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“O fim da globalização ingênua e a nova geopolítica do poder: por que o Brasil precisa escolher o realismo” – Por Aldairton Carvalho

Aldairton Carvalho é advogado e presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança

“A virada começou de forma silenciosa: crises financeiras, guerras comerciais, disputas tecnológicas, conflitos regionais e o uso explícito de sanções econômicas como instrumento de política externa”, aponta o advogado e cientista político Aldairton Carvalho

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Durante décadas, a globalização foi apresentada como um destino inevitável da humanidade. Um mundo de fronteiras diluídas, mercados integrados, circulação irrestrita de capitais, pessoas e ideias. A crença dominante era a de que a interdependência econômica reduziria conflitos, diluiria rivalidades históricas e produziria uma ordem internacional mais estável e cooperativa.

Esse mundo não existe mais. A globalização, tal como concebida no pós-Guerra Fria, não acabou por completo, mas perdeu seu caráter universal e idealista. Em seu lugar, surge uma globalização seletiva, estratégica e profundamente política, marcada por disputas de poder, segurança nacional e controle de recursos críticos. O século XXI não está sendo moldado por consensos multilaterais, mas por polos de força.

A virada começou de forma silenciosa: crises financeiras, guerras comerciais, disputas tecnológicas, conflitos regionais e o uso explícito de sanções econômicas como instrumento de política externa. Cadeias produtivas passaram a ser vistas não apenas como vetores de eficiência, mas como vulnerabilidades estratégicas.

O Estado, que muitos acreditavam estar em declínio, voltou ao centro do tabuleiro. Hoje, tecnologia, energia, alimentos, semicondutores, minerais estratégicos e dados são tratados como ativos de segurança nacional. A lógica do livre mercado deu lugar à lógica do interesse nacional.

Nesse novo cenário, o sistema internacional se organiza, na prática, em torno de três grandes polos: Estados Unidos – potência militar, tecnológica e financeira dominante no Hemisfério Ocidental, com capacidade de projeção global e um mercado interno que ainda sustenta grande parte da economia mundial. China – centro industrial e financeiro da Ásia, com crescente influência sobre o Hemisfério Sul por meio de comércio, financiamento, infraestrutura e tecnologia. Rússia – potência militar e energética, cuja estratégia se baseia na reconfiguração de espaços geopolíticos, sobretudo na Europa e na Eurásia.

A África, por sua vez, emerge como território-chave do século XXI: rica em recursos, jovem demograficamente e ainda sem um eixo hegemônico claro, tornando-se objeto de disputa entre os polos. Esse arranjo não é formalizado em tratados, mas se impõe pela realidade do poder.

Em um mundo tripolar, a neutralidade absoluta é, em grande medida, uma ilusão. Países e regiões que não definem claramente sua inserção estratégica acabam sendo influenciados ou pressionados de forma indireta, muitas vezes em condições menos favoráveis.
A história recente demonstra que não escolher também é uma escolha, geralmente a pior delas.

Para regiões periféricas ou semi-periféricas, como a América do Sul, a questão central não é ideológica, mas estrutural: com qual polo existe maior convergência de interesses, menor risco de conflito e maior possibilidade de preservação da soberania?
O Brasil ocupa uma posição singular. Detém vastos recursos naturais, matriz energética relativamente limpa, produção agrícola estratégica e localização geográfica privilegiada. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios históricos de infraestrutura, tecnologia e produtividade.

Nesse contexto, a convivência estratégica com a liderança norte americana no Hemisfério Ocidental não decorre de afinidade ideológica, mas de pragmatismo geopolítico. Há uma complementariedade evidente: o Brasil oferece recursos, energia, alimentos e território. Os Estados Unidos oferecem mercado consumidor, capital, tecnologia e previsibilidade institucional. Essa relação, quando bem conduzida, não é de submissão, mas de interdependência negociada.

A alternativa buscar alinhamentos prioritários fora do eixo hemisférico traz riscos concretos. Dependência tecnológica, endividamento estratégico, pressão diplomática e importação de conflitos externos são consequências frequentes quando interesses geográficos e econômicos não coincidem. Experiências recentes mostram que projetos de desenvolvimento baseados em relações assimétricas tendem a reduzir a autonomia real dos Estados, mesmo quando envoltos em discursos de cooperação e solidariedade.

Um dos maiores equívocos do debate público brasileiro é transformar política externa em extensão de disputas ideológicas internas. Direita ou esquerda, democracia liberal ou modelos alternativos, nenhum desses rótulos altera o fato de que o mundo opera por interesses nacionais concretos. Estados bem sucedidos são aqueles capazes de separar retórica doméstica de estratégia internacional. O fim da globalização ingênua não significa o colapso da cooperação internacional, mas sua redefinição. O mundo não será governado por ideais abstratos, e sim por decisões racionais, baseadas em poder, previsibilidade e interesses convergentes.

Para o Brasil e a América do Sul, reconhecer a liderança dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e construir uma convivência pacífica, harmônica e estratégica é menos uma escolha política e mais uma decisão de maturidade geopolítica. No século XXI, prosperarão não os que sonham com um mundo que deixou de existir, mas os que compreendem o mundo como ele é, e agem com inteligência diante dele.

Aldairton Carvalho

Advogado, pós-graduado em Ciência Política, mestrando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa e presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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