“Quando o mérito social perde para a guerra ideológica” – Por Luiz Henrique Campos

Bolsa Família, benefício federal.

Com o título “Quando o mérito social perde para a guerra ideológica”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “O Bolsa Família possui falhas, desafios e riscos de uso político? Evidentemente. Mas negar sua importância histórica exige desconhecer completamente a realidade social brasileira.”, expõe o colunista.

Confira:

Os números recentes que apontam melhora no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil deveriam provocar debate maduro, profundo e estratégico sobre o futuro do País. Mas, no Brasil da polarização permanente, até boas notícias acabam sequestradas pela disputa política mais rasa possível.

O avanço registrado não surgiu por acaso. Há influência direta de programas de transferência de renda, especialmente o Bolsa Família, na melhoria de indicadores ligados à educação, alimentação, renda mínima e redução da pobreza extrema. É o tipo de política pública que produz resultados silenciosos no presente, mas cujos efeitos reais aparecem sobretudo ao longo das próximas décadas.

Uma criança alimentada hoje terá melhores condições cognitivas amanhã. Um jovem que consegue permanecer na escola rompe ciclos históricos de miséria. Uma família que deixa de viver na absoluta insegurança passa a ter alguma previsibilidade. Desenvolvimento humano não se mede apenas pelo PIB ou pela bolsa de valores; mede-se também pela capacidade de um país impedir que milhões sobrevivam abaixo da dignidade.

O problema é que o debate nacional de hoje raramente alcança esse nível. O Brasil transformou quase tudo em torcida organizada. O Bolsa Família, assim como já ocorreu com a Lei Rouanet e tantos outros programas públicos, virou símbolo ideológico antes de ser analisado pelo mérito de seus resultados.

Há quem ataque o programa como se assistência social fosse sinônimo automático de acomodação. Outros o defendem de maneira quase religiosa, como se qualquer crítica representasse crueldade social. Nos dois casos, perde-se aquilo que realmente importa, que é discutir eficiência, aperfeiçoamento, fiscalização e impacto estrutural.

Nenhuma política pública deveria ser blindada de críticas. Mas também não pode ser demonizada apenas porque beneficia governos adversários. O Brasil precisa abandonar a lógica infantil de destruir tudo o que o outro lado criou. Países sérios acumulam políticas de Estado; não passam décadas reinventando a roda a cada eleição.

O Bolsa Família possui falhas, desafios e riscos de uso político? Evidentemente. Mas negar sua importância histórica exige desconhecer completamente a realidade social brasileira. Os próprios indicadores internacionais mostram que transferência de renda, quando associada a educação e saúde, possui impacto concreto na redução das desigualdades.

A tragédia brasileira está justamente aí. Programas relevantes deixam de ser aprimorados porque o debate é capturado pela guerra cultural. Em vez de discutir portas de saída, qualificação profissional, autonomia econômica e mecanismos de controle, prefere-se produzir slogans para redes sociais.

Enquanto isso, o País continua desperdiçando energia em conflitos artificiais, incapaz de construir consensos mínimos até mesmo sobre aquilo que funciona.

Talvez o avanço do IDH ensine algo importante. Nem toda política social é populismo barato. E nem toda crítica ao assistencialismo nasce da preocupação com eficiência. Às vezes, o que existe é apenas o velho vício brasileiro de transformar pobreza em palanque e desenvolvimento humano em disputa eleitoral.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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