Com o titulo “Presidente Lula em clima de ‘Barata Voa'”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “Para desespero do lulopetismo, setores importantes do establishment brasileiro, que durante longo período se mostraram cúmplices ou, no mínimo, tolerantes com os desmandos do governo, começam agora a dar sinais de distanciamento”, expõe o articulista.
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A menos de 40 dias das eleições presidenciais que poderão redefinir os caminhos do futuro do país, a República brasileira sangra de forma crescente, sufocada por uma espiral de escândalos que se sucedem em ritmo vertiginoso e lançam novas sombras sobre o desgoverno Lula. No Palácio do Planalto, o ambiente é de apreensão, tensão e desorientação, em um verdadeiro clima de “barata voa”, provocado por uma avalanche de denúncias que não dá sinais de arrefecimento. A cada novo escândalo revelado, aumenta a percepção de que o governo perdeu o controle da própria narrativa e se vê obrigado a administrar uma sucessão interminável de crises. O que emerge desse cenário é um quadro sombrio de corrupção, aparelhamento, interesses cruzados, alianças espúrias e práticas que corroem a confiança pública e degradam, por dentro, as instituições da República. O lulopetismo chega às eleições acuado, desgastado e sob o peso de uma crise política que ele próprio ajudou a alimentar.
Os mais recentes vazamentos dos esquemas de corrupção envolvendo o epicentro do poder petista desmancha a falsa narrativa de integridade vendida ao povo brasileiro. A teia de podridão envolve, além do Lula, figuras reincidentes e já conhecidas do submundo da corrupção: do primogênito Lulinha – o “filho do rapaz” – ao chefe de gabinete Marcola, passando pela lobista Roberta Luchsinger, o “Careca do INSS”, e os velhos braços de José Dirceu, como Swedenberger Barbosa, o Berger. Esta é a radiografia inegável de uma gestão apodrecida, que tenta se equilibrar no poder sustentando-se na velha política dos esquemas escusos, conchavos imorais e cooptações políticas. Reafirmo que adjetivar a administração petista de corrupta é cometer um desnecessário pleonasmo.
Pelo que se vê, a cada nova revelação, o verniz de credibilidade do governo se desfaz, transformando a confiança popular em um pó pútrido. Assistimos, estarrecidos, à agonia de um castelo de cartas prestes a desmoronar sob o peso de suas próprias contradições e denúncias. Os escândalos já ameaçam não apenas a estabilidade política do governo, mas também o projeto de reeleição do descondenado. Alguns Institutos de Pesquisas eleitorais começam a registrar rápidos sinais de desgaste do presidente, abrindo a possibilidade de que o lulopetismo seja derrotado já no primeiro turno, voltando para o lugar de onde nunca devia ter saído: a prisão
Mas isso não é tudo nesse desmanchar de cartas. Para desespero do lulopetismo, setores importantes do establishment brasileiro, que durante longo período se mostraram cúmplices ou, no mínimo, tolerantes com os desmandos do governo, começam agora a dar sinais de distanciamento. Parte do mercado, principalmente o setor financeiro, identificado no jargão político como “Faria Lima”, passou a cobrar com maior veemência responsabilidade fiscal, previsibilidade econômica e controle dos gastos públicos. Não por acaso, representantes desse segmento já agendaram encontros com Flávio e seus assessores da área econômica para conhecer e discutir seus projetos. O consórcio midiático, por sua vez, vem ampliando o espaço dedicado às denúncias de corrupção e aos questionamentos sobre a capacidade do governo de atravessar a atual crise sem mergulhar o país em um processo recessivo de grandes proporções.
Além dos efeitos corrosivos desse ambiente de corrupção e de gravíssimas divisões no sistema que lhe dá sustentação, os impactos negativos da política econômica do governo Lula já se fazem sentir de maneira contundente, refletindo no humor do eleitor. A elevação da carga tributária, acompanhada de sucessivos déficits fiscais, juros elevados e endividamento crescente das famílias – fatores que corroem o poder de compra e comprimem o consumo – vem comprometendo os fundamentos da economia nacional. A desindustrialização avança, enquanto a perda de competitividade e a deterioração do ambiente de negócios ameaçam a capacidade produtiva do país. A indústria enfrenta um cenário particularmente preocupante, com empresas reduzindo investimentos, recorrendo à recuperação judicial ou transferindo operações para países vizinhos, como o Paraguai. É o retrato de uma economia progressivamente estrangulada por decisões equivocadas, falta de planejamento e uma política fiscal que, em vez de estimular a produção e o empreendedorismo, amplia os custos e a insegurança para quem produz.
No setor varejista, a crise assume contornos devastadores, resultando no fechamento de dezenas de milhares de pontos de venda. As Casas Bahia fecharam 298 lojas; o Magazine Luiza anunciou o fechamento de quase 100 unidades; a rede de supermercados DIA praticamente abandonou o país, desativando cerca de 343 lojas e centros de distribuição; a Habib’s entrou com pedido de recuperação judicial.; a Polishop fechou mais da metade de suas unidades em shopping centers, enquanto a Tok&Stok encerrou dezenas de filiais em shoppings e grandes avenidas. O Carrefour Brasil e o Grupo Pão de Açúcar, com as bandeiras Pão de Açúcar e Extra, desativaram dezenas de lojas em diversos estados, e a Riachuelo fechou unidades em massa, demitindo cerca de 2 mil trabalhadores.
Somadas às milhares de pequenas e médias varejistas que sucumbiram, esse cenário traduz-se na demissão de centenas de milhares de brasileiros, engrossando o exército de milhões de miseráveis brasileiros sem renda. Segundo a publicação da revista Veja na edição desta quarta-feira, 26, durante a atual gestão, número de pedidos de recuperação judicial saltou de 833 para mais de 5.200 em 2025, um aumento de cerca de 524%. Essa é a verdadeira radiografia de um país estrangulado pela incompetência governamental, pela corrupção e pela corrosão econômica que condena a população para um triste quadro de miséria.
Mas o que esperar de um governo comandado por uma figura farsante, alguém que transformou a política em uma permanente encenação, adaptando discursos e personagens às conveniências do momento? Não é preciso ser psicanalista para perceber a tensão entre duas dimensões que coexistem em Lula: de um lado, o personagem público, cuidadosamente construído por meio de um discurso normativo, idealizado e ajustado às expectativas de sua militância e de setores “progressistas”, identitários e antiocidentais; de outro, aquilo que emerge espontaneamente nos improvisos, nos atos falhos e nos chamados “sincericídios”, quando o filtro político parece baixar a guarda e deixa escapar declarações que revelam a verdadeira face de sua personalidade. É justamente nessa fronteira entre o discurso cuidadosamente elaborado e a fala espontânea, entre a estratégia política e o improviso sem filtros, que surgem as contradições mais reveladoras da sua personalidade. São essas ambiguidades do discurso e da prática lulista que merecem ser compreendidas. Vejamos alguns exemplos.
Os chamados “sincericídios” de Lula oferecem um contraponto incômodo à imagem pública cuidadosamente construída ao longo de sua trajetória. Eles revelam, sem disfarces, o verdadeiro Lula, uma figura marcada por frases machistas, homofóbicas, racistas e pelo desprezo pela fé dos brasileiros. Em diferentes momentos, ele expôs seu machismo ao afirmar que “no Nordeste antigo as mulheres gostavam de apanhar”, que “uma mulher não precisa ser competente, tem que ser bonita”, ou ao debochar perguntando “cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido?”. Sua homofobia ficou registrada em declarações como “Pelotas é um polo exportador de veados”; “Isso é negócio de veado”, “Na greve dos metalúrgicos do ABC não tinha veados”. O racismo transpareceu em sua crítica a “Uma fotografia de um cara sem dente e ainda negro”, “O mundo está cheio de negro maluco”, “Tenho profunda gratidão ao continente africano por tudo que foi produzido durante 350 anos de escravidão”.
Nem mesmo a fé escapou do seu sincericídio: “A gente que não acredita em Deus…”; “Nem Deus me ganha nesta eleição”; “Deus é petista”. Recentemente, em Natal, reclamando da situação dos nordestinos, ele culpa Deus: “O que o Nordeste faz para Deus”? Esses pequenos exemplos, colhidos aleatoriamente ao longo de sua trajetória, desmontam o verniz de integridade e revelam a dubiedade de um personagem que, entre o discurso ensaiado e o improviso sem filtros, expõe sua verdadeira face.
No dia 4 de outubro, os brasileiros terão nas mãos o instrumento mais poderoso de uma democracia: o voto. Será a oportunidade de pôr fim a um ciclo de desmandos, escândalos e irresponsabilidade, enviando às urnas, e, simbolicamente, ao lixo da história, um governo que vem dilapidando a confiança dos cidadãos e comprometendo o futuro da nação. Caberá ao eleitor decidir se o Brasil continuará nesse caminho ou se abrirá, enfim, um novo capítulo de reconstrução, responsabilidade e esperança no porvir.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.