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“Samba pra japonês ver”

Demétrio Andrade é jornalista e sociólogo

Em artigo sobre o Rio, o jornalista e sociólogo Demétrio Andrade conta sua experiência em viagem recente à Cidade Maravilhosa, com uma visão social, política e, claro, samba! Confira:

Virei o ano no Rio. Adoro a cidade, que continua linda, se olharmos o horizonte, à altura de suas “pedras monumentais”. Fitando as ruas, é linda, como diria Clarisse Lispector, “apesar de”. Apesar de insegura. Apesar de suja. Apesar de ser a capital que mais reúne pessoas que “gostam de levar vantagem em tudo”, usando de qualquer subterfúgio para executar a Lei de Gérson. Aliás, pegar um táxi em terras fluminenses é pedir pra ser assaltado. Apesar de lindo, Rio, eu te lamento.

Como bom sambista, fui visitar a Lapa. O que é mais legal nesses points é a muvuca, o clima, o astral. Desci pro Beco do Rato. Difícil segurar a onda. Atendimento péssimo. Uma hora pra chegar dois drinks. E tudo, claro, a um preço pra lá de salgado. Ao lado, uma mãe e uma filha brasileiras, mas com feições nipônicas – daí o nome do artigo – que tentavam comprar uma cerveja há mais de uma hora, em pé, sentindo os primeiros pingos de chuva ao relento.

O samba rolava com o Casuarina, um grupo excelente, mas com visão e qualidade sonora restrita a poucos e pacientes “privilegiados” felizes em se acotovelarem num cubículo: um espaço enorme, porém mal distribuído, criado dentro da clássica visão de “puxadinho”. Parênteses: várias casas de Fortaleza oferecem música de qualidade, inclusive samba, a um preço muito mais honesto e – principalmente – com muito mais conforto e um serviço decente, além de um cardápio que supera, em opções e sabor, vários locais cariocas badalados.

Não foi só isso. No réveillon em Copa, o palco principal da “terra do samba” tinha Nattan, Luísa Sonza, Glória Groove, Ludmilla. Nada contra quem gosta. Mas é estranho reservarem um palco de “segunda opção”, onde fiquei, para Teresa Cristina – que começou a tocar 17h30 –, Jorge Aragão e Diogo Nogueira. Jorge, aliás, cansou de reclamar – com razão – durante o show. Pudera. “Também somos linha de frente de toda essa história/Nós somos do tempo do samba sem grana, sem glória/Não se discute talento, mas seu argumento, me faça o favor/Respeite quem pode chegar onde a gente chegou”.

A Velha Guarda da Portela se apresentou com Roberta Sá, mas lá em Madureira, seu nascedouro. Família Diniz, em Mauá. Mart’nália e Moacir Luz, no Aterro. Nada contra, tenho que dizer novamente. Espalhar e democratizar as atrações é iniciativa louvável do poder público. Mas pra mim, amante do samba, aquilo soou como “uma satisfação” dada a quem ajudou o Rio a ser o que é.

Aliás, antes de parar na capital, fui à Paraty, cidade cujo nome já foi sinônimo de cachaça, pela qualidade do produto, imortalizada no samba – olha ele aí de novo – “Camisa Listrada”, de Assis Valente. Fiz um tour maravilhoso, provando várias versões da danada. Muito boa. Mas, como parece acontecer com tudo no Rio, a de Minas é melhor. E algumas das nossas aqui, no Ceará, são tão boas quanto.

Não deixarei de ir ao Rio por isso. Pelo contrário, alimento a esperança de que a população de lá acorde e eleja alguém que não termine preso, como seis – eu disse seis – ex-governadores, além de um ex-prefeito, de 2016 pra cá. Isso sem contar com um ex-presidente da Assembleia Legislativa e um ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado. Não posso, porém, esperar que isso se resolva somente a partir da iniciativa do poder público. O buraco é bem mais embaixo que o bondinho e o Redentor. Berço político das facções, das milícias e do inelegível, o Rio vive hoje condenado a ser um pastiche de si mesmo, como as japonesas que não eram e o samba que não foi.

Demétrio Andrade é jornalista e sociólogo

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Uma resposta

  1. Muito bem esclarecer esse seu artigo.
    Nota dez pra ele.

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