Há momentos em que uma cidade deixa de esperar o futuro e decide construí-lo. Mas, raros são aqueles em que alguém resolve virar a chave que o mantinha trancado.
Saí de uma conversa recente com o empresário Amarílio Macêdo com essa impressão.
Ele não me apresentou apenas um empreendimento; compartilhou uma convicção, dessas que, quando amadurecem, deixam de ser projeto empresarial para se transformar em projeto de desenvolvimento. Não falou apenas de uma ZPE em Quixeramobim. Falou de um novo papel para o Sertão Central na economia brasileira.
O título de sua entrevista à Folha, no dia 12 de julho, sustenta tudo: “Sudeste cresceu nas costas do Nordeste”.
A frase não é um desabafo regionalista. É uma leitura histórica.
Não expressa ressentimento. Expressa diagnóstico.
Não é apenas uma mudança de discurso. É de “virar a chave”.
O Nordeste com suas próprias pernas
No passado, o Nordeste exportou pessoas, energia, matérias-primas e até oportunidades para impulsionar o desenvolvimento de outras regiões.
Amarílio Macêdo propõe “virar essa chave”: em vez de exportar riqueza potencial, BORA exportar produtos com valor, tecnologia e conhecimento agregados antes que ela deixe o território. Pela primeira vez em muito tempo, esta “virada de chave” parece ao nosso alcance. Não pela força do discurso nem por subsídios passageiros, mas pela construção de um novo ambiente econômico.
A ideia ganha peso pela trajetória de quem a sustenta. Por quem passou mais de meio século à frente da J. Macêdo, empresa fundada por seu pai e responsável pelas marcas como Dona Benta e Sol, presentes na mesa de milhões de brasileiros. Com a coragem que por vezes falta a algumas lideranças, Amarílio afirma que chegou a hora de o Nordeste crescer com as próprias pernas, olhar para o mundo e deixar de ser fornecedor de recursos para tornar-se protagonista da riqueza que produz.
Uma Conversa Além da “Folha”
Representando o Iracema Digital, aceitei o convite de Amarílio Macêdo imaginando conhecer um novo empreendimento, após ter lido sua entrevista na Folha de SP. Saí da reunião convencido de que estava diante de algo bem maior.
Entrevista de jornal não comporta todas as nuances de uma visão de futuro. Na nossa conversa, Amarílio deixou claro que não propõe apenas uma ZPE ou mais um distrito industrial. Propõe uma nova lógica de desenvolvimento para o Sertão Central.
Talvez seja essa a melhor definição para o momento de Quixeramobim: chegou a hora de “virar a chave”. É abandonar um modelo que já deu o que tinha de dar.
Durante muito tempo, acreditamos que o desenvolvimento regional dependia essencialmente de incentivos fiscais, grandes obras de infraestrutura ou da ação dos governos.
Nada disso perdeu importância. Mas nada disso, isoladamente, é suficiente.
Uma ferrovia transporta cargas.
Uma cidade bem planejada atrai investimentos.
Uma educação de qualidade forma talentos.
A tecnologia conecta tudo isso ao mundo.
E quando essas quatro engrenagens passam a funcionar em conjunto, o território muda de patamar.
Foi na convergência dessas quatro engrenagens que encontrei na visão de Amarílio Macêdo.
Muito além de uma ZPE
Amarílio deixou claro, portanto, que sua visão vai muito além da isenção fiscal. Incentivos, para ele, só fazem sentido quando geram riqueza nova para a sociedade. Assim, ZPE é o motor de sua estratégia. Não é o destino.
Sua fala transmitia algo raro no Brasil de hoje: confiança. Não a confiança ingênua de quem ignora os riscos, mas a serenidade de quem os conhece, os calculou e decidiu apostar assim mesmo. Uma convicção construída em décadas de chão de fábrica e na leitura das transformações que redesenham a economia mundial.
Onde muitos ainda enxergam apenas um sertão distante dos grandes centros, Amarílio vê um território estrategicamente posicionado para uma nova etapa da industrialização brasileira. A Transnordestina, a política das ZPEs, a expansão do Pecém e a reorganização das cadeias globais de produção começam a abrir uma janela histórica de oportunidade. E janelas como essa não costumam permanecer abertas esperando quem demora.
A ZPE é apenas a face visível de uma transformação muito maior em Quixeramobim.
“Quixeramobim, o que será de mim” (Fagner, Fausto Nilo e Nonato Luiz)
Durante anos, a pergunta eternizada por Raimundo Fagner, Fausto Nilo e Nonato Luiz parecia traduzir a incerteza de boa parte do Sertão. Hoje, a pergunta talvez comece a encontrar resposta e, numa dessas delicadezas da história: um de seus autores ajuda agora a desenhá-la.
Um aprendizado na conversa com Amarílio foi compreender que desenvolvimento não nasce por decreto. Nem de incentivo fiscal isolado, nem de obra grande tratada como milagre. Infraestrutura é condição necessária. Jamais suficiente.
A escolha de Quixeramobim, porém, está longe de ser casual. A cidade reúne porto seco, será cortada pela Transnordestina com conclusão confirmada para 2028, conectado-se ao Pecém, um dos maiores ativos logísticos do país.
Na entrevista à Folha, Amarílio faz uma observação provocadora: nas próximas décadas, o Pecém pode deixar Santos para trás. Não por bairrismo, mas por geografia. Santos já opera perto dos seus limites físicos; o Pecém tem dezenas de quilômetros pela frente.
As oportunidades econômicas se parecem muito com os trens.
Passam por estações específicas.
E raramente esperam quem chega atrasado.
Um empreendimento com alma
Como ficou bastante claro, a ZPE em Quixeramobim é apenas a face mais visível do projeto. O que diferencia a proposta é nascer apoiada, além da infraestrutura, em três pilares que raramente caminham juntos desde o início: urbanismo, educação e tecnologia.
O primeiro leva a assinatura de Fausto Nilo, filho de Quixeramobim e um dos maiores urbanistas brasileiros. O menino que saiu do Sertão volta para projetar o futuro da própria terra. Não é todo dia que biografia, geografia e história se encontram com tanta harmonia.
O segundo pilar é a educação. A formação das novas gerações será fortalecida pelo Círculo de Leitura, do Instituto Braudel, programa reconhecido nacionalmente por formar leitores, cidadãos críticos e jovens protagonistas com mais de 60 mil jovens atendidos. Há um simbolismo poderoso nisso: antes de construir fábricas, o projeto escolhe formar pessoas. Primeiro o cidadão. Depois os galpões.
O terceiro pilar trouxe à mesa o Instituto Iracema Digital. O convite nasceu daí: nossa missão não será de engenharia (estradas, ferrovias ou edifícios). Será ajudar na construção da inteligência: aproximar universidades, empresas, governos e sociedade para que a inovação deixe de ser discurso e passe a integrar a estrutura do empreendimento, atuação que o Iracema Digital vem fazendo com maestria desde sua criação em 2018.
Na nova Teoria da Economia Informacional (TEI), cidades não competem apenas pela qualidade de sua infraestrutura. Competem, sobretudo, pela capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento.
A Economia Informacional no Coração de Quixeramobim
Foi uma capacidade diferenciada de construir convergências que encontrei na conversa com Amarílio. Ele compreende que, na economia informacional, desenvolvimento não depende apenas de ferrovia, porto ou energia. Depende, sobretudo, da capacidade de transformar conhecimento em riqueza.
Infraestrutura física sem infraestrutura digital é como um corpo sem sistema nervoso.
Cidades inteligentes não nascem da simples instalação de sensores, antenas ou fibra óptica. Nascem quando existe uma comunidade capaz de inovar continuamente, conectando pesquisadores, empresários, agentes de governo, entidades e sociedade civil em torno de um mesmo propósito.
É para essa dimensão, às vezes invisível aos olhos, mas decisiva para a competitividade, que o Iracema Digital foi convidado a ajudar a construir. Porque, na economia do século XXI, o ativo mais valioso de um território já não está apenas debaixo da terra ou sobre ela. Está na inteligência que ele consegue produzir, compartilhar, agregar valor e transformar em desenvolvimento.
O novo Ceará talvez venha do Sertão
Há uma ironia geográfica em curso.
Sempre imaginamos que o futuro do Ceará chegaria pelo litoral: portos, turismo, cabos submarinos e, mais recentemente, datacenters.
Claro que isso tudo não perdeu importância. Mas talvez o próximo salto do Estado comece onde poucos imaginam: no Sertão Central onde estes ativos não existem à exceção o turismo.
Uma ZPE do século XXI não movimenta apenas cargas. Movimenta dados. Exige rastreabilidade, inteligência logística e integração em tempo real entre indústria, ferrovia, porto, alfândega, energia e mercado internacional.
É aí que litoral e sertão deixam de competir para se completar.
O Ceará reúne uma combinação rara: um interior que se industrializa e um litoral conectado ao mundo pelo Pecém, eletronicamente pelo Cinturão Digital e por uma das maiores concentrações de cabos submarinos do hemisfério sul.
O produto fabricado em Quixeramobim seguirá pela Transnordestina até o porto; a informação que coordena sua produção, venda, marketing, rastreio etc. percorrerá, insantaneamente, os caminhos digitais que ligam Fortaleza aos principais mercados do mundo.
Não é metáfora. É a infraestrutura da economia informacional.
Talvez seja essa a maior novidade: o novo Ceará pode nascer da aliança entre o sertão que produz e o litoral que conecta. Não um contra o outro, os dois na mesma direção.
Quem já virou uma chave sabe reconhecer outra
Empreender é, antes de tudo, um ato de confiança no futuro.
Amarílio Macêdo faz disso uma prática. Sua aposta em Quixeramobim é apenas o capítulo estratégico (talvez disruptivo) mais recente de uma trajetória iniciada muito antes, quando articulou o Pacto de Cooperação do Ceará.
Nos anos 1990, o movimento reuniu empresários, universidades, governo e sociedade em torno de uma agenda comum de desenvolvimento, provando que grandes transformações começam quando se constrói convergência e se faz planejamento antes de construir obras.
Como costuma lembrar meu amigo Ricardo Liebmann, presidente do Iracema Digital, o Pacto mostrou que é possível construir propostas mesmo entre pessoas que pensam diferente. A experiência está registrada por João de Paula e Flávio Paiva em “A Essência da Gestão Compartilhada no Pacto de Cooperação do Ceará”, referência sobre esse momento singular da nossa história.
Talvez por isso Amarílio continue apostando onde muitos apenas duvidam. À Folha, resumiu: temos mania de reclamar, mas ainda vale muito a pena investir no Brasil.
Depois de uma vida dedicada à indústria, Amarílio, aos 81 anos, poderia limitar-se a administrar o patrimônio que construiu. Preferiu, disse-me ele, investir “cada minuto de seu tempo”, recursos e reputação num projeto cujo maior legado talvez não seja financeiro. Seja histórico… para ser contado nos bancos escolares ao lado Montenegro (CTA/ITA), Delmiro Golveira (Pauo Afonso), Fernando de Mendonça (INPE), Ariosto Holanda (CVTs/Centec) dentre outros que … “em não sabendo que era impossível, foram lá e fizeram”.
Num país que, tantas vezes, parece menor que as oportunidades colocadas à sua frente, exemplos como esse ajudam a lembrar que o desenvolvimento não pertence aos que esperam. Pertence aos que decidem construí-lo… com a “mão na massa”.
O sertão vai virar a chave
É muito popular no sertão a profecia de Antônio Conselheiro, que nasceu, não custa lembrar, em Quixeramobim: “o sertão vai virar mar”.
Talvez a economia do século XXI peça outra leitura.
O sertão precisa, na verdade, tornar-se uma das grandes portas do Brasil para o mar.
Pela Transnordestina seguirão as cargas até o Pecém, vindas dos cafundós do Piaui, Mato Grosso etc. Pelos cabos de Fortaleza viajarão os dados que coordenam todo o ciclo dessa produção, gerando riqueza, oportunidades e desenvolvimento no próprio território.
Na palestra que apresentarei no Congresso da Sociedade Brasileira de Computação, agora, em julho/26, no RS / Gramado, tento responder a seguinte pergunta do evento: “para quem estamos entregando as chaves do nosso futuro?”
Quixeramobim ensaia uma resposta a esta pergunta
E a verdadeira chave não está na ferrovia, na ZPE ou no porto. Está na capacidade de transformar infraestrutura em inteligência, conhecimento em riqueza e desenvolvimento em prosperidade compartilhada.
Em assim acontecendo, Quixeramobim não será lembrada apenas por sua ZPE… em pleno andamento.
Mas como o lugar onde o Ceará decidiu virar a chave …
E mostrou que o desenvolvimento começa quando um território tem a coragem de construir o próprio futuro.
Bravo, Amarílio Macedo (colega de meu irmão Raimundo Mauro nos Jesuítas de Baturité)
Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações