Com o título “O Foro de São Paulo em estado terminal: uma leitura sócio-histórica”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “O Foro funcionou como blindagem provisória ao autoritarismo regional, blindagem esta que seus defensores ainda tentam justificar sob a narrativa de uma suposta resistência à hegemonia liberal, à defesa da soberania nacional e ao espectro do imperialismo norte-americano”, expõe o articulista.
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O Foro de São Paulo entrou em colapso definitivo. A vitória do conservador Abelardo de la Espriella na Colômbia, a consagração de Keiko Fujimori no Peru e, sobretudo, a histórica decisão da Assembleia Nacional Cubana de aprovar, nesta semana, mais de 175 atos de reformas privatizando a economia, liberando o sistema bancário, entregando ao capital privado o sistema de importação e exportação e o comando da economia, evidenciam o melancólico e irreversível derretimento da utopia socialista na América Latina. O outrora poderoso Foro de São Paulo revela-se hoje um ciclo esgotado, anacrônico e incapaz de atender às demandas e transformações políticas e econômicas que varrem a América Latina.
Criado no rastro do colapso do socialismo real no final da década de 1980, que deixou a esquerda perdida e sem referenciais ideológica, o Foro nasceu como tentativa de reorganizar as forças de esquerda latino-americanas diante de um cenário mundial em transformação. A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, simbolizou a falência política, econômica e ideológica do modelo socialista implantado no Leste Europeu. Pouco depois, em 1991, a própria União Soviética desapareceu do mapa político mundial, encerrando um ciclo histórico iniciado com a Revolução Russa de 1917. Para os partidos comunistas e movimentos de esquerda da América Latina, aqueles acontecimentos representaram uma derrota devastadora, pois perderam os principais referenciais ideológicos e os centros de apoio político que durante décadas sustentaram suas lutas.
A crise atingiu em cheio as organizações de esquerda latino-americanas. O modelo de socialismo soviético, que durante décadas havia sido apresentado como alternativa ao sistema capitalista, encontrava-se desacreditado perante a opinião pública mundial. Ao mesmo tempo, o liberalismo econômico e a democracia representativa passavam a reinar sem adversários, fortalecidos pela liderança global dos Estados Unidos. Nesse contexto de fim do socialismo real e o consequente fim da guerra fria, o filósofo americano Francis Fukuyama proclamou “o fim da história”, concluindo que a democracia liberal e o capitalismo de mercado teriam se consolidado como a forma final e universal de organização política e econômica, sem rivais ideológicos capazes de competir. É verdade que há um pouco de exagero na proclamação de Fukuyama, mas em relação ao desastre histórico das utopias socialistas, sua afirmação continua corretíssima.
Diante do isolamento total das esquerdas após o colapso soviético, Fidel Castro e Lula arquitetaram, em 1990, o Foro de São Paulo como um consórcio de sobrevivência, reunindo partidos políticos, movimentos sociais e organizações guerrilheiras da América Latina. Tratava-se de um plano de contingência oligárquico, concebido para estancar a perda de influência e blindar um projeto de poder continental capaz de resistir à hegemonia ocidental liderada pelos Estados Unidos. Para viabilizar essa estratégia, intelectuais e burocratas partidários promoveram uma metamorfose oportunista nas teses socialistas, abandonando o modelo soviético falido e adaptando-o à realidade sócio-histórico latino-americana sob o rótulo folclórico de “socialismo moreno”. O estratagema consistia em fragmentar deliberadamente a centralidade da luta de classes e substituí-la pelo identitarismo, indigenismo, nacionalismo de fachada, um Estado assistencialista e intervencionista, ideologia de gênero e a cooptação de movimentos populares, convertidos em massa de manobra contra a influência geopolítica americana.
Em síntese, o Foro de São Paulo ergueu-se como a tábua de salvação e o quartel-general estratégico das esquerdas latino-americanas diante do colapso do bloco soviético. Longe de se limitar a um espaço de debates, a organização operou como um mecanismo dissimulado para perpetuar o projeto socialista sob novas e sedutoras roupagens tropicais. O Foro funcionou como blindagem provisória ao autoritarismo regional, blindagem esta que seus defensores ainda tentam justificar sob a narrativa de uma suposta resistência à hegemonia liberal, à defesa da soberania nacional e ao espectro do imperialismo norte-americano.
O auge da contaminação política promovida pelo Foro ocorreu nos anos 2000, quando uma onda de partidos de esquerda e centro-esquerda, alimentada por recursos do narcotráfico, tomou o poder quase simultaneamente em diversos países da América Latina. A ascensão de autocratas e cleptocratas como Lula no Brasil, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador conferiu à organização uma musculatura inédita, transformando-a no epicentro da articulação ideológica e da blindagem mútua. Nesse período, a retórica hipócrita de integração regional, a falsa soberania antiocidental e o populismo assistencialista, desenhado para anestesiar a população e garantir a perpetuação eleitoral, ganharam força, consolidando o Foro como o principal cartel de influência política do continente.
Entretanto, a partir da década de 2010, o castelo de cartas começou a ruir, empurrando o Foro para uma irreversível agonia política. A exaustão do modelo populista, incapaz de sustentar promessas irreais diante da crescente pressão social e econômica, corroeu os alicerces desses regimes esbanjadores. Ao mesmo tempo, escândalos transnacionais de corrupção sistêmica, hiperinflação, explosão da criminalidade e o despertar das forças conservadoras pulverizaram a pouca legitimidade que lhes restava. Acima de tudo, a transformação da Venezuela em uma ditadura miserável e o colapso humanitário de sua população funcionaram como um espantalho geopolítico, minando a capacidade de articulação do bloco. Hoje, o Foro de São Paulo sobrevive como um cadáver insepulto, politicamente esvaziado e incapaz de ditar os rumos da região.
Ao analisarmos a história recente do continente, uma regularidade histórica salta aos olhos: as populações latino-americanas têm reiteradamente repudiado, nas urnas, o estelionato eleitoral e as farsas ideológicas das forças ditas progressistas. Em países como El Salvador, Equador, Argentina, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica e, mais recentemente, o Peru e a Colômbia, o voto popular tem se convertido em instrumento de rejeição ao projeto do Foro de São Paulo, abrindo espaço para governos de perfil conservador e reformista. Após décadas de sufocamento econômico, roubalheira institucionalizada, criminalidade descontrolada e o esgarçamento do tecido social por meio de pautas divisivas, o sentimento de esgotamento histórico desse ciclo de rapina tornou-se um caminho sem volta.
Se essa regularidade de expurgo se confirmar, as eleições presidenciais brasileiras de outubro representarão o tiro de misericórdia nesse processo histórico. O pleito não será apenas a derrota eleitoral do PT e de seus satélites, mas o enterro político definitivo do Foro de São Paulo, uma organização sombria que, por décadas, reproduziu a miséria e alimentou a violência em toda a América Latina. Hoje, reduzido a um espectro decadente, o Foro assiste, de joelhos, à demolição acelerada de suas últimas trincheiras de poder. O veredito das urnas, se mantida a tendência continental, não apenas encerrará um ciclo de rapina e manipulação, mas marcará o fim de uma era: o desmoronamento irreversível do cartel político da região e, no Brasil, do lulopetismo e de seus puxadinhos.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.