“O zumbido do velho profeta baiano” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“Seu Ivan, o profeta baiano que tanto falaram estava ali na minha frente, bem diferente do que imaginava”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

– “Ele curou uma úlcera que meu pai tinha na perna e ainda previu que meu marido arrumaria um emprego em três meses. E isso aconteceu poucas semanas depois que fui lá”, esbravejou a morena em meio ao grupo de homens que conversava no alpendre, próximo à porta da casa. O papo masculino girava em torno de pessoas que têm o poder de cura e de prever o futuro, os antigos rezadores, curandeiros ou profetas. Toda cidade do interior tem um.

Quando o assunto chegou em um deles, que mora na Bahia, a mulher saiu lá do meio da sala e em defesa do dito cujo. De quebra trouxe a filha, uma adolescente de uns 16 anos, maior que ela em altura, mas menor em gordura.

– Quando fui, ele rezou na cabeça desta menina e avisou ao pai para tomar cuidado com ela na beira de rio. Podia se afogar.

O abençoado do pai, porém, esqueceu o alerta e levou a menina junto com os cunhados para pescar na beira do Rio São Francisco. Bastou um vacilo para a adolescente ficar próximo à margem para uma cobra aparecer e picar a perninha dela. Veio o grito, o choro e a correria. Adeus pescaria! Só depois da medicação, no hospital, com o problema resolvido, o homem lembrou da previsão. E ainda levou bronca da esposa.

Fiquei com aquela estória na cabeça. Será possível? Passaram alguns anos e ouvi novas proezas daquele “adivinhador baiano”. Causos contados por pessoas diferentes, o que dava mais credibilidade. Demorou alguns tempo até que, na primeira oportunidade, me atirei até a cidade de Paulo Afonso, interior da Bahia, lugar cercado pelas águas do São Francisco, mas quente e abafado como todo sertão nordestino.

Motivação eu tinha de sobra: Curiosidade, lógico, e um irritante zumbido no ouvido – nos dois – que tinha aparecido junto com a perda da boa audição. Quem sabe o profeta conseguiria curar e afastar as tonturas que tenho, já que depois de mil exames e dezenas de consultas, os médicos da terra não conseguiram nenhuma melhora. E fui.

A casa é a número 01 da rua, com calçamento novo, mas ainda sem denominação oficial. Para chegar lá, somente de carro. Fica em um distrito cerca de 8 km do Centro de Paulo Afonso. Só encontra o local se tiver um conhecido na região. No boca a boca, poucos sabem. E não basta chegar para ser atendido. É preciso agendar pessoalmente com uma das filhas dele, pois a vaga é concorrida. Tem gente até do Rio de Janeiro em busca da consulta.

Por sorte, consegui uma brecha na agenda para o último dia do ano. Ele ia nos atender rapidinho pois iria trabalhar à noite toda. O nosso “profeta” é vigia de uma escola municipal. É dali que ele tira, oficialmente, seu sustento. As consultas são gratuitas, mas as filhas aceitam um quilo de qualquer alimento;

Ficamos na pequena saleta de espera na entrada da casa. Na parede, avisos de “Vendemos bolo de pote” e “Temos suco” indicam que a família se vira para completar a renda. Nada ali tem luxo. Tem seis cadeiras plásticas, um garrafão com água gelada e um bocado de crianças de colo, netos do nosso “rezador”. Após longos 30 minutos, lá vem ele. Jaleco branco, cobrindo uma camiseta com a imagem de São Francisco, calças pretas, sandálias de dedo nos pés, e dois cadernos grandes à tiracolo. Cadernos que durante todo o tempo não anotou nada.

Seu Ivan, o profeta baiano que tanto falaram estava ali na minha frente, bem diferente do que imaginava. Baixinho, com um imenso bigode preto, barbas grisalhas esparsas, cabelo curtinho. A fala é ligeira, bem cabocla. Nos cumprimenta, estende a mão, sem olhar muito nos olhos. Somos conduzidos para a lateral da casa e de lá para os fundos. É ali em uma cadeira lilás, debaixo de uma mangueira, no quintal com chão cimentado, que ele começa suas rezas.

Demora uma meia hora. Bate folhas – pinhão – nos cabelos, ombros e nas costas da gente. Passa os dedos ligeiros na cabeça e vai rezando.

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado”. Não pergunta nada. A não ser o nome e idade. Mas adivinha praticamente toda minha personalidade, meu jeito de ser: Observador, calado, calculista. Diz que deveria ter sido arquiteto. Gozado, lembrei que foi a mesma conclusão que um teste vocacional havia detectado para mim em 1976. Preferi o jornalismo.

E tome lapada de pinhão. Descobre uma dor no baço que havia tido dois dias antes e ninguém sabia. Faz a reza no local e orienta trocar a velha cervejinha pelo vinho. Faz outras recomendações, diz que sou filho disso, acompanhado por aquilo, entidades que pouco conheço e garante que vou viver muito. Não adivinha, porém, que iria fazer uma crônica dele. Pergunto do zumbido, motivo da minha viagem. Triste notícia: vou viver com isso, não tem jeito, nem remédio, nem, segundo ele, médico que vá curar.

Até porque o próprio Seu Ivan, nosso “profeta” baiano convive com seus zumbidos próprios há anos. Diz ele que o zumbido é devido ao poder de vidência que eu tenho.

Eu? Vidente?

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

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