“O ‘presente’ da tropa e a ausência de reconhecimento” – Por P. Queiroz

P. Queiroz é presidente da Associação de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros do Estado do Ceará. Foto: Divulgação

“A medida, apresentada como avanço administrativo e instrumento de proteção institucional, chega em um momento em que milhares de policiais e bombeiros militares ainda aguardam a valorização real”, aponta o presidente da A Associação de Praças Militares Estaduais do Ceará (ASPRAMECE), P. Queiroz, sobre adoção de câmeras corporais pelo Estado.

Confira:

No mês em que a Polícia Militar do Ceará celebra mais um ano de serviços prestados à sociedade, parte da tropa recebeu um “presente” que tem gerado debates, inquietações e insatisfação: o anúncio da implantação das câmeras corporais. A medida, apresentada como avanço administrativo e instrumento de proteção institucional, chega em um momento em que milhares de policiais e bombeiros militares ainda aguardam a valorização real, algo que deveria ser prioridade absoluta do Estado.

É curioso perceber como os aplausos aos homens e mulheres da segurança pública costumam ser raros. Pouco se fala do policial militar que impede um assalto antes que ele aconteça. Quase nunca ganham destaque os agentes que salvam vidas, socorrem famílias, entram em áreas de risco. Menos ainda se reconhece o bombeiro militar que atua em resgates, enchentes, incêndios e tragédias, colocando a própria vida em risco para proteger desconhecidos.

Há quem diga que tudo isso “é apenas obrigação”. Sim, defender a sociedade é missão constitucional das forças de segurança. Mas cumprir o dever não elimina a necessidade de respeito, reconhecimento e valorização. Nenhuma instituição se fortalece tratando seus profissionais apenas como números ou peças substituíveis.

O debate sobre câmeras corporais não pode servir para esconder problemas muito mais graves e urgentes enfrentados pela tropa. Enquanto se discute monitoramento, o governo deveria estar preocupado com a sobrecarga desumana imposta aos policiais militares. Hoje, existem profissionais submetidos a jornadas que chegam a 96 horas de trabalho, uma realidade que compromete a saúde física, emocional e psicológica desses agentes.

É impossível falar em segurança pública eficiente ignorando o desgaste humano daqueles que sustentam o sistema. O policial cansado, exausto e sobrecarregado também é vítima de um modelo que cobra resultados, mas frequentemente negligencia condições dignas de trabalho.

O policial militar quer ser ouvido. Quer assistência à saúde, segurança jurídica, melhores condições operacionais e reconhecimento pelos resultados satisfatórios que diariamente passam despercebidos pela sociedade. Quer também que seja reconhecido o peso humano da profissão, exercida por homens e mulheres que saem diariamente para cumprir sua missão e retornam para casa sem saber se estarão vivos no dia seguinte ou se permanecerão morando em sua própria residência, pois há casos de policiais militares expulsos das comunidades onde nasceram, cresceram e vivem ao lado de seus familiares.

Quando um erro acontece, a repercussão é imediata. Quando uma vida é salva, quase sempre prevalece o silêncio. E talvez seja justamente esse silêncio o maior retrato da distância entre o discurso institucional e a realidade enfrentada por quem veste a farda.

Valorizar a segurança pública vai muito além de implantar equipamentos. Valorizar começa pelo reconhecimento humano daqueles que, todos os dias, saem de casa para proteger a população cearense.

*P. Queiroz

Presidente da A Associação de Praças Militares Estaduais do Ceará (ASPRAMECE).

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