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“Se eu falasse a verdade” – Por Francisco J. Caminha

Francisco J. Caminha foi deputado estadual. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Se eu falasse a verdade”, eis mais um texto de Francisco J. Caminha, advogado e ex-deputado estadual.

Confira:

Se eu falasse sempre a verdade, provavelmente já teria sido excomungado da família, expulso de alguns grupos de amigos e, dependendo do emprego, encaminhado educadamente ao setor de Recursos Humanos.

A verdade tem esse defeito: costuma chegar sem maquiagem.

A mentira, não. A mentira é educada. Bate à porta, pede licença, elogia o cabelo da dona da casa e, antes de ir embora, ainda diz que ela parece dez anos mais nova.

A verdade é cruel aos ouvidos. A mentira é benevolente.

Falar a verdade é correr riscos.

Cristo descobriu isso há mais de dois mil anos. Entre outras coisas, ousou dizer verdades inconvenientes às pessoas convenientes. O resultado todos conhecemos.

A verdade separa. A mentira, curiosamente, une.

Talvez, por isso, tenhamos desenvolvido uma sofisticada arte social de administrar verdades. Não mentimos propriamente. Apenas selecionamos cuidadosamente aquilo que deve ser dito, quando deve ser dito e, principalmente, aquilo que jamais deve ser dito.

Criamos a chamada *verdade conveniente*.

Porque determinadas verdades fabricam inimigos, despertam ressentimentos e, em casos mais graves, produzem aquela estranha vontade humana de vingança.

A mentira, ao contrário, pode ser protetora.

— Você está ótima.

— Claro que lembro de você.

— O importante é competir.

— O problema não é você, sou eu.

Pequenas mentiras mantêm famílias, casamentos, amizades e confraternizações de fim de ano funcionando razoavelmente bem.

Agora imagine se, de repente, todo mundo resolvesse falar a verdade.

Já imaginou determinados banqueiros contando tudo o que sabem sobre determinados negócios?

Ou dirigentes religiosos verdades, sem parábolas, sobre as relações entre fé, dinheiro, sexo e poder?

Mais perigoso ainda: imagine alguém chegando em casa e dizendo à esposa, ao marido, à noiva ou ao namorado absolutamente tudo o que pensou durante o dia.

Talvez a sinceridade absoluta acabasse com mais casamentos do que só a infidelidade.

Imagine políticos, juízes, empresários, empregados, patrões e candidatos praticando a verdade integral.

Um candidato subiria ao palanque e diria:

— Meus amigos, a maioria dessas promessas eu sei perfeitamente que não vou cumprir. Mas preciso dizê-las porque vocês gostam de ouvi-las e eu preciso dos votos de vocês. É só vou cumprir aquelas que for conveniente para mim e tiver condições e excutá-las.

Provavelmente seria o discurso político mais sincero da história.

E talvez o último.

Nesta eleição de 2026, procurei uma velha amiga, liderança comunitária, dessas mulheres que conhecem pelo nome cada família, cada viela e cada problema de sua comunidade. Queria saber se ela poderia ajudar um amigo na campanha para deputado.

A resposta veio sem pesquisa qualitativa, marqueteiro ou PowerPoint:

— Amigo, antigamente os políticos procuravam a gente que líder comunitária para ajudar nas campanhas. Hoje a gente não tem mais valor. Aqui na comunidade, foram procurar foi o chefe da facção. E ele deu X mil reais.

Perguntei quem havia feito aquilo.

Ela citou um político com mandato conhecido por defender pautas cristãs, filiado e candidato da direita no espectro político.

Fiquei pensando.

Talvez, nas campanhas eleitorais, esquerda e direita continuem discutindo apaixonadamente sobre ideologia, costumes, economia e os destinos da humanidade.

Mas, quando chega a hora de procurar voto nos territórios, o pragmatismo vence e a ideologia tira férias na ilha de Bali, na Indonésia.

O discurso muda.

Os métodos não, na maioria. .

Foi quando me lembrei de uma autoridade sem diploma em ciência política que conheço: um flanelinha.

Aliás, flanelinha é uma profissão injustamente definida. Ele não guarda propriamente o automóvel.

Ele guarda psicologicamente o automóvel.

Você estaciona um carro de duzentos mil reais numa rua pública, entrega cinco reais a um desconhecido e passa duas horas absolutamente convencido de que seu patrimônio está protegido por um sistema privado de segurança.

Certa vez, perguntei a um deles:

— E aí, quem você acha que ganha essa eleição?

Ele respondeu:

— Seu Caminha, aqui só ganha quem tiver trabalho, dinheiro e mentir melhor que o outro.

Aquilo ficou comigo.

Anos de livros, campanhas, mandatos, discursos, pesquisas eleitorais e análises políticas resumidos por um homem sentado num banco de rua, segurando uma flanela.

Mas há uma verdade incômoda escondida naquela frase: a política gosta muito da verdade, desde que ela seja cuidadosamente preparada, testada em pesquisa, aprovada pelo marketing e não custe votos.

A verdade nua, essa é inconveniente.

Ela não possui jingle.

Não tem marqueteiro.

Não distribui santinho.

Não cabe bem em vídeo de trinta segundos.

E quase nunca viraliza.

Por isso costumamos dizer que a política não acolhe quem fala a verdade.

Não é exatamente assim.

A política acolhe a verdade, sim.

Só prefere que ela chegue depois da eleição.

*Francisco J. Caminha

Advogado e ex-deputado estadual.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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