“Atrair investimentos é fundamental, mas desenvolvimento econômico é algo maior”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga
Confira:
O Ceará está comemorando a atração de investimentos bilionários em data centers, e existem razões legítimas para isso. Nossa localização geográfica, os cabos submarinos, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém e o potencial de geração de energia renovável colocam o Estado em posição privilegiada na economia digital.
Mas uma pergunta precisa ser feita:
Qual é o plano para proteger, modernizar e ampliar os setores industriais que já geram milhares de empregos no Ceará?
Não se trata de ser contra os data centers. Trata-se de compreender que anúncios bilionários, embora importantes, não se transformam automaticamente em desenvolvimento econômico distribuído.
O projeto da Omnia, destinado à ByteDance, prevê investimentos superiores a R$ 200 bilhões em suas diferentes fases. Outro projeto, relacionado à Voltalia, foi aprovado com investimento estimado em R$ 181,7 bilhões. São números extraordinários, capazes de inserir o Ceará no mapa internacional da infraestrutura digital.
Entretanto, o valor de um investimento não pode ser avaliado apenas por seu tamanho. É necessário perguntar quanto desse capital permanecerá no Ceará, quantos fornecedores locais serão contratados, quantos empregos permanentes serão criados, quais tributos serão efetivamente arrecadados e qual será o retorno econômico e social dos incentivos concedidos.
O projeto relacionado à Voltalia, apesar dos R$ 181,7 bilhões previstos, estima 2.300 empregos durante a implantação e 400 na fase operacional.
Não é uma crítica ao empreendimento. Data centers são naturalmente intensivos em capital, tecnologia, equipamentos e energia. Mas esse perfil reforça uma questão que a política pública não pode ignorar:
Megainvestimento não significa, automaticamente, megaemprego ou desenvolvimento social na mesma proporção.
O Ceará já possui uma base industrial relevante
A discussão também precisa reconhecer que a indústria cearense não está em retração generalizada. O Estado encerrou 2025 com aproximadamente 290 mil empregos industriais formais, ocupando a segunda posição entre os estados do Norte e do Nordeste.
Além dos cerca de 69 mil trabalhadores no setor calçadista, a indústria de alimentos reunia aproximadamente 45 mil empregos; a de confecções, 42 mil; a têxtil, quase 14 mil; a de minerais não metálicos, outros 14 mil; e os segmentos de produtos de metal, bebidas, borracha, móveis e produtos químicos empregavam milhares de cearenses.
Esses números demonstram que o Ceará já possui uma base produtiva diversificada. O desafio, portanto, não é apenas atrair novos empreendimentos, mas assegurar que as indústrias existentes permaneçam competitivas, avancem tecnologicamente e participem das novas cadeias de valor.
A indústria calçadista como sinal de alerta
O Ceará liderou a produção brasileira de calçados em 2025, com 206,8 milhões de pares e 24,4% da produção nacional. Ao mesmo tempo, porém, o setor encerrou o ano com aproximadamente 1.100 empregos a menos.
Em 2026, seis fábricas encerraram suas atividades em pouco mais de um mês, eliminando 923 postos de trabalho. Somente em Pentecoste, o fechamento de cinco unidades atingiu mais de 830 trabalhadores.
Nos sete primeiros meses de 2026, as exportações cearenses de calçados para a Argentina despencaram 84,6% em valor. O setor enfrenta ainda a concorrência asiática, juros elevados, pressão tributária, perda de competitividade e fragilidade nas cadeias terceirizadas.
O caso dos calçados deve ser entendido como um alerta sobre a necessidade de uma política industrial permanente. Não basta reagir quando uma fábrica anuncia o fechamento. É preciso antecipar riscos, apoiar a modernização tecnológica, fortalecer marcas próprias, estimular design e inovação, ampliar o comércio eletrônico e diversificar mercados internacionais.
Têxtil e confecções precisam avançar na cadeia de valor
A indústria têxtil e de confecções também possui enorme relevância econômica e social para o Ceará. Juntas, essas atividades reúnem mais de 55 mil empregos formais e estão presentes tanto na Região Metropolitana de Fortaleza quanto em diferentes municípios do interior.
São setores intensivos em mão de obra, importantes para o empreendedorismo e para a geração de renda, mas que enfrentam concorrência internacional, informalidade, margens reduzidas e rápidas mudanças no comportamento do consumidor.
Uma política de desenvolvimento para esses segmentos deve incentivar automação, digitalização, formação de marcas cearenses, sustentabilidade, rastreabilidade, novos materiais e integração entre indústria, moda, design e tecnologia.
O Ceará não deve se limitar a produzir para marcas de terceiros. Precisa criar condições para que empresas locais dominem etapas de maior valor agregado, desde o desenvolvimento de produtos até a comercialização nacional e internacional.
Alimentos e bebidas podem conectar indústria e Interior
A indústria de alimentos e bebidas responde por mais de 52 mil empregos formais no Estado. Sua importância ultrapassa os grandes centros urbanos, pois está ligada à agricultura, à pecuária, à pesca, à fruticultura, ao comércio e à logística.
Esse setor pode ser um dos principais instrumentos de interiorização do desenvolvimento econômico, desde que receba apoio para modernização sanitária, armazenamento, refrigeração, certificações, inovação em embalagens e acesso a mercados externos.
O Ceará precisa transformar uma parcela maior de sua produção agropecuária dentro do próprio território. Exportar frutas, pescados e matérias-primas é importante, mas produzir alimentos processados, ingredientes, marcas e produtos de maior valor agregado gera mais empregos, tributos e oportunidades empresariais.
Metalmecânico, químico e materiais industriais
Os setores metalmecânico, metalúrgico, químico, plástico, de borracha, móveis e minerais não metálicos também precisam ocupar espaço central na estratégia estadual.
Essas atividades fornecem estruturas, equipamentos, embalagens, peças, componentes e insumos para a construção civil, o saneamento, a geração de energia, a indústria alimentícia, o setor automotivo e os próprios data centers.
Em 2025, os segmentos de produtos químicos, produtos de metal e materiais plásticos estiveram entre os destaques da geração de empregos industriais no Ceará.
Fortalecer essas cadeias significa ampliar a capacidade das empresas cearenses de fornecer para os grandes investimentos atraídos pelo Estado. Se estruturas metálicas, cabos, sistemas elétricos, mobiliário técnico, embalagens, manutenção e serviços especializados forem contratados fora do Ceará, parte relevante do impacto econômico também sairá do Estado.
A nova oportunidade da indústria automobilística
A indústria automobilística merece atenção especial.
O encerramento da produção da Troller representou uma perda importante para Horizonte e para o Ceará. Entretanto, a antiga unidade industrial foi reativada e transformada na Planta Automotiva do Ceará (PACE), inaugurada em dezembro de 2025 como uma unidade multimarcas destinada à produção de veículos eletrificados.
O empreendimento começou suas operações com a montagem de modelos elétricos da General Motors. A primeira fase prevê aproximadamente R$ 400 milhões em investimentos, e a planta possui capacidade projetada para chegar a 80 mil veículos por ano.
Trata-se de uma conquista relevante. Mas o verdadeiro potencial desse projeto não deve ser medido somente pela quantidade de veículos montados.
Atualmente, os modelos chegam à fábrica em conjuntos de peças importadas, no sistema conhecido como SKD. Em meados de 2026, a operação contava com aproximadamente 200 trabalhadores e ainda não realizava compras locais de componentes, embora já existissem iniciativas de homologação de fornecedores e estruturação de um polo automotivo no entorno.
Esse é precisamente o ponto em que a política industrial deve atuar.
O objetivo estratégico precisa ser transformar progressivamente uma operação de montagem em uma verdadeira cadeia automobilística cearense, capaz de atrair e desenvolver fabricantes de:
· componentes elétricos e eletrônicos;
· baterias e sistemas de armazenamento;
· chicotes, cabos e conectores;
· peças metálicas, plásticas e de borracha;
· sistemas de recarga;
· softwares embarcados;
· equipamentos de segurança;
· serviços de engenharia e manutenção;
· reciclagem e reaproveitamento de baterias.
Também será necessário aproximar o polo automotivo das universidades, do Instituto Federal, do Senai, dos centros de pesquisa e das empresas de tecnologia. A nova indústria automobilística depende tanto de engenheiros, programadores e especialistas em eletrônica quanto de profissionais de produção, manutenção, logística e qualidade.
O Ceará não deve se contentar em apenas montar veículos elétricos. Deve buscar participação crescente no desenvolvimento, na engenharia, na tecnologia e no fornecimento dos componentes.
Energia renovável também precisa gerar indústria
O Ceará possui vantagens evidentes em energia eólica, solar e, futuramente, no hidrogênio de baixo carbono. Mas também nesse setor é necessário avançar além da simples geração e exportação de energia.
Quanto dos equipamentos utilizados nos parques eólicos e solares é produzido no Estado? Quantas empresas cearenses fornecem torres, estruturas, cabos, inversores, componentes elétricos, sistemas de monitoramento e serviços de manutenção? Quantas patentes e tecnologias estão sendo desenvolvidas localmente?
A energia renovável deve ser tratada como uma plataforma de industrialização. O objetivo precisa ser atrair fabricantes, formar fornecedores, desenvolver tecnologia e criar competências que permaneçam no Ceará mesmo quando os grandes projetos forem concluídos.
Uma política de desenvolvimento, não apenas de atração
Atrair investimentos é fundamental, mas desenvolvimento econômico é algo maior. Exige fortalecer empresas locais, preservar cadeias produtivas, qualificar trabalhadores, estimular inovação e distribuir oportunidades pelo território.
O Ceará precisa de um plano integrado de desenvolvimento industrial que contemple, pelo menos:
· modernização tecnológica das empresas existentes;
· crédito de longo prazo para produtividade e inovação;
· metas graduais de conteúdo local nos projetos incentivados;
· programas de desenvolvimento e homologação de fornecedores cearenses;
· apoio à formação de marcas próprias e à internacionalização;
· qualificação profissional alinhada às novas indústrias;
· integração entre universidades, centros de pesquisa e empresas;
· acompanhamento preventivo de setores e municípios sob risco industrial;
· transparência sobre incentivos, contrapartidas e resultados alcançados.
Também é necessário conectar a economia digital à indústria existente. Parte das contrapartidas e dos ganhos econômicos proporcionados pelos data centers poderia apoiar centros de inovação industrial, programas de inteligência artificial aplicada à manufatura, segurança cibernética, automação e formação profissional.
O desenvolvimento precisa criar raízes
É positivo que o Ceará se transforme em uma referência internacional em data centers. Também é positivo que volte a produzir veículos e participe da transição para a mobilidade elétrica.
Mas o sucesso dessas iniciativas dependerá de sua capacidade de criar raízes econômicas no Estado.
Quantos fornecedores cearenses participarão dos projetos? Quanto será destinado à pesquisa e ao desenvolvimento? Quantos profissionais serão formados? Qual será o conteúdo local dos veículos? Quantas empresas industriais utilizarão a infraestrutura digital e energética para elevar sua produtividade?
Essas perguntas não representam oposição ao progresso. Representam responsabilidade na alocação dos recursos públicos e preocupação com a sustentabilidade do desenvolvimento.
Por isso, a pergunta permanece:
Qual é o Plano de Desenvolvimento Econômico do Ceará, além dos data centers?
O futuro não deve ser construído abandonando o presente. O verdadeiro desenvolvimento acontecerá quando o Ceará conseguir transformar bilhões anunciados em empregos permanentes, fornecedores locais, inovação industrial, arrecadação sustentável e prosperidade compartilhada.
Tecnologia sem encadeamento produtivo pode gerar grandes instalações. Mas somente uma estratégia econômica diversificada será capaz de construir um Estado verdadeiramente desenvolvido.
Uma resposta
Atrair investimentos bilionários é, sem dúvida, uma grande conquista para o Ceará, mas o verdadeiro desafio começa justamente depois do anúncio.