“A redução das lacerdinhas em Fortaleza se deve por existirem bem menos pés de Ficus do que há algumas décadas”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Nem tudo tem explicação, principalmente quando se relaciona com nossa memória afetiva ou degustativa. Gostar de uma manga e detestar sapoti, querer se vestir de amarelo e rejeitar o verde, são exemplos que me despertam curiosidade sobre como essas escolhas se dão no nosso interior.
Cheguei a pensar que pode ser pela influência – direta ou indireta – de outras pessoas. Mas, concluí que pode ser por tantos fatores, inclusive um gosto pessoal que já nasce com a gente, que se torna impossível dizer ao certo como essas escolhas começam.
Estes pensamentos me trouxeram uma escolha feita na infância. Eu adorava um vestidinho amarelo e ele passou a ser a “cara” dos passeios com a família. Em uma dessas andanças, o meu choro deu um susto em todo mundo. Só eu usava amarelo e atraí todas as lacerdinhas da Avenida Duque de Caxias, no Centro de Fortaleza. Elas iam direto para meus olhos, davam coceira e ardência.
Para quem não sabe, vou explicar: lacerdinha é o apelido de um inseto (o tripes do gênero Gynaikothrips ficorum) que tinha, entre suas preferidas, as árvores de Ficus Benjamim. Lá pelos anos 70, elas infestavam várias ruas de Fortaleza. E uma das características das lacerdinhas era a atração pelas roupas claras, principalmente as amarelas.
Ao me deparar com essas lembranças, percebi que estes insetos e suas infestações atualmente são praticamente desconhecidos. Soube que a redução das lacerdinhas em Fortaleza se deve por existirem bem menos pés de Ficus do que há algumas décadas. E que somente há casos isolados do inseto no litoral de São Paulo.
Há muitos anos que o branco e o vermelho são minhas cores preferidas. Mas, o amarelo tem lugar especial. No cenário desta cor, que me infestava os olhos de lacerdinha, desfila minha memória de menina a desbravar a cidade. E, se antes era o inseto que enchia meus olhos de lágrimas, hoje o que me faz marejar é a saudade de não mais poder passear com meus pais.
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora