“O peso e a culpa embutidos na estrada do Enem” – Por Luiz Henrique Campos

Hora da revisão das matérias de olho no Enem. Foto: Divulgação

Com o título “O peso e a culpa embutidos na estrada do Enem”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psicólogo. “Ser aprovado trata-se de conquista importante, mas não ser aprovado não representa sentença definitiva. A vida não termina na aprovação, tampouco se encerra diante da reprovação em uma prova. Há outros caminhos, outras possibilidades e outros tempos para realizar escolhas e construir projetos”, expõe o colunista.

Confira:

Nos próximos dias 8 e 15 de novembro, milhares de estudantes brasileiros estarão diante de uma das experiências mais significativas de sua trajetória escolar, que é o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Embora seja avaliação de conhecimentos e importante porta de entrada para o ensino superior, o exame representa, para muitos jovens, algo que vai muito além da prova. Carrega expectativas, sonhos, cobranças e, não raramente, peso emocional difícil de administrar. A preparação para o Enem costuma ser associada à organização de horários, à elaboração de cronogramas, à resolução de questões e à revisão de conteúdos. Tudo isso é necessário.

Entretanto, existe dimensão frequentemente negligenciada nessa jornada, que é a saúde emocional de quem se prepara e, também, das pessoas que compartilham suas expectativas. Afinal, não é apenas o estudante que vive a tensão do exame. Pais, familiares e até professores acabam envolvidos nessa atmosfera de ansiedade e projeções.

Nesse aspecto, sob a perspectiva da fenomenologia existencial, o ser humano não pode ser compreendido isoladamente, tampouco reduzido às suas realizações. Cada pessoa constrói sua existência a partir das relações que estabelece com o mundo, com os outros e consigo mesma.

Assim, o Enem pode assumir, para o jovem, o significado de julgamento sobre seu próprio valor, como se o resultado de uma prova fosse capaz de determinar sua competência, seu futuro e até sua capacidade de corresponder às expectativas alheias. É nesse cenário que a culpa encontra espaço. Há a cobrança externa, manifestada em comparações, comentários e expectativas familiares, mas também existe aquela que nasce no próprio estudante, de a sensação de não ter estudado o suficiente, de não corresponder ao investimento recebido ou de decepcionar quem acredita em seu potencial.

O problema é que, quando essas cobranças se acumulam, estudar deixa de ser apenas projeto de construção de futuro e passa a ser experiência atravessada pelo medo de fracassar. Não por acaso, clínicas psicológicas e psiquiátricas recebem pessoas cuja carga emocional exige atenção e cuidado. Ansiedade, sofrimento psíquico, alterações no sono e sentimentos de incapacidade não devem ser tratados como simples consequências naturais de rotina de estudos. É preciso compreender que o preparo emocional também faz parte de uma certa liturgia para prova dessa dimensão. E aí, talvez o maior desafio seja ajudar o jovem a perceber que sua existência não está condicionada ao resultado do Enem.

Ser aprovado trata-se de conquista importante, mas não ser aprovado não representa sentença definitiva. A vida não termina na aprovação, tampouco se encerra diante da reprovação em uma prova. Há outros caminhos, outras possibilidades e outros tempos para realizar escolhas e construir projetos. Por isso, mais do que cobrar resultados, é necessário oferecer presença, escuta e acolhimento. O estudante precisa de planejamento, mas também de tranquilidade para reconhecer seus limites e compreender que não precisa carregar sozinho o peso das expectativas de todos. No fim das contas, o Enem é mais uma etapa da vida, não a medida de uma existência. E, quem sabe, uma das maiores aprendizagens dessa estrada seja justamente descobrir que o futuro merece dedicação, mas não deve ser construído à custa da saúde emocional e da culpa de quem ainda está aprendendo a viver.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e  psicólogo.

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