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“O negacionismo das vacinas: entre a ignorância, o fanatismo e o retrocesso civilizatório” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvalho é advogado

“A ciência vive de perguntas, evidências e revisão permanente”, aponta Vanilo de Carvalho, Mestre em Negócios Internacionais

Confira:

Poucas conquistas da humanidade produziram resultados tão extraordinários na preservação da vida quanto as vacinas. Elas permitiram controlar, reduzir drasticamente ou praticamente eliminar doenças que durante séculos provocaram epidemias, incapacidades e mortes em larga escala. Varíola, poliomielite, difteria, tétano, rubéola e sarampo deixaram de representar, em grande parte do mundo, a ameaça cotidiana que um dia representaram. A vacinação é, portanto, uma das mais importantes expressões da ciência aplicada à proteção da vida humana.

Por isso, o negacionismo vacinal não pode ser tratado simplesmente como uma opinião diferente. Questionar cientificamente uma vacina, seus efeitos, sua segurança ou suas indicações é legítimo e necessário. A ciência vive de perguntas, evidências e revisão permanente. Outra coisa, entretanto, é negar sistematicamente evidências acumuladas durante décadas, rejeitar consensos científicos sem apresentar provas equivalentes e transformar a desconfiança em militância ideológica. Nesse caso, estamos diante de um fenômeno que ultrapassa a divergência intelectual: é ignorância deliberada, fanatismo e profundo retrocesso civilizatório.

A situação atualmente vivida nos Estados Unidos é particularmente preocupante. Em agosto de 2026, o governo Donald Trump anunciou uma redução das recomendações federais de vacinação infantil, passando a reconhecer 11 imunizações como núcleo das recomendações universais, enquanto outras foram deslocadas para categorias destinadas a grupos de maior risco ou submetidas à chamada decisão compartilhada entre médicos e famílias. A medida também determinou a busca de maior flexibilidade diante das leis estaduais de vacinação e defendeu a separação da vacina tríplice viral — sarampo, caxumba e rubéola — em aplicações distintas.

O problema não está apenas na alteração administrativa de um calendário. O perigo está na mensagem transmitida à sociedade quando decisões de saúde pública são contaminadas por argumentos sem respaldo científico. A Organização Mundial da Saúde ressaltou que os calendários de imunização são construídos a partir de décadas de pesquisas e de avaliações técnicas sobre os riscos específicos de cada doença e o momento adequado para a imunização. Especialistas americanos também advertiram que a redução das recomendações pode gerar confusão entre os pais e aumentar o risco de atraso ou abandono de vacinas.

O caso do sarampo é talvez o exemplo mais eloquente. Trata-se de uma das doenças infecciosas mais contagiosas conhecidas e, justamente por isso, a manutenção de uma elevada cobertura vacinal é fundamental. Duas doses da vacina tríplice viral oferecem a melhor proteção contra o sarampo.

E os números americanos são alarmantes. Em 14 de agosto de 2026, eram registrados 2.566 casos confirmados de sarampo nos Estados Unidos naquele ano, o maior total anual em mais de 35 anos. O fenômeno não surgiu do nada. Em 2025, um grande surto iniciado em uma comunidade com baixa cobertura vacinal no Texas espalhou-se para o Novo México e outras áreas. Somente aquele surto no Novo México, segundo estudo divulgado em 2026, gerou aproximadamente US$ 5,4 milhões em custos médicos, resposta sanitária e perda de produtividade.

É necessário compreender a dimensão dessa tragédia. O sarampo não é uma simples doença infantil inofensiva. Pode provocar complicações graves e até a morte. Quando a cobertura vacinal diminui, não são apenas os indivíduos que decidiram não se vacinar que ficam expostos: ficam vulneráveis também bebês que ainda não alcançaram a idade adequada para determinadas vacinas, pessoas imunossuprimidas e indivíduos que, por razões médicas, não podem ser imunizados.

É exatamente aí que o negacionismo vacinal assume uma dimensão ética. A liberdade individual não pode ser interpretada como licença para colocar deliberadamente terceiros em risco. Viver em sociedade significa aceitar determinadas responsabilidades coletivas. A vacinação, nesse sentido, não protege somente quem recebe a dose; contribui para formar uma barreira coletiva contra a circulação de agentes infecciosos.

Negar a eficácia das vacinas diante de evidências científicas robustas é, portanto, mais do que um equívoco. É criminoso quando a irresponsabilidade deliberada produz consequências concretas para a vida e a saúde de terceiros; é um retrocesso quando nos faz retornar a problemas que a ciência já havia conseguido controlar; é fanatismo quando transforma uma convicção ideológica em rejeição absoluta das evidências; e é, sob uma perspectiva moral, um pecado contra a responsabilidade que temos diante da vida e do próximo.

E, acima de tudo, é uma estupidez.

Não se trata de chamar de estúpida a pessoa que possui dúvidas. Dúvidas são legítimas. O verdadeiro absurdo está em transformar a ignorância em virtude e a evidência científica em inimiga. É estupidez acreditar que milhões de pesquisadores, médicos, enfermeiros e instituições científicas espalhadas pelo mundo conspiraram durante décadas para esconder uma suposta verdade que um indivíduo, munido de vídeos de redes sociais e informações sem comprovação, teria descoberto.

O Brasil também não está imune a esse fenômeno. Existem entre nós grupos e indivíduos que reproduzem discursos antivacinação, relativizam a eficácia das vacinas ou propagam informações falsas sobre seus efeitos. A experiência americana deveria servir como advertência. Doenças que pareciam pertencer aos livros de história podem retornar quando a cobertura vacinal diminui.

A história da medicina ensina uma lição simples: quando a humanidade acredita na ciência e utiliza o conhecimento para proteger a vida, as doenças recuam. Quando a sociedade abandona a evidência científica em favor do medo, da superstição ou do fanatismo, os velhos inimigos retornam.

A vacina não é uma ideologia. Não é de esquerda nem de direita, não é liberal nem conservadora, não pertence a partido político algum. É uma tecnologia médica construída sobre pesquisa, experimentação, avaliação de segurança e evidências acumuladas. Pode e deve ser aperfeiçoada, fiscalizada e submetida permanentemente ao escrutínio científico. Mas rejeitá-la por razões políticas ou por teorias sem comprovação significa renunciar a uma das maiores conquistas da civilização.

Defender a vacinação é, em última análise, defender a vida, a ciência e a responsabilidade coletiva.

O mundo já pagou um preço demasiadamente alto pela ignorância. Não precisamos repetir a história.

Vanilo de Carvalho
Mestre em Negócios Internacionais

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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