“O fugitivo pode voltar” – Por Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista e escritor

“Ameaçado por um possível “Fora daqui”, o homem dos 60 milhões de votos vai encontrar seus eleitores abandonados pelo candidato que escolheram. Qual será a reação deles?”, aponta o jornalista Gustavo Tapioca

Confira:

Trump, o anfitrião cúmplice dos Bolsonaro, corre o risco de ver ruir sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, 3 de outubro. Diante da ameaça de derrota republicana nas urnas, o fugitivo Flávio Bolsonaro não demora a enfrentar a ironia do próprio destino e de um possível “Fora daqui.”

A Justiça brasileira estará à espera do foragido que queria se esconder atrás de Trump e Rubio. Um derrotado nas urnas, nas redes e nas ruas brasileiras que transformou o Código Penal numa lista de tarefas cumpridas. Ou, como circula também nas ruas e nas redes: Flávio gabaritou o Código Penal.

A aproximação das eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos colocou em curso um relógio regressivo para a milionária fuga de Flávio Bolsonaro.

Se a projeção de vitória dos democratas se confirmar nas urnas nesta terça-feira, 3, a permanência do Bolsonaro Flávio em solo americano deixará de ser um ato de compadrio sob a chancela da Casa Branca e se tornará um impasse institucional de altíssimo custo para Donald Trump.

Embora a legislação norte-americana reserve ao Poder Executivo — via Departamento de Estado e de Segurança Interna — a prerrogativa formal de conceder vistos ou executar deportações, a mudança da maioria no Congresso altera drasticamente o cenário.

Com o controle dos Comissões e o poder legal de emitir intimações (subpoenas), a oposição democrata não hesitará em transformar a proteção ao fugitivo em munição contra a Casa Branca. O santuário imaginado pelos Bolsonaro na Flórida ameaça se converter, em ritmo acelerado, na mais incômoda armadilha diplomática.

Bastidores da fuga

A reconstrução dos bastidores da fuga milionária de Flávio expôs o enredo de uma desesperada operação transnacional. Reportagem do Clarin descreve minuciosamente que, para escapar das ordens judiciais e burlar o monitoramento da Polícia Federal, o candidato derrotado enfrentou mais de 20 horas de carro a partir de Brasília até a fronteira em Puerto Iguazú, trocando de veículos e despistando autoridades.

O plano esbarrou em momentos de tensão na Argentina. Foi necessária a intervenção do governo de Javier Milei e a articulação diplomática expressa vinda de Washington para destravar a saída do jato por um acesso secreto do aeroporto.

Segundo o The New York Times, a operação teve a articulação direta de Jason Miller, conselheiro sênior de Trump, em alinhamento constante com o ex-deputado Eduardo, outro Bolsonaro que atua em solo americano como traidor da pátria e despachante do clã junto ao trumpismo.

O custo milionário da rota de fuga

A dimensão financeira da escapatória escancara cifras que exigem investigação imediata. O Gulfstream G400, matrícula argentina LV-JQW, da empresa Baires Fly, custa R$ 187 milhões.

O fretamento do jato executivo para a rota Puerto Iguazú–Miami (com escala no Equador) custou US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), pagos por um intermediário nos EUA.

O dono do jatinho, Luis Grande, em entrevista à AFP, disse que recebeu o pagamento de um broker (intermediário) que mora nos EUA, de uma conta empresarial americana para uma conta argentina.

A pergunta central permanece: quem bancou essa fatura milionária? Trata-se de caixa dois, do Dark Horse e de outros “investimentos” de Vorcaro?

Dinheiro não declarado ou o patrocínio escancarado de grupos de interesse estrangeiros dispostos a comprar a soberania do Brasil que Flávio oferecia se fosse eleito?

“O hemisfério é nosso”

O acolhimento em Miami não foi mero ato de solidariedade ideológica; é a engrenagem de uma versão repaginada da Doutrina Monroe. Marco Rubio, à frente do Departamento de Estado, resumiu essa geopolítica na frase: “O hemisfério é nosso”.

Trata-se da obsessão em dominar a América Latina e desestabilizar por fora o que a extrema-direita perdeu nas urnas por dentro.

No entanto, o pragmatismo de Washington nunca conheceu lealdade. Na política externa americana, aliados cooptados duram exatamente até o momento em que se tornam um transtorno contábil ou eleitoral.

E a ilusão de que a Flórida seria um santuário inexpugnável pode ruir diante da calculadora fria dos midterms, a eleição desta terça-feira, 3 de novembro.

Gustavo Tapioca
Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de “Meninos do Rio Vermelho”, publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado, e “Entre o golpe e a eleição”

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