“O pobre como espetáculo” – Por Emerson Barros de Aguiar

Emerson Barros de Aguiar é professor universitário

“O espetáculo da vulnerabilidade: como a mídia e a religião transformam a pobreza em audiência”, aponta o professor universitário Emerson Barros de Aguiar

Confira:

Há uma curiosa coincidência entre as velhas pegadinhas de televisão e certos espetáculos religiosos de exorcismo: em ambos, quase sempre existe alguém destinado a ser o espetáculo e alguém destinado a assistir ao espetáculo. E, não por acaso, quase sempre o primeiro é pobre.

Nos anos 90 e 2000, a televisão descobriu que o pobre podia ser uma excelente matéria-prima para o riso. Bastava uma câmera escondida, uma situação absurda e alguém que não tivesse dinheiro, estudo ou experiência para perceber imediatamente que estava sendo transformado em personagem. Ria-se da roupa, do sotaque, da ingenuidade, da dificuldade de compreender a situação. Ria-se, sobretudo, da distância social entre quem apresentava e quem era filmado.

A televisão mudou. A pegadinha não morreu. Apenas ganhou um telefone celular, uma conta no TikTok, no Instagram ou no YouTube. Mudaram os nomes: trollagem, prank, desafio, reação. A tecnologia ficou mais sofisticada. A velha hierarquia social, nem sempre. E então chegamos ao exorcismo de exibição.

Não há aqui condenação do exorcismo enquanto prática religiosa, nem da fé daqueles que nele acreditam. O que merece atenção é sua transformação em espetáculo público, em conteúdo, em atração para uma plateia. É o momento em que o sofrimento de uma pessoa deixa de ser apenas uma questão de fé, cuidado ou assistência e passa a ser também uma mercadoria de audiência.

A pessoa pobre entra em cena carregando seus medos, suas angústias, seus conflitos, suas fragilidades. Diante dela, uma suposta autoridade religiosa. Ao redor, uma plateia e uma câmera. O corpo se contorce, a voz se altera, o demônio é identificado, interrogado e finalmente expulso. Depois vêm os aplausos, as imagens, os cortes para a internet e as visualizações.

A liturgia termina. O espetáculo continua, com uma coincidência particularmente cruel: o demônio parece conhecer muito bem a geografia da desigualdade.

Ele quase sempre é expulso do corpo do pobre.

Raramente vemos o milionário possesso. O banqueiro tomado por sete legiões não costuma ser atração de culto. O grande empresário, o especulador, o corrupto, o homem que passou décadas explorando milhares de trabalhadores, quando muito, contrata um advogado. Não precisa subir ao altar para ser despossuído.

O pobre, não. O pobre oferece o corpo. É uma teologia socialmente curiosa essa. O demônio parece ter horror às coberturas de luxo e predileção pelos barracos. Não costuma frequentar a sala refrigerada do executivo. Prefere o corpo do desempregado. Não precisa possuir quem já possui quase tudo.

E talvez aí esteja a questão mais incômoda. Quando o sofrimento do pobre é transformado em espetáculo, encontramos a mesma lógica das velhas pegadinhas de televisão. Antes, ria-se porque o pobre não sabia que estava sendo enganado. Agora, assiste-se ao pobre enquanto ele acredita estar sendo libertado.

Em ambos os casos, existe uma plateia. Existe uma câmera. Existe alguém vulnerável. E existe alguém que descobriu que a vulnerabilidade alheia pode produzir audiência e atrair fiéis.

Não é a fé que está sendo julgada. É a exploração pública da fragilidade. O problema não é o exorcismo praticado como ato de fé. É o exorcismo transformado em palco. É o sofrimento do vulnerável convertido em conteúdo. É a miséria humana transformada em entretenimento.

A televisão das pegadinhas e o TikTok contemporâneo apenas trocaram de embalagem. O mecanismo permanece: alguém sofre, alguém filma e alguém escarnece. E, no espetáculo religioso, alguém sofre, alguém filma e alguém aplaude. Talvez devêssemos fazer uma pergunta mais incômoda do que aquela que se faz diante do altar: por que o demônio, quando aparece diante das câmeras, quase sempre escolhe o corpo de quem tem menos dinheiro?

Talvez a resposta seja menos sobrenatural do que imaginamos. Porque o demônio que interessa à audiência não é necessariamente aquele que dizem expulsar do corpo do pobre. É aquele que transforma o pobre em espetáculo.

Emerson Barros de Aguiar
Escritor, bioeticista e professor universitário

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias