“O Mundo dentro do Grão” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera é arquiteto e escritor. Foto: Reprodução

Com o título “O Mundo dentro do Grão”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Ainda que eu deixe de existir, nunca deixarei de sonhar.

Houve um tempo em que imaginei que tudo o que vivemos fosse fruto de um sonho plantado num astro do tamanho de um grão. Nesse ínfimo espaço caberia um universo de vidas paralelas – onde o tempo sequer existisse.

Seria a vida, afinal, de natureza imaterial? Capaz de desfazer conceitos erguidos por um cérebro que mal toca a própria vastidão?

Neste mundo tão miúdo, podemos escolher nossos caminhos? Seríamos nós o próprio grão? Ou seríamos muitos, quando pensamos ser apenas um?

Na minha santa ignorância de ser humano, as perguntas nascem das inquietações – e delas surge o desejo de compreender.

Sonhar, ao se libertar do frágil impossível, é intuir que “o ensaio da morte é o sono no escuro; colorido e bonito é o sonho do céu” – como escrevi em Beira do Mundo, para Chico Pio musicar.

Quando as cidades imaginárias se tornam reais dentro de mim, e pessoas iluminadas apontam caminhos, encontro uma simplicidade onde verdades e mentiras se confundem. Fora da nossa medida, o que parece real, muitas vezes, é ilusão.

Antes que me tomem por louco, digo: sou fugitivo da normose – essa patologia da normalidade. Há quem não veja na lagarta a promessa da borboleta, nessa travessia silenciosa da vida que se reinventa para existir.

Lembro então de “seu” Fransquim, velho morador da Praia de Iracema. Ao perguntarem se passava a manhã dormindo, respondia: “Quem dera! Eu é que pego cedo no serviço pesado com o doutor Morfeu!” – o deus do sonho, para quem não sabe.

Entre graça e crença, dizia confiar que quem dorme mais tem mais chance de prosperar. E aconselhava, sem titubear, o valor de uma boa noite de sono. Arrematava com a sabedoria simples de quem vive: “É Deus no céu, dinheiro na terra – e o resto é fol-que-lore.”

Falando em sonho, ao ver uma foto com José Lins do Rego, Drummond, Portinari, José Olympio e Bandeira, deu-me uma vontade danada de contrariar o tempo – e ir ao passado, conversar com eles.

Talvez tudo isso seja apenas o modo de quem insiste em viver com arte.

E, por fim, lembro a frase de um idealista: “Agora que sou, deixo de ser.”

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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