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“Sobre abelhas, botos e matintas”

Cynthia Rabelo é pedagoga, com especialização em contação de histórias

Com o título “Sobre abelhas, brotos e matintas”, eis o artigo da pedagoga e contista Cynthia Rabelo, que fala sobre personagens do folclore, mas alerta para o respeito às culturas. Confira:

Em 2021, a convite da Rede Meli, fui para o Nordeste Paraense, região do Baixo Tocantins. Fiquei entre as cidades de Baião e Mocajuba, uma região muito bonita.

Quando de folga em Mocajuba, fomos conhecer o Mercado Municipal. Gosto muito de mercados pois é onde conhecemos as frutas, verduras, os “costumes” alimentares e artesanais dos lugares e isso me encanta. Sendo que nesse mercado, à margem do Rio Tocantins, vi os feirantes jogando na água, os “restos” de peixes que limpavam para seus fregueses. Não é difícil imaginar que sempre têm animais em busca de comida fácil, naquela beira de rio.

E tive a feliz surpresa de saber que ali é bem comum aparecerem botos, que de tanto contato com os locais são bem mansos, permitindo serem tocados e até aceitam companhia para nadar. Um verdadeiro deleite para meus olhos. Depois de observar bastante, ousei me aproximar e nadei lado a lado com eles, experiência maravilhosa!

Não bastasse isso, me foi contada uma história: certa jovem da região, havia sido enamorada por um boto em noite de festa. Coincidência ou não, só sei que no dia que estive a nadar com os botos, uma criança que segurava a mão de uma jovem mulher, ao ver os botos, simplesmente se solta da mãe e se joga na água e nadou, fazendo os mesmos movimentos que os animais faziam. A mulher ficou espantada e começou chamar a criança, que não lhe dava a menor atenção. Foi preciso que outras pessoas acalmassem a mulher e coube a mim, convencer o garotinho de que ele precisava voltar para sua mãe.

De tanto ouvir histórias de encantarias, tendo o boto como sedutor, me pergunto; seria aquele menino, filho do boto?

Por falar em encantarias, uma outra história interessante foi compartilhada comigo por uma jovem conhecida, que chamarei aqui de Joelma. Ela me contou que ao fazer uma viagem de barco, de Mocajuba a Cametá, resolveu, como muitos, dormir no barco pois este sairia na primeira hora do dia seguinte. Quem conhece a região, sabe que é em rede onde dormem a maioria dos viajantes desses barcos. Por volta de 23h30, sobe no barco uma senhora bastante idosa, muito magra, cabelos longos e grisalhos, presos por um pente de coque no alto da cabeça. A tal senhora resolveu armar sua rede um pouco à frente da rede de Joelma, que ficou observando como uma senhorinha encurvada ataria sua “fianga”. Joelma não poderia ajudá-la, pois trazia seu filho no colo. Mesmo com dificuldade, a idosa armou a rede e sentou-se nela como quem monta a cavalo.

Quando o relógio avisou que era meia noite, começou uma verdadeira transformação no corpo da idosa. Ela tirou as sandálias e seus pés começaram a entortar, “pisando” praticamente com o peito dos pés, a velha solta os cabelos e os joga para frente, deixando em evidência uma corcunda e encobrindo o rosto, os dedos finos e longos de suas mãos enrugadas, ficam todos retorcidos. Nessa hora, Joelma sentiu um sono incontrolável, não conseguindo se manter acordada. Adormeceu e ao acordar, com o dia clareando, a senhora já não estava mais no barco. Seria a velhinha uma Matinta Perera?

Para muita gente essas histórias não passam de lendas e seus personagens apenas mitos ou meras bobagens de gente ignorante. Vivemos em um mundo em que o respeito aos seres encantados está cada vez mais raro. Assim como o respeito à natureza e aos modos de vida dos indígenas, caboclos, ribeirinhos… Ouso dizer que, sob o capitalismo neoliberal, a maioria de nós perdeu o respeito pelos seres vivos, inclusive, pelos outros humanos. Hoje, principalmente nas grandes cidades, está se cristalizando o conceito de pessoas “matáveis”. A “civilização”, que só almeja o lucro, está destruindo o planeta. Precisamos refletir e lutar por “um mundo onde caibam vários mundos”. Mundos com florestas, rios, indígenas, botos, abelhas, ribeirinhos… E encantarias.

Cynthia Rabelo é pedagoga, com especialização em contação de histórias. Atualmente mora em São Luis do Maranhão
Contatos: Instagran @rabelocynthia / Facebook Cynthia Rabelo

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11 respostas

  1. Maravilhoso estilo! Maravilhoso tema. Afinal, encanto e encantamento parecem se distanciar de uma realidade cada vez mais árida como a nossa!

  2. Cynthia Rabelo, exemplar escritora , contista e tudo que existe de belo e extraordinário nessa vida. Parabéns 🫂❤❤

  3. Eu tenho sorte de ter uma prima tão inspiradora. Meu coração é cheio de orgulho dela! 🥰❤

  4. Amei e posso dizer que estava junto nessa viagem , foi surreal essa experiência .

  5. Nadando com botos, é mana? Eu sabia que a senhora era encantada! Que belo texto, Cynthia! Você descreve a paisagem com o domínio de uma ribeirinha mocajubense.. Parabéns!!!

  6. Eu amei… adoro as encantarias! Parabéns pelo texto.

  7. Hummm…que jeito bonito de falar de (dês)encantarias…
    E que foto tuuuudooo! Quem fotografou?

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