Sindjorce divulga nota contra instrumentalização político-eleitoral do jornalismo

Jornalista deve ser preservado em nome da cidadania.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) divulgou nota pública alertando contra a instrumentalização do jornalismo, por proprietários de meios de comunicação, neste período eleitoral.

Confira:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), entidade de representação e defesa da categoria, vem a público denunciar a instrumentalização de veículos de comunicação e do trabalho jornalístico para atender a interesses político-eleitorais de seus proprietários e dos grupos econômicos aos quais estão vinculados. Esse problema se agrava no curso do processo eleitoral brasileiro e exige reação dos jornalistas, da sociedade e das instituições democráticas.

O Sindjorce não faz esta manifestação em defesa de uma candidatura, de um partido ou de um campo político. Faz em defesa do jornalismo, do direito social à informação e dos profissionais que diariamente trabalham para assegurá-lo.

Esta nota não desqualifica denúncias nem questiona o dever da imprensa de investigar possíveis irregularidades envolvendo governos, agentes públicos ou interesses privados. Denúncias devem ser examinadas pela consistência das evidências e pelo rigor da apuração, independentemente da orientação política do veículo que as divulga. A existência de interesses empresariais ou eleitorais não basta para invalidar fatos apurados, mas tampouco justifica sua distorção ou a omissão de informações necessárias à compreensão dos acontecimentos.

Empresas de comunicação possuem proprietários, interesses econômicos e orientações políticas. Essas relações fazem parte da história da imprensa brasileira e precisam ser consideradas na discussão sobre a independência jornalística.

O problema não está na existência de uma posição editorial, que deve ser explicitada nos espaços destinados à opinião, mas na subordinação da apuração e da divulgação dos fatos às conveniências políticas e econômicas da empresa.

Editorial é o lugar da posição do veículo. Informação jornalística não é extensão do editorial.

Quando a orientação política do proprietário passa a comandar a seleção dos fatos, o enquadramento das pautas, a escolha e o silenciamento de fontes, a titulação, a edição, a hierarquização dos acontecimentos ou a exposição reiterada de determinados personagens políticos, em prejuízo dos critérios jornalísticos, já não estamos discutindo simplesmente o direito de uma empresa ter uma posição editorial. Estamos discutindo a autonomia do jornalismo diante dos interesses de quem controla os meios de comunicação.

Essa autonomia é um fundamento ético da profissão. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que o direito à informação compreende informar, ser informado e ter acesso à informação. Determina que nenhum interesse pode impedir o acesso a informações de relevante interesse público e afirma que a informação precisa e correta constitui dever dos meios de comunicação, independentemente da linha política de seus proprietários ou diretores. A produção jornalística deve se pautar pela veracidade dos fatos e pelo interesse público.

É precisamente por isso que a liberdade de imprensa não pode ser reduzida à liberdade do dono da empresa de comunicação. Sua função social é assegurar as condições para o exercício do jornalismo e a circulação de informações, ideias, críticas e interpretações. Não pode ser apropriada como salvo-conduto empresarial para subordinar o trabalho jornalístico a conveniências eleitorais ou comerciais.

O Sindjorce considera especialmente preocupante que, em pleno processo eleitoral, espaços informativos sejam utilizados para favorecer ou prejudicar candidaturas por meio de distorções, omissões ou da seleção de fatos orientada por interesses eleitorais. A publicação de uma informação pode produzir consequências políticas sem que isso a transforme em propaganda. O que se questiona é a manipulação da cobertura para obter determinado resultado político, comprometendo o rigor da apuração e o direito do público à informação.

A mesma crítica se aplica quando relações políticas ou econômicas com o Governo do Estado, prefeituras, outros poderes ou anunciantes levam veículos a silenciar denúncias, reduzir sua repercussão ou deixar de apurar fatos de interesse público. Contratos publicitários e interesses comerciais não podem determinar o que a sociedade tem o direito de saber. A independência jornalística exige que o mesmo rigor de apuração seja aplicado a fatos que envolvam adversários, aliados ou financiadores dos proprietários dos veículos.

Esse compromisso vale para a imprensa escrita, os veículos digitais, o rádio e a televisão. Na radiodifusão, há ainda obrigações específicas decorrentes da outorga pública e de seu regime constitucional. A Constituição estabelece, entre os princípios da programação das emissoras, a preferência às finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Durante o processo eleitoral, as emissoras também estão sujeitas a vedações específicas: desde 6 de agosto do ano eleitoral, a legislação proíbe, na programação normal e no noticiário, a veiculação de propaganda política e o tratamento privilegiado a candidatura, partido, federação ou coligação.

Não se pode tratar uma concessão pública como extensão de um projeto político particular.

Também preocupa o Sindjorce a crescente ocupação de espaços apresentados como jornalísticos por uma sucessão quase ininterrupta de comentários e opiniões, frequentemente com reduzida produção de reportagem e apuração própria. Opinião é uma forma legítima de expressão jornalística quando claramente identificada e não dispensa o compromisso com a veracidade dos fatos que lhe servem de base. O problema surge quando sua apresentação impede o público de distinguir informação apurada, interpretação, posicionamento editorial e propaganda.

A subordinação do jornalismo a esses interesses produz consequências para a sociedade e para os profissionais. No plano social, contribui para a deterioração da confiança pública no jornalismo justamente quando há circulação massiva de conteúdos falsos, manipulados ou produzidos para aparentar jornalismo sem observar seus procedimentos profissionais.

Quando empresas historicamente reconhecidas como jornalísticas abandonam esses procedimentos em favor de interesses políticos ou comerciais, elas não prejudicam somente sua própria credibilidade. Comprometem também a confiança no trabalho de toda uma categoria.

Dentro das redações, essa subordinação pode se traduzir em pressões, censura e constrangimentos aos trabalhadores. É sobre essas situações que o Sindjorce precisa falar diretamente aos jornalistas.

Aos jornalistas: o compromisso profissional não é com o projeto político do patrão
Independentemente do valor de sua remuneração, o jornalista empregado é trabalhador.

Pode ocupar uma bancada de televisão, assinar uma coluna, apresentar um programa de rádio, trabalhar em uma grande redação ou exercer função de elevada responsabilidade editorial. Nada disso altera sua posição fundamental na relação de trabalho: vende sua força de trabalho em troca de salário.

Os proprietários dos grandes meios de comunicação integram uma parcela economicamente privilegiada da sociedade. O jornalista empregado, ainda que tenha visibilidade pública ou remuneração elevada, não se confunde com quem detém a propriedade da empresa. Integra a classe que vive do trabalho e depende da proteção dos direitos sociais e trabalhistas e das garantias coletivamente conquistadas.

É preciso que cada jornalista tenha consciência dessa diferença quando lhe for exigido subordinar seus deveres profissionais aos interesses políticos ou econômicos do empregador.

O interesse do proprietário da empresa não é automaticamente o interesse do jornalista. E nenhum dos dois pode ser confundido com o interesse público.

A empresa compra a força de trabalho do profissional. Não compra sua consciência. Não compra seus direitos políticos. Não compra sua responsabilidade ética diante da sociedade.

Por isso, esta nota é também um chamado à consciência profissional e à organização coletiva.

Não naturalize a pressão para alterar ou deixar de publicar uma informação porque ela desagrada ao proprietário, a um governante, a um aliado político ou a um anunciante. Tampouco aceite como rotina profissional ordens para promover ou atacar candidaturas, bloquear a apuração de denúncias ou distorcer fatos e selecionar fontes segundo conveniências eleitorais ou comerciais. Não aceite como simples “linha editorial” aquilo que representa interferência político-patronal na produção da informação.

O próprio Código de Ética estabelece que a obstrução à livre divulgação da informação, a censura e a indução à autocensura constituem violações contra a sociedade e devem ser denunciadas, com garantia do sigilo do denunciante.

Em 2026, a regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral também proíbe a propaganda eleitoral e o assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos ou privados, prevendo a responsabilização de quem provocar ou permitir essas práticas.

A hierarquia da empresa não legitima a imposição de interesses eleitorais aos trabalhadores.

Redação também é ambiente de trabalho. Jornalista também é trabalhador.

É justamente porque conhece a desigualdade existente nessa relação que o Sindicato não transfere ao profissional a obrigação de enfrentar, sozinho, estruturas empresariais das quais depende para sobreviver.

A responsabilidade é coletiva e é para isso que existe sindicato.

À sociedade e às instituições
O Sindjorce dirige esta manifestação também à sociedade cearense, porque não existe democracia substantiva sem acesso à informação jornalística produzida com independência profissional.

Ao Ministério Público do Trabalho, solicita atenção a possíveis situações de assédio político e outras violações nas relações de trabalho.

Ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral, pede que acompanhem, no âmbito de suas competências, eventuais situações de utilização irregular dos meios de comunicação, propaganda eleitoral ilícita, tratamento privilegiado nas hipóteses legalmente vedadas e assédio eleitoral.

Aos órgãos responsáveis pela fiscalização da radiodifusão, requer o exercício de suas atribuições sobre os serviços que operam mediante outorga pública.

Às empresas de comunicação, reafirma: propriedade empresarial não significa propriedade sobre o jornalismo, sobre a consciência dos jornalistas ou sobre o direito da sociedade à informação.

O Sindjorce não aceitará que o trabalho dos jornalistas cearenses seja utilizado para satisfazer projetos eleitorais patronais ou proteger interesses de governos, aliados e anunciantes em prejuízo do interesse público. Não aceitará que a censura interna seja apresentada como orientação editorial, o assédio político como exercício da hierarquia ou a propaganda como informação jornalística. Também se oporá a pressões que obriguem profissionais a escolher entre o respeito à ética e a preservação de seus empregos.

Aos profissionais que estejam enfrentando situações dessa natureza, o Sindicato assegura acolhimento e orientação, com preservação da identidade e tratamento responsável das informações recebidas.

Denuncie ao Sindjorce:

sindjorce@sindjorce.org.br
secretaria@sindjorce.org.br
Celular/WhatsApp: (85) 98970-8634

Preservar documentos, mensagens, orientações editoriais, comunicações internas e outros registros relacionados aos fatos é importante para a adequada avaliação sindical e jurídica de cada situação.

O Sindjorce continuará exercendo sua responsabilidade histórica de defender os jornalistas e o jornalismo no Ceará, enfrentando as práticas que comprometem a autonomia profissional e a confiança pública no trabalho da categoria.

Porque defender o jornalista é defender o jornalismo. E defender o jornalismo é defender o direito da sociedade à informação.

*Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce)

Fortaleza, 18 de setembro de 2026.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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