“O voto contra o ódio: o recado do Brasil e dos EUA” – Por Marcel Bezerra

Marcel Bezerra é jornalista e assessor parlamentar.

Com o título “O voto contra o ódio: o recado do Brasil e dos EUA”, eis artigo de Marcel Bezerra, jornalista, assessor parlamentar e apresentador do podcast Frequência Rural. “As eleições não encerram a guerra cultural nem significam o desaparecimento da extrema-direita. Mas podem ser uma lufada de ar, um sinal de que a política baseada em ataques, preconceitos e divisões não conquista apoio indefinidamente”, expõe o articulista.

Confira:

“O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode fazer isso”, escreveu Martin Luther King Jr., uma das principais referências da luta não violenta por direitos civis. A frase, que ouvi certa vez em um documentário sobre o líder americano, ajuda a fazer a leitura, em certa medida, do resultado que veio das urnas no Brasil e, agora, dos Estados Unidos.

Levantei nesta terça, ávido pelo resultado das eleições de meio de mandato norte-americanas e me surpreendi com um tsunami nos portais de notícia. O democratas “passaram o rodo” nos republicanos. Conquistaram o controle da Câmara e do Senado, em derrota inesperada, em dimensão, até para o partido de Donald Trump. Ganharam a maioria dos 36 estados em disputa, em um pleito marcado pela vitória da diversidade. Latinos nos governos dos dois estados mais desenvolvidos. Muçulmanos, indígenas, gays, negros e judeus em instâncias de poder. Mesmo Trump não estando na cédula de votação, o teste era sobre seu governo. O resultado foi uma resposta ao estado de coisas, em meio à insatisfação com o custo de vida, a guerra com o Irã e a condução do país.

No Brasil, Lula foi reeleito em outubro, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. A vitória mostrou que a disputa política segue acirrada, mas também que o eleitorado pode rever escolhas e barrar projetos que ameaçam a democracia e apostam na intolerância. Em 2022, Jair Bolsonaro já havia sido o primeiro presidente não reeleito.

Somos diferentes dos EUA em diversos aspectos, seja na história, no sistema ou no contexto político. Mesmo assim, as urnas permitem uma reflexão comum (e até esperançosa): fazer política sustentada no ódio, no preconceito, na falta de empatia e na megalomania parece, enfim, ter limites. Pode crescer por um período, carrear ressentimentos e transformar adversários em inimigos, até dentro das famílias. Mas não oferecem respostas duradouras para os problemas concretos das pessoas. Não dura muito. Graças a Deus.

A extrema-direita tem uma receita já conhecida. Promete soluções milagrosas e líderes “salvadores da pátria”. Na prática, aprofunda divisões e trata a convivência democrática como fraqueza. Também desvaloriza a solidariedade, como se cada pessoa devesse cuidar apenas de si, e como se alguns grupos fossem menos dignos de respeito ou de direitos. E, quase sempre, não oferecem respostas econômicas e sociais que prometem.

Democracia não é ausência de conflito. É a capacidade de conviver com diferenças, disputar ideias e aceitar que ninguém tem o direito de subjugar os outros. Eu mesmo aprendi que adversário político não precisa ser tratado como inimigo. Sectarismo não leva a nada. Não é por ser plural que uma sociedade é fraca. Isso é parte do que permite que ela siga em frente sem recorrer ao autoritarismo.

As eleições não encerram a guerra cultural nem significam o desaparecimento da extrema-direita. Mas podem ser uma lufada de ar, um sinal de que a política baseada em ataques, preconceitos e divisões não conquista apoio indefinidamente. Para responder às desigualdades e às crises, são necessários compromissos coletivos, políticas públicas e uma visão de futuro que inclua as próximas gerações.

As urnas mostram, seja em que país for, que o recado delas emanado pode ser um um convite a construir respostas com mais empatia, solidariedade e respeito à vida, inclusive ao meio ambiente. Como lembrava Martin Luther King Jr., o ódio não vence o ódio. Uma sociedade mais justa depende da capacidade de reconhecer a humanidade do outro e trabalhar, juntos, para que ninguém fique para trás.

*Marcel Bezerra

Jornalista, assessor parlamentar e apresentador do podcast Frequência Rural.

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias