“Que pedaço do futuro é teu, universidade? – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University

Com o título “Que pedaço do futuro é teu, universidade? – Soberania Digital: Vitória virou Verbo”, eis artigo de

Mauro Oliveira, professor do Instituto Federal do Ceará e Prêmio Luiz Fernando da Sociedade Brasileira de Computação – 2023.

(A Eustáquio de Castro, meu reitor preferido)

Confira:

_”Universidade que não constrói o futuro forma gente no futuro dos outros.”_

A frase incomoda. Ainda bem.

Universidade existe também para incomodar.

Há poucos dias escrevi sobre uma “*Universidade com Tesão*”, a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde uma mesa-redonda sobre soberania digital resolveu desobedecer ao relógio.

Começou pela manhã e “se encangou no fundo do pote” da tarde. Pesquisadores, dirigentes e equipe jurídica “invadiram” a reitoria, liderados pelo próprio reitor, que cancelou sua agenda para dedicar-se ao inusitado: fazer uma mesa-redonda produzir consequência.

Nascia ali o *Manifesto de Vitória pela Soberania Digital.*

Foi bonito. É bonito. E continua bonito… gonzagueando por aqui.

Mas, inevitavelmente, fica uma pergunta: E agora?

*1. Manifesto não muda país*

Manifestos são importantes. Registram ideias. Criam convergências. Marcam posições.

Mas papel aceita tudo.

E o Brasil é pródigo em documentos que começam revolucionários e terminam numa gaveta, 1cuidadosamente preservados entre a ata da reunião anterior e a convocação da próxima.

O Manifesto de Vitória só terá importância se tornar-se movimento.

E a primeira pergunta desse movimento não deve ser dirigida ao Governo, ao Congresso ou às Big Techs. Deve ser feita à própria Universidade brasileira:

Soberania Digital: e a Universidade com isso? Tudo.

*2. Em que futuro nossos alunos vão trabalhar?*

Estamos atravessando uma transformação tecnológica que reorganiza tudo ao mesmo tempo.

Emprego. Educação. Ciência. Economia. Cultura. Poder.

Tenho insistido, nas mais de 40 visitas da Caravana LF pela Soberania Digital às Universidades brasileiras: a Inteligência Artificial Generativa não é apenas evolução tecnológica. É disrupção.

E uma disrupção que a sociedade e parte da própria Universidade ainda não compreenderam, em toda a sua dimensão.

Como construir o futuro sem compreender a tecnologia que já redesenha o presente?

IA, datacenters, nuvens, chips, algoritmos, plataformas e dados constituem uma nova infraestrutura de poder. Quem dominá-la e compreender o que ela significará logo ali, lá acolá em 2030, estabelecerá as regras do jogo.

Mas, como soberania não é autarquia, o problema começa quando sabemos usar quase tudo, mas decidir sobre quase nada.

Daí a provocação:

“Universidade que não constrói o futuro forma gente no futuro dos outros.”

*3. No campo ou na arquibancada?*

É aqui que a questão deixa de ser apenas tecnológica. Torna-se universitária.

Observar, publicar, formar, criticar?

Humm… Tudo isso já não basta.

Como dito, a universidade não deveria contentar-se em ser reflexo da sociedade. Deveria iluminá-la. Foi criada há cerca de mil anos, pra isso, né não?

E Vitória ensinou algo mais: há momentos em que iluminar não basta. É preciso entrar em campo.

Foi exatamente isso que me impressionou na UFES. Não o Manifesto…

*O gesto.*

A UFES poderia ter encerrado sua mesa-redonda, ter agradecido aos palestrantes, tirado a fotografia oficial e o reitor celebrado:

“Excelente debate!”

Não o fez. Percebeu uma oportunidade e atravessou a porta antes que alguém convocasse uma reunião para discutir se deveríamos atravessá-la.

Talvez a maior lição de Vitória tenha sido:

Universidade não precisa apenas discutir o futuro. Precisa participar de sua construção.

*4. Assinaturas ou Compromissos?*

Talvez seja fácil fazer agora o Manifesto de Vitória sobre Soberania circular pelo País.

Reitores assinariam. Pesquisadores assinariam. Universidades assinariam.

Faríamos uma bela página, reuniríamos cem logotipos, tiraríamos fotografias e comemoraríamos:

Cem adesões?

Pouco.

O Manifesto de Vitória não deveria percorrer as Universidades brasileiras somente à procura de assinaturas… mas à procura de compromissos.

A diferença parece pequena. Não é.

Assinar significa: “Concordo.”

Assumir um compromisso significa: “Isso aqui é comigo.”

*5. Cem Universidades. Cem compromissos.*

EITA que veio agora uma ideia descendo a ladeira…

E se cada Universidade brasileira assumisse um pedaço da soberania digital do País?

Não para fazer tudo. Nem para criar mais uma comissão.

Cada instituição poderia assumir uma Missão de Soberania Digital coerente com sua vocação: IA, semicondutores, cibersegurança, nuvens, dados, formação, datacenters ou políticas públicas.

Universidades, Institutos Federais e centros de pesquisa, cada um escolhendo um problema e mobilizando competências para enfrentá-lo.

Não para competir. Para compor.

Um mosaico nacional de competências e compromissos.

E a verba?

A missão precisa vir antes do orçamento. Recurso segue prioridade; não o contrário.

A missão pode começar pequena, num laboratório, projeto ou parceria. Importa que alguém diga:

“Este pedaço é nosso.”

Não precisamos que cada Universidade resolva a soberania digital brasileira.

Precisamos que nenhuma considere que esse problema não é dela.

*6. A Caravana LF muda de bagagem*

Talvez esteja aí um novo papel para a Caravana LF nessa andança pelas Universidades brasileiras, levando de campus em campus a provocação da soberania digital.

Uma Caravana não constrói morada.

*Constrói caminhos*.

Em Vitória, chegamos levando provocações. Terminou num Manifesto.

Agora podemos viajar mais leves. Basta uma pergunta na bagagem:

*Qual parte da soberania digital brasileira a sua Universidade está disposta a assumir?*

Uma pergunta para reitores, professores, pesquisadores e estudantes.

Não queremos apenas saber quem concorda ou quem assina.

Queremos saber quem assume.

A Caravana LF não precisa colecionar assinaturas. Pode colecionar compromissos.

*7. Do Manifesto ao Movimento de Vitória*

É esse o próximo capítulo daquela manhã que se recusou a terminar.

O Manifesto nasceu… pra sair de casa.

Não como um PDF procurando assinaturas. Como uma provocação procurando gente disposta a fazer.

*Vitória fez sua parte*.

Agora é hora de outras Universidades fazerem a sua.

Cada uma escolhendo um pedaço. Um problema. Uma missão.

*Um compromisso*.

Cem Universidades fazendo cem coisas diferentes pelo mesmo País.

Talvez seja assim que o Manifesto de Vitória se transforme em Movimento de Vitória.

Porque…

“_Universidade que não constrói o futuro forma gente no futuro dos outros.”_

*Mauro Oliveira

Professor do Instituto Federal do Ceará
Prêmio Luiz Fernando da Sociedade Brasileira de Computação – 2023.

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