“Pela primeira vez ninguém sabe de cor a escalação da seleção. Há poucos dias da estreia do Brasil na Copa, sequer temos um time titular definido”, aponta o defensor de direitos humanos Mário Miranda de Albuquerque
Confira:
Desde que me entendo como torcedor brasileiro (Copa de 58, pelas ondas do radio, 9 anos de idade), sempre torci pela Canarinha. Mesmo sob a ditadura, que dela procurava se aproveitar abertamente, e amargando quase nove anos de prisão. Sempre procurei separar as coisas (“uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”). Falava mais alto o sentimento de pertencimento a uma pátria comum e a identificação com a seleção. Deve contar também o fato de que sempre fui “peladeiro”, como quase todo jovem da minha geração. Tempo em que tudo virava bola, inclusive “meia”, e espaço campo, inclusive cela.
Mas dessa vez sou dominado por um sentimento esquisito que ainda não consigo decifrar, fechar a gestalt, mas sinto que algo está mudando. Pela primeira vez, sinto a sensação de “essa seleção não é nossa” e percebo que ela é geral, nosso povo está sentindo isso também. Pela primeira vez ninguém sabe de cor a escalação da seleção. Há poucos dias da estreia do Brasil na Copa, sequer temos um time titular definido e se desconhece os nomes e times em que joga a maioria dos jogadores. Começa que a maioria é de “estrangeiros”. Até o técnico! Nunca houve isso. Mas talvez tudo advenha do fato de que o futebol tenha passado por uma profunda e, tudo indica, irreversível transformação estrutural, virando um gigantesco negócio na casa de trilhões e meta planetária (até o reino do Butão tem sua seleção, e não é de Botão). Virou commodite, como é da moda. E isso muda tudo. Jogador não tem mais identificação com clube e muito menos com seleção nacional e evita jogadas mais arriscadas, temendo uma contusão que possa comprometer futuras contratações. Nesse contexto, como criticá-los ?
Como diz a canção de Bob Dylan, “tá tudo mudando”. Tudo bem. É a lei da vida. Talvez o problema esteja no ritmo, na velocidade. Ou de geração. Mas “tô dentro”. Vou vestir de verde e amarelo, botar adesivo, agitar bandeira, e gritar e pular com os gols da Canarinha. E, quem sabe, com esse novo formato da Copa, com 48 seleções, tudo pode acontecer. Inclusive o Brasil ser hexa. Oxalá!
Mário Miranda de Albuquerque
Conselheiro da Comissão Nacional de Anistia e defensor de direitos humanos
Torcedor do Ferrim e do Santos