“Minha desilusão, entretanto, não se limita à constatação das contradições entre o discurso e a prática. O problema é também filosófico, moral e espiritual”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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Como todo adolescente, eu queria mudar o mundo. E ainda quero. A diferença é que já não alimento a ingenuidade do jovem que, no final dos anos 1970 e no limiar da década seguinte, foi cooptado pelo Partido Comunista Brasileiro. O tempo, a experiência e a reflexão encarregaram-se de rever minhas convicções.
Por que rompi com a esquerda após cerca de quinze anos de militância? Porque, ressalvadas as raríssimas exceções dos verdadeiramente idealistas, encontrei nesse universo político uma preocupante combinação de farsa, hipocrisia, arrogância, traição, desfaçatez e mentira habilmente articulada para seduzir as massas. Estas, frequentemente, acabam reduzidas à condição de instrumentos de um projeto revolucionário cuja finalidade maior parece ser a conquista e a conservação do poder a qualquer custo.
Minha desilusão, entretanto, não se limita à constatação das contradições entre o discurso e a prática. O problema é também filosófico, moral e espiritual. Apesar da minha formação cristã, eu não percebia, em toda a sua extensão e profundidade, o abismo que separa os princípios do Cristianismo dos fundamentos do marxismo ateu, matriz ideológica de partidos e regimes comunistas que, ao pretenderem organizar integralmente a sociedade, atribuem ao Estado poderes que rivalizam com a própria liberdade da consciência humana.
O Cristianismo reconhece a dignidade transcendente da pessoa, a responsabilidade moral, a liberdade e a lei de Deus. O marxismo, em suas formulações clássicas, interpreta a história prioritariamente pelas relações materiais e pela luta de classes. Não se trata de negar que cristãos possam defender a justiça social ou combater a pobreza, mas de reconhecer que a caridade cristã não se confunde com a engenharia revolucionária, nem a fraternidade evangélica com a submissão do indivíduo a um projeto ideológico.
Hoje, observo uma esquerda que, a meu juízo, acumula fragilidades intelectuais e graves contradições morais. Suas pautas frequentemente colidem com minhas convicções cristãs: a legalização do aborto, a liberalização das drogas, determinadas concepções da ideologia de gênero, a complacência com a criminalidade e a tolerância seletiva diante de ditaduras que violam direitos humanos. Soma-se a isso uma hostilidade, explícita ou disfarçada, contra valores religiosos, em meio a uma guerra cultural que alcança escolas, universidades, meios de comunicação e instituições públicas.
Não aceito que a fé seja confinada à esfera privada, como se os cristãos devessem silenciar diante das questões fundamentais da vida, da família e da educação. Tampouco considero legítimo que qualquer ideologia reivindique o monopólio da virtude enquanto relativiza os próprios erros. Romper com a esquerda não significou abandonar o desejo de transformar o mundo. Significou, antes, compreender que os fins não justificam os meios e que nenhuma promessa de igualdade autoriza a mentira, a opressão ou o desprezo pela verdade.
Por essas razões, minha posição é firme: não escolho o lado esquerdo. Minha consciência cristã e minha experiência política me levam a repudiar seus projetos que considero incompatíveis com a liberdade, a moral e a dignidade humana. Não renuncio à esperança de um mundo melhor; renuncio, isto sim, à ilusão de que ele possa ser construído sobre os alicerces de uma revolução que sacrifica princípios no altar do poder.
Insisto no fato de que romper com a esquerda não significou abandonar o desejo de transformar o mundo. Significou compreender que os fins não justificam os meios e que nenhuma promessa de justiça social pode legitimar a mentira, a opressão ou o sacrifício da dignidade humana. A verdadeira transformação começa no coração do homem, pela conversão, pela responsabilidade moral e pelo compromisso inegociável com a verdade.
É sobretudo à luz do Evangelho que reafirmo minha posição. Minha fidelidade primeira não é a partidos, líderes ou ideologias, mas a Jesus Cristo, cujos ensinamentos não se submetem às conveniências políticas nem às modas intelectuais de cada época. Não reconheço em nenhuma revolução a promessa de salvação que pertence exclusivamente a Deus. O Reino de Cristo não se confunde com projetos de poder terrenos, tampouco a justiça evangélica pode ser reduzida a discursos de igualdade que ignoram a liberdade, a verdade e a lei moral.
Não se trata de negar aos pobres a justiça que lhes é devida, nem de fechar os olhos ao sofrimento dos vulneráveis. Bem ao contrário, a doutrina cristã exige caridade concreta, solidariedade, defesa da vida e compromisso com a dignidade de cada pessoa, desde a concepção até a morte natural. Mas essa caridade não nasce do ódio entre classes, e sim do amor ao próximo; não floresce na mentira, mas na verdade; não se impõe pela tirania, mas se realiza na liberdade responsável.
Por isso, não escolho o lado esquerdo quando ele exige que eu silencie minha consciência, relativize os mandamentos de Deus ou aceite como virtude aquilo que contraria os princípios do Evangelho. Minha lealdade é a Cristo, não a uma cartilha partidária. E, se é preciso escolher entre a aprovação do mundo e a fidelidade à minha fé, não tenho dúvidas sobre qual caminho seguir.
Continuo querendo mudar o mundo, mas sei que não há renovação verdadeira da sociedade sem renovação moral do homem. Como cristão, creio que a esperança não reside em promessas revolucionárias, mas na verdade que liberta, na justiça que não se vende e no amor que não exclui a lei de Deus. É sob essa convicção que rejeito os projetos ideológicos que considero incompatíveis com a fé cristã e reafirmo minha escolha, qual seja a de que antes de qualquer lado político, estou com Cristo. Porque, como ensina o Evangelho, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32).
Barros Alves é jornalista e poeta