“Selic a 13,75%: um alívio necessário, mas ainda insuficiente” – Por Fabiano Mapurunga

Fabiano Mapurunga é Mestre em Administração de Empresas com ênfase em Finanças

“A Selic continua em patamar bastante elevado, restringindo o consumo, encarecendo o crédito e aumentando o custo de capital das empresas”, aponta o administrador de empresas Fabiano Mapurunga

Confira:

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, totalizando uma redução de 1,25 ponto percentual desde o início do atual ciclo de flexibilização monetária.

A decisão era esperada, mas não deve ser interpretada como uma mudança radical nas condições financeiras do país. A Selic continua em patamar bastante elevado, restringindo o consumo, encarecendo o crédito e aumentando o custo de capital das empresas.

O corte foi favorecido pela desaceleração recente da inflação. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto e acumulou alta de 4,22% em 12 meses. Embora o índice tenha ficado abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, a inflação ainda permanece acima da meta central de 3%.

Além disso, parte da redução dos preços teve origem em fatores temporários, como o alívio na conta de energia elétrica. A inflação de serviços continua resistente, o mercado de trabalho permanece aquecido e as expectativas inflacionárias ainda não estão plenamente ancoradas.

Por essa razão, o comunicado do Copom manteve um tom de prudência. O Banco Central não assumiu compromisso com novos cortes e informou que a extensão do ciclo dependerá dos próximos dados econômicos. Para a autoridade monetária, os riscos relacionados à inflação continuam elevados, sobretudo diante das incertezas fiscais, eleitorais e internacionais.

A política fiscal permanece como uma variável decisiva. Quando o governo aumenta despesas sem apresentar fontes permanentes de financiamento ou uma trajetória confiável para a dívida pública, o mercado exige juros maiores para financiar o Estado. Nesse ambiente, a política monetária precisa permanecer restritiva por mais tempo.

Também há riscos externos. A elevação dos juros nos Estados Unidos, as tensões no Oriente Médio e a volatilidade dos preços do petróleo podem pressionar o câmbio e, consequentemente, a inflação brasileira.

Para as empresas, a redução da Selic representa um pequeno sinal positivo, mas ainda não produz uma queda expressiva no custo do crédito. Capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamentos de longo prazo e renegociações de dívidas continuam caros. Setores dependentes de financiamento, como construção civil, indústria, comércio e mercado imobiliário, permanecem particularmente expostos.

No Ceará, onde pequenas e médias empresas possuem grande participação na geração de emprego e renda, juros elevados limitam investimentos, expansão de capacidade e formação de estoques. Muitos projetos economicamente viáveis acabam adiados porque o retorno esperado não compensa o custo financeiro.

Nesse cenário, empresários e executivos não devem construir seus planejamentos contando com uma queda rápida dos juros. É necessário trabalhar com diferentes cenários, revisar estruturas de endividamento, preservar liquidez, melhorar a gestão do capital de giro e avaliar com rigor os novos investimentos.

A redução para 13,75% é uma decisão correta diante da desaceleração da atividade econômica, mas o Brasil ainda está distante de uma taxa de juros compatível com um crescimento mais vigoroso. Cortar juros de forma sustentável exige inflação controlada, responsabilidade fiscal e credibilidade institucional.

O movimento do Copom representa um passo na direção certa. Entretanto, mais importante do que discutir apenas o tamanho do próximo corte é criar as condições econômicas para que os juros possam cair sem provocar nova pressão inflacionária.

O país precisa compreender que juros mais baixos não são determinados apenas pela vontade do Banco Central. São consequência de equilíbrio fiscal, confiança, produtividade e segurança para investir. Sem esses fundamentos, qualquer alívio poderá ser limitado e temporário.

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