Com o título “Uma sociedade anestesiada”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel da reserva da PM doCeará e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “Uma sociedade que desaprendeu a sentir sofrimento acaba também desaprendendo a sentir humanidade”, expõe o articulista.
Confira:
Esses dias me peguei meditando sobre a dor. Inicialmente achei que esse súbito pensar veio por causa da idade. Amigos dizem que cheguei à fase do conDor, um trocadilho com a ave poeticamente cantada por Osvaldo Montenegro.
O fato é que as articulações do corpo já não se movimentam com a mesma facilidade dos meus vinte e poucos anos, também lembrados em canção da nossa MPB na voz do talentoso Fábio Júnior.
Citar esses dois artistas da minha juventude já entrega um pouco da minha idade. Vivi mais de meio século.
Quando falo de dor, não me refiro apenas às dores físicas, mas também às emocionais. Não existe um medidor para o sofrimento humano, pelo menos eu desconheço a sua existência. O fato é que esse tipo de sentimento é algo que ninguém deseja experimentar. Ainda assim, hoje o compreendo como algo necessário.
Quando meu pai faleceu, percebi que o sofrimento daquela perda era proporcional ao amor que eu sentia por ele. Algo aparentemente contraditório: uma ferida que nasce justamente do amor. Era o luto, a ausência definitiva. A partir dali tornei-me mais sensível ao sofrimento provocado pela morte.
Na adolescência experimentei outra forma de padecimento: a desilusão amorosa. Uma sensação diferente, ligada à ideia de derrota, um certo desalento na alma. No meu caso foi passageiro. Diferente de Florentino, personagem de Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos do Cólera. Aquele primeiro desencontro amoroso acabou me deixando mais romântico.
Em ambas as experiências as lágrimas estavam presentes, ainda que provocadas por sentimentos distintos. Uma nascida do storgé (amor entre pais e filhos), outra do eros (amor ligado ao desejo), como sabiamente distinguiram os gregos ao refletirem sobre o significado do amor.
Talvez o sofrimento seja isso: uma linguagem silenciosa da alma. Um lembrete de que estamos vivos e de que aquilo que perdemos, ou desejamos, um dia foi profundamente importante para nós.
Foi pensando nessas experiências pessoais que comecei a perceber um fenômeno curioso do nosso tempo.
Hoje falar de sofrimento em uma sociedade da positividade, onde a ausência de qualquer aflição é vendida como sinônimo de sucesso, parece quase um erro de diagnóstico. A algofobia empurra as pessoas para analgésicos, anestésicos emocionais e distrações digitais. O século XXI criou a sociedade do curtir.
Todavia, uma sociedade que se anestesia contra o sofrimento também perde a capacidade de sentir compaixão. As mortes deixam de ser tragédias humanas e passam a ser números, curtidas ou estatísticas prontas para serem comparadas e esquecidas.
Talvez por isso aquela criança que gritava por socorro na beira-mar de Fortaleza não tenha sido ouvida. Seu sofrimento parecia pequeno demais para interromper a caminhada distraída de quem passeava diante do nosso instagramável cartão-postal.
E assim seguimos. Uma sociedade que desaprendeu a sentir sofrimento acaba também desaprendendo a sentir humanidade.
*Plauto de Lima
Coronel da Reserva PMCe e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.