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“Petróleo, Inflação e Juros: O Ceará pode contribuir para uma Estratégia de Soberania Produtiva?” – Por Célio Fernando

Célio Fernando é integrante da Academia Cearense de Economia. Foto: Divulgação

Com o título “Petróleo, Inflação e Juros: O Ceará pode contribuir para uma Estratégia de Soberania Produtiva?”, eis artigo de Célio Fernando, economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia. “A história mostra que choques do petróleo não são apenas crises de energia. São crises de desenvolvimento que expõem as fragilidades de quem não se preparou. O Ceará que avançou apostando em diversificação, inovação e energia limpa tem hoje uma janela estratégica real para transformar vulnerabilidade em vantagem competitiva”, expõe o articulista

Confira:

O mundo já viveu esse filme antes. Em 1973, o embargo árabe quadruplicou o preço do barril em semanas. Em 1979, a Revolução Iraniana o dobrou novamente. Hoje, com o conflito entre Estados Unidos e Irã reacendendo tensões no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, os sinais de um novo ciclo de choque energético voltam a preocupar analistas e governos. A anatomia das crises é sempre semelhante: o gatilho é geopolítico, mas o efeito é econômico e universal.

Nos anos 70, a inflação americana chegou a 13,5%, forçando o Federal Reserve a elevar juros a mais de 20% ao ano, exportando recessão para o mundo inteiro. O cenário atual guarda semelhanças inquietantes. Os ataques no Mar Vermelho e as sanções ao Irã já pressionam fretes marítimos globais, adicionando até 14 dias nos tempos de trânsito e elevando custos logísticos em até 300% em determinados corredores. Se o barril ultrapassar consistentemente os US$ 100, uma nova rodada inflacionária torna-se inevitável, e os bancos centrais poderão reverter os ciclos de corte de juros iniciados em 2024, com impacto direto sobre o crédito, os investimentos e o endividamento público em economias emergentes como o Brasil.

Para o Ceará, esse cenário tem nome, endereço e urgência. A exemplo de políticas lançadas pelo Governo Federal, o Estado pode também buscar soluções. O estado é estruturalmente vulnerável a choques do petróleo por razões concretas e mensuráveis. O setor têxtil e de confecções, responsável por aproximadamente 30% dos empregos industriais formais cearenses segundo a FIEC, depende de fios sintéticos derivados de petroquímicos. A indústria calçadista, que exporta mais de US$ 200 milhões anuais, utiliza componentes fósseis em solados e adesivos. A agricultura irrigada do Vale do Jaguaribe e do Baixo Açu, que movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano, consome volumes expressivos de diesel e fertilizantes nitrogenados majoritariamente importados. O turismo, que responde por cerca de 8% do PIB de Fortaleza segundo a Setur-CE, sofre com o encarecimento das passagens aéreas, diretamente atreladas ao querosene de aviação. A construção civil e a logística de distribuição interna completam esse quadro de exposição sistêmica a qualquer novo choque energético global.

O Ceará, contudo, possui ativos estratégicos relevantes que precisam ser acelerados com urgência. O estado foi pioneiro nacional na energia eólica e mantém posição de destaque no mapa energético brasileiro, com capacidade instalada expressiva em eólica e solar fotovoltaica. No horizonte do hidrogênio verde, o Ceará se posiciona como um dos principais polos em desenvolvimento no Brasil, ao lado do Rio Grande do Norte e do Maranhão, com o Complexo do Pecém como eixo estruturante. O Pecém avança num processo de atração de investimentos e licenciamentos para se tornar um hub energético de baixo carbono, com projetos de empresas nacionais e internacionais já em negociação. É realista esperar que os primeiros resultados em escala comercial dessa cadeia se materializem entre 2028 e 2030, o que torna urgente
a tomada de decisões agora, para que essa janela não se feche. Transformar esse potencial em cadeia produtiva real, com empregos e valor agregado no território cearense, é uma das apostas mais concretas de soberania econômica que o estado tem à disposição.

No campo dos biocombustíveis, as soluções mais exequíveis passam por culturas com raízes reais no território cearense. A mamona, oleaginosa com longa tradição no semiárido, é matéria-prima comprovada para biodiesel e já conta com pesquisa aplicada da EMBRAPA Agroindústria Tropical, sediada em Fortaleza. O caju abre uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada: o Líquido da Casca da Castanha de Caju, o LCC, desperta crescente interesse internacional como insumo renovável para biocombustíveis e biomateriais, e o Ceará figura entre os maiores produtores nacionais da fruta. A palma forrageira, amplamente cultivada no estado, avança em pesquisas para aproveitamento energético. O potencial das microalgas marinhas no litoral cearense e o aproveitamento de resíduos agroindustriais, como cascas de caju e bagaço de cana, para geração de biogás e bioenergia distribuída no interior, completam uma matriz diversificada e territorialmente ancorada. Estruturar uma política estadual integrada para o Combustível Sustentável de Aviação, o SAF, articulada ao programa federal RenovaBio e às diretrizes da ANAC, reduziria a dependência do querosene importado e criaria valor onde hoje há apenas vulnerabilidade.

A soberania em fertilizantes é outro campo crítico e historicamente negligenciado. O Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes que consome, segundo dados da ANDA e do Ministério da Agricultura, tendo Rússia, China, Canadá e Belarus como principais fornecedores. O Ceará paga esse preço na agricultura irrigada toda vez que o mercado global se tensiona. Investir em fertilizantes organominerais produzidos localmente, a partir de resíduos da agroindústria e da carcinicultura, é um caminho tecnicamente viável, ainda que exija enfrentamento de desafios reais de escala, logística de coleta e custo de processamento. A fixação biológica de nitrogênio, já dominada pela pesquisa brasileira para culturas como soja e feijão, precisa ser expandida para as culturas irrigadas do semiárido cearense, com ação coordenada entre EMBRAPA, IFCE, UFC, UECE e o governo estadual. O Banco do Nordeste, a ADECE e o Sistema S têm papel fundamental no financiamento e na capacitação das cadeias produtivas envolvidas. Construir uma meta progressiva de redução da dependência de fertilizantes importados, validada tecnicamente por essas instituições e com financiamento estruturado, é um passo concreto que ainda aguarda prioridade política.

A história mostra que choques do petróleo não são apenas crises de energia. São crises de desenvolvimento que expõem as fragilidades de quem não se preparou. O Ceará que avançou apostando em diversificação, inovação e energia limpa tem hoje uma janela estratégica real para transformar vulnerabilidade em vantagem competitiva. Três passos são imediatos e inadiáveis: acelerar o licenciamento e os investimentos no hub de hidrogênio verde do Pecém; estruturar uma política estadual de biocombustíveis ancorada nas cadeias da mamona, do caju e dos resíduos agroindustriais; e lançar um programa coordenado de fertilizantes organominerais para a agricultura irrigada do semiárido. O Estreito de Ormuz está a milhares de quilômetros, mas a decisão de agir precisa ser tomada agora, aqui, no semiárido, no litoral e nos
laboratórios das universidades cearenses.

*Célio Fernando

Economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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