“O Preço do ‘Não'” – Por Maurício Filizola

Com o título “O Preço do “Não””, eis  mais uma crônica de Maurício Filizola, presidente da CDL Fortaleza. “O dinheiro é um excelente empregado, mas um péssimo senhor. Quando passa a determinar nossas escolhas, deixa de servir aos nossos sonhos para começar a dirigir nossa consciência”,expõe o articulista.

Confira:

A Copa do Mundo costuma revelar muito mais do que talento. Enquanto milhões de olhos acompanham gols, dribles e decisões em campo, algumas das maiores lições acontecem longe do placar. Não aparecem nas estatísticas. Não levantam troféus. Mas ajudam a medir aquilo que realmente sustenta uma vida: o caráter.

Outro dia, deparei-me com uma notícia sobre Kylian Mbappé. Um dos atletas mais bem pagos do planeta recusou, mais uma vez, contratos milionários para promover casas de apostas. Não foi um gesto impulsivo nem uma estratégia de marketing. Foi uma decisão consciente. Disse que cresceu vendo famílias da periferia serem destruídas pelo vício do jogo e que não desejava emprestar sua imagem para alimentar esse ciclo.

Fiquei pensando que, às vezes, a maior vitória de um homem é justamente aquela que ninguém vê.

Vivemos em uma época em que quase tudo parece ter preço. Compra-se tempo, atenção, influência e até reputação. Aos poucos, a sociedade começa a acreditar que sucesso é apenas a soma dos zeros de uma conta bancária. Mas existe uma riqueza que não aceita depósito nem transferência.

A consciência.

Ela se parece com um cristal. Demora anos para ser lapidada, mas basta uma escolha para surgir a primeira rachadura. E, como acontece com o vidro, há marcas que nunca voltam a desaparecer.

Enquanto refletia sobre isso, lembrei-me de quantas propostas semelhantes recebemos ao longo da vida. Nem sempre chegam em contratos milionários. Às vezes aparecem em pequenas concessões, em atalhos convenientes, em favores aparentemente inofensivos ou na tentação de defender aquilo que sabemos não ser correto apenas porque a recompensa parece atraente.

O dinheiro é um excelente empregado, mas um péssimo senhor. Quando passa a determinar nossas escolhas, deixa de servir aos nossos sonhos para começar a dirigir nossa consciência.

O caso das apostas também merece outra reflexão. O que muitos enxergam apenas como entretenimento movimenta bilhões que deixam de circular no comércio, nas pequenas empresas, nos serviços e na economia real. Em muitos lares, o dinheiro que sustentaria a mesa, pagaria os estudos dos filhos ou fortaleceria um pequeno negócio acaba alimentando uma expectativa improvável de ganho fácil. Quando isso acontece repetidamente, perde a família, perde o comércio, perde a comunidade.

Talvez por isso a atitude de Mbappé tenha me parecido tão significativa. Ele compreendeu que algumas escolhas valem mais do que qualquer cheque. Recusar nem sempre significa perder. Em certos momentos, dizer “não” é a forma mais elegante de proteger aquilo que dinheiro nenhum consegue recomprar.

A Copa terminará. Novos campeões serão celebrados e outros recordes serão quebrados. Mas algumas decisões continuarão ecoando muito depois do apito final.

Porque, no fim das contas, a verdadeira fortuna não está naquilo que conseguimos acumular.

Está naquilo que jamais aceitamos vender.

*Mauricio Filizola

Presidente da CDL Fortaleza.

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