Com o título “Quando um Nutricionista e um Sociólogo conversam”, eis artigo de Pedro de Albuquerque Neto, sociólogo e advogado, e de Lucas de Albuquerque, nutricionista com pós-graduado em Nutrição Esportiva e Nutrição Estética. “A ciência dele cura o corpo, e a nossa consciência luta para que todos tenham, por direito, a oportunidade de serem curados. O diálogo que começou com um afetuoso “Gostou, Vô?”; termina como um manifesto: a razão só é verdadeiramente científica quando é capaz de se emocionar com a realidade do outro”, expõem os articulistas.
Confira:
Dias atrás, meu neto, o nutricionista Lucas de Albuquerque Rocha — que assina profissionalmente como Lucas de Albu —, enviou-me orgulhoso uma entrevista sua ao Jornal Tribuna (Link: jornaltribuna.com.br). Ele comentava o impacto da aprovação do primeiro genérico da semaglutida no Brasil e alertava: a “caneta emagrecedora” não faz milagres se isolada de hábitos saudáveis. Ao ler suas palavras, fui tomado por dois vetores de felicidade: o primeiro, ver a segurança de seu voo profissional; o segundo, perceber o compromisso ético e humanizado de sua prática com o bem-estar do outro.
Ao me perguntar “Gostou, Vô?”, ele disparou em mim um gatilho inevitável. Minha mente, moldada por décadas de atuação na Sociologia e no Direito, começou a parir ideias. Afinal, a ciência que foge do sentimento humano arrisca virar dogma e opressão. E foi no entrelaçamento entre o amor de avô e a razão científica que percebi como os nossos olhares, embora de áreas tão distintas, se completam diante de uma realidade compartilhada.
O Diagnóstico Biológico e a Ilusão da Escolha
Em sua entrevista, Lucas trouxe uma precisão científica impecável sobre os riscos da perda de peso desordenada. Ele explicou que não basta olhar para a balança, mas sim para a composição corporal, sob o risco de acelerarmos o desenvolvimento da sarcopenia (a perda de massa muscular). A receita clínica dele é clara: alimentação adequada, proteína suficiente e treino de força. Esse é o terreno das diferenças naturais. Cada indivíduo é geneticamente único, possui um metabolismo próprio e envelhece em ritmos distintos. Diante disso, o papel do nutricionista é clínico e insubstituível: aplicar a ciência para otimizar o corpo de cada paciente. Essas condições biológicas nós não podemos mudar, mas podemos acolher e cuidar. No entanto, o organismo humano não opera no vácuo de um consultório. É exatamente aí que a receita médica esbarra na estrutura social.
A Prateleira Desigual: Quando a Diferença Vira Injustiça
Para que um paciente cumpra a meta clínica de ter proteína suficiente no prato, entramos no campo das diferenças não naturais, aquelas construídas pela sociedade. Ter acesso a carnes, ovos ou laticínios de qualidade exige emprego estável, renda digna e salários justos. Como sociólogo, preciso lembrar que a nutrição dita o que o corpo precisa, mas a economia e a política determinam quem pode pagar. Quando a estrutura socioeconômica impede que uma grande parcela da população tenha acesso ao básico, operamos uma mutação perversa. Certo nível de diferença social é natural e até aceitável em sociedades complexas; o intolerável é quando a disparidade se converte em privação. Nesse ponto, as diferenças deixam de ser meras distinções biológicas ou assimetrias sociais toleráveis e passam a ser, categoricamente, injustiças. Ao contrário do envelhecimento biológico, que é uma imposição inevitável, as distorções sociais não são um destino fixo. Fomos nós, como sociedade, que as criamos; portanto, nós podemos e devemos mudá-las.
O Acoplamento entre Estruturas, Leis e a Busca pela Felicidade
Sob o prisma do Direito, essa assimetria ganha contornos de violação constitucional.
O Artigo 6º da nossa Constituição Federal inscreve a alimentação e a saúde como direitos fundamentais. Logo, a incapacidade financeira de se alimentar adequadamente retira a saúde do campo das “escolhas individuais de estilo de vida”; e a coloca no centro do debate sobre a dignidade humana.
É aqui que a biologia do corpo e a estrutura social se encontram na vida real. Como resume de forma brilhante o meu neto na entrevista:
“Não existe medicamento capaz de substituir hábitos saudáveis. A verdadeira transformação acontece quando o paciente aprende a cuidar da alimentação, movimentar o corpo e desenvolver um estilo de vida que possa ser mantido por muitos anos. A medicação pode fazer parte desse processo quando existe indicação, mas não deve ser encarada como uma solução isolada”.
Esse nó estrutural aponta para uma lacuna urgente: a necessidade de políticas públicas que unam a ciência nutricional à garantia de sustentação alimentar. Se as recomendações clínicas do meu neto são vitais para a saúde e se a alimentação está inscrita na Constituição, o Estado precisa enxergar a nutrição como uma política preventiva fundamental. Investir no acesso à comida de qualidade não é um gasto; é uma estratégia que reduz os custos de saúde pública ao evitar a doença e, ao mesmo tempo, eleva os índices de paz e felicidade social.
É o momento em que a análise técnica e a sensibilidade humana se cruzam em nossa reflexão. Podemos usar o olhar sociológico para compreender como essas diferentes esferas — a economia, o direito, a política e a biologia — operam em lógicas próprias, mas se tensionam dramaticamente na experiência humana. No entanto, onde a descrição fria das estruturas se limita a observar a complexidade do mundo, é a consciência social que nos lembra que a realidade material precisa ser transformada. Afinal, quando a engrenagem econômica sufoca o sistema biológico pela escassez, o que se destrói não é apenas o equilíbrio biológico que meu neto busca proteger, mas a própria
viabilidade da felicidade humana.
A Ciência que Cura, a Consciência que Luta
Celebrar a chegada de novos medicamentos genéricos é fundamental para democratizar tratamentos. Mas a verdadeira transformação na saúde coletiva exige que a ciência cure o corpo sem esquecer de olhar para a história social e econômica que molda aquele indivíduo.
Ao responder ao meu neto, percebi que nossos caminhos se cruzam de forma bonita e urgente. A nutrição receita a meta de saúde; a sociologia diagnostica as barreiras estruturais; e o direito e a política lutam pela viabilização do acesso. Diante de um mundo desigual, nossa postura deve ser a de somar forças. A ciência dele cura o corpo, e a nossa consciência luta para que todos tenham, por direito, a oportunidade de serem curados. O diálogo que começou com um afetuoso “Gostou, Vô?”; termina como um manifesto: a razão só é verdadeiramente científica quando é capaz de se emocionar com a realidade do outro.
*Pedro de Albuquerque Neto é sociólogo e advogado (OAB/CE 16224). dealbuquerqueneto.pedro@gmail.com
**Lucas de Albuquerque é nutricionista, pós-graduado em Nutrição Esportiva e Nutrição Estética, com atuação clínica voltada para performance, emagrecimento, saúde e qualidade de vida. Site: https://nutrilucasdealbu.com.br