“Quando um brasileiro abre uma pequena oficina, começa a prestar serviços de tecnologia, vende alimentos, trabalha como profissional autônomo, comercializa produtos pela internet ou transforma uma habilidade pessoal em fonte de renda, ele não está apenas melhorando sua própria condição econômica. Está participando de uma engrenagem muito maior”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
Por trás de milhões de CNPJs existe uma força econômica que ainda recebe menos atenção do que merece: o Microempreendedor Individual.
Quando se fala em crescimento econômico, é comum pensar em grandes indústrias, multinacionais, bancos, investimentos bilionários e grandes obras de infraestrutura. Tudo isso importa. Mas existe uma outra economia, menos sofisticada aos olhos do mercado e muito mais próxima da vida real: a economia formada por milhões de brasileiros que decidiram transformar o próprio trabalho em negócio.
É aí que entra o Microempreendedor Individual, o MEI.
Criado pela Lei Complementar nº 128/2008, o MEI nasceu com uma missão aparentemente simples: facilitar a formalização de trabalhadores que atuavam na informalidade. O que talvez não estivesse tão claro naquele momento era o tamanho que essa iniciativa alcançaria.
Em março de 2026, o Brasil já tinha mais de 14 milhões de microempreendedores individuais. O número mostra que o MEI deixou de ser apenas uma política de formalização para se transformar em um dos principais componentes do ambiente empresarial brasileiro.
Os números impressionam ainda mais quando colocados em perspectiva. Em 2025, os MEIs representavam aproximadamente metade das empresas brasileiras.
Isso significa que, quando um brasileiro abre uma pequena oficina, começa a prestar serviços de tecnologia, vende alimentos, trabalha como profissional autônomo, comercializa produtos pela internet ou transforma uma habilidade pessoal em fonte de renda, ele não está apenas melhorando sua própria condição econômica. Está participando de uma engrenagem muito maior.
O MEI movimenta renda, consumo, serviços, fornecedores e comunidades inteiras.
E existe outro aspecto importante: formalizar não significa apenas criar um CNPJ. Significa ampliar possibilidades.
Com a formalização, o empreendedor passa a ter acesso a mecanismos que podem facilitar sua relação com fornecedores, instituições financeiras e clientes. Também passa a contribuir para a Previdência Social e a construir uma trajetória empresarial que pode, em muitos casos, evoluir para uma microempresa e, posteriormente, para negócios maiores.
O MEI pode ser, portanto, muito mais do que o destino final de um trabalhador. Pode ser a porta de entrada para o empreendedorismo empresarial.
Os números recentes reforçam essa tese.
Nos primeiros cinco meses de 2025, o Brasil registrou 2,21 milhões de novos pequenos negócios. Os MEIs responderam por 77,4% dessas novas empresas.
Não estamos falando de uma tendência marginal. Estamos falando de uma das principais portas de entrada para a atividade empresarial no país.
Mas existe um problema.
O Brasil conseguiu criar milhões de empreendedores. Agora precisa ajudá-los a crescer.
Abrir um CNPJ é relativamente simples. Transformar esse CNPJ em uma empresa sustentável é outra história.
Muitos microempreendedores ainda enfrentam dificuldades para administrar fluxo de caixa, precificar produtos e serviços, controlar estoques, conquistar clientes, utilizar ferramentas digitais, acessar crédito e separar as finanças pessoais das empresariais.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre o MEI precisa amadurecer.
Não basta comemorar o número de CNPJs abertos. É preciso acompanhar quantos desses negócios sobrevivem, crescem, geram empregos, aumentam produtividade e conseguem ultrapassar a barreira da subsistência.
O próximo grande desafio brasileiro não deveria ser apenas formalizar o empreendedor.
Deveria ser desenvolver o empreendedor.
Tecnologia, educação financeira, acesso ao crédito, capacitação empresarial, digitalização e simplificação tributária precisam fazer parte dessa agenda.
O próprio Sebrae aponta que os pequenos negócios estão sendo pressionados por mudanças tecnológicas, novos comportamentos de consumo e necessidade crescente de presença digital.
E há uma oportunidade enorme nessa transformação.
Imagine milhões de pequenos negócios utilizando ferramentas digitais para controlar suas finanças, conhecer melhor seus clientes, administrar estoques, emitir documentos fiscais, acessar crédito e tomar decisões baseadas em dados.
O impacto não seria apenas empresarial.
Seria econômico.
Um MEI mais produtivo vende mais. Um negócio que vende mais compra mais. Um fornecedor que vende mais pode contratar. Um trabalhador contratado passa a consumir mais. E esse consumo movimenta outras empresas.
É assim que uma pequena iniciativa pode produzir efeitos muito maiores do que seu próprio tamanho.
Por isso, talvez seja hora de mudar a forma como enxergamos o Microempreendedor Individual.
O MEI não é apenas aquele que trabalha sozinho.
É, muitas vezes, o primeiro estágio de uma empresa brasileira.
E se o Brasil realmente deseja crescer de forma mais inclusiva, aumentar a produtividade e reduzir a informalidade, precisa olhar para esses milhões de empreendedores não apenas como beneficiários de uma política pública, mas como agentes de desenvolvimento econômico.
Grandes empresas são importantes para o Brasil.
Mas um país continental também precisa de milhões de pequenos negócios fortes, produtivos e capazes de crescer.
O futuro da economia brasileira talvez não esteja apenas nas grandes empresas que já existem, mas nos milhões de pequenos empreendedores que estão tentando construir as próximas.