsonaro. Apoio que vem da Faria Lima, do agronegócio, setores empresariais, parte do judiciário e do PIG (Partido da Imprensa Golpista), como bem definiu a imprensa nacional o saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim. O duro é assistir ao nosso maior líder popular da história deste país tendo que se submeter a humilhação que é disputar uma eleição contra um gangster. Um candidato que já deveria estar preso e não em campanha
eleitoral. Bem disse lá atrás o maestro soberano Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes.” E sai da frente que atrás vem gente.

*Francisco Bezerra

Jornalista, radialista e escritor.

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