“O voto que vem do crachá — e a rejeição?” – Por Leopoldo Martins

Leopoldo Martins é advogado. Foto: Divulgação

Com o título “O voto que vem do crachá — e a rejeição?”, eis artigo de Leopoldo Martins, advogado, membro Consultivo da Comissão Eleitoral do CFOAB e membro titular da Comissão Eleitoral da OAB/CE. “Na eleição, o crachá pode funcionar como cabo eleitoral, mas também como espelho das insatisfações. Quem pretende levar votos para um palanque pode acabar levando para ele as reclamações que o cidadão guardou durante todo o mandato”, expõe o articulista.

Confira:

Um crachá pode parecer um pedaço de plástico, mas, numa eleição, pode carregar um peso político inesperado. Quando o eleitor vê um servidor público em uma carreata, adesivaço ou visita eleitoral, a imagem pode produzir apoio. Mas também pode provocar o efeito contrário: rejeição.

Servidor público não perde a cidadania ao assumir uma função. Tem direito de votar e participar da vida política, legalmente. O problema é que, para o eleitor, nem sempre existe separação entre o cidadão e o agente público que encontra no cotidiano.

Quem aguarda meses por um exame médico procura um medicamento que não encontra, enfrenta dificuldades para conseguir atendimento ou convive com educação precária acumula frustração. Essas deficiências não são, necessariamente, responsabilidade individual do servidor. Podem decorrer de decisões administrativas ou falhas de gestão.

Mas política também é percepção. Ao encontrar esse mesmo servidor, participando ostensivamente da campanha de determinado grupo, o eleitor pode associar sua experiência negativa no serviço público àqueles que aparecem defendendo a gestão.

Surge aí um paradoxo eleitoral: o servidor pode acreditar que sua presença transfere votos ao candidato, quando, para parte do eleitorado, pode transferir rejeição. A fotografia ao lado do candidato, que pretendia demonstrar força e apoio, pode ser interpretada como símbolo de
continuidade de uma gestão da qual o cidadão está insatisfeito.

Na eleição, o crachá pode funcionar como cabo eleitoral, mas também como espelho das insatisfações. Quem pretende levar votos para um palanque pode acabar levando para ele as reclamações que o cidadão guardou durante todo o mandato.

A pergunta não é quantos servidores apareceram na carreata, mas quantos eleitores, ao vê-los, lembraram do exame que não saiu, do remédio que faltou, da escola que decepcionou ou do atendimento que nunca aconteceu.

Porque o eleitor não vota apenas no que vê no palanque. Vota também no que viveu fora dele.

*Leopoldo Martins

Advogado, membro Consultivo da Comissão Eleitoral do Conselho Federal da OAB e membro titular da Comissão Eleitoral da OAB/Ceará.

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