Com o título “Super El Niño: municípios cearenses precisam agir agora com planejamento geográfico qualificado”, eis artigo de Cândido Henrique de Aguiar Bezerra, geógrafo e vice-presidente da Associação dos Profissionais em Geografia do Estado do Ceará (APROGEO-CE).
Confira:
O avanço das mudanças climáticas deixou de ser uma projeção distante para se tornar uma realidade cada vez mais presente no cotidiano das cidades brasileiras. Em 2026, esse cenário pode se intensificar com a possível formação de um evento climático de grande magnitude: o chamado Super El Niño. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia – INMET e da National Oceanic and Atmospheric Administration – NOAA, agência governamental norte-americana que monitora os dados científicos relacionados aos oceanos e a atmosfera, alertam que esse fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico, tem potencial para provocar uma reorganização significativa dos padrões climáticos globais, ampliando a frequência e a intensidade de eventos extremos.
No Brasil, os impactos do El Niño já são conhecidos, mas vêm se tornando progressivamente mais severos. No Nordeste, especialmente, o fenômeno costuma estar associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas. No entanto, a nova dinâmica climática não se limita mais à seca. O que se observa é uma crescente irregularidade: períodos prolongados de estiagem intercalados com chuvas intensas e concentradas, capazes de provocar enxurradas, alagamentos e outros transtornos urbanos. Esse comportamento instável do clima exige uma mudança urgente na forma como os municípios se preparam e respondem a esses eventos.
No Ceará, essa necessidade é ainda mais evidente. Inserido em uma região semiárida, o estado já convive historicamente com limitações hídricas e alta variabilidade climática. Ao mesmo tempo, muitos municípios enfrentam desafios estruturais relacionados ao crescimento urbano desordenado, à ocupação de áreas ambientalmente frágeis e à limitada capacidade de planejamento territorial. Quando somados aos efeitos de um possível Super El Niño, esses fatores ampliam significativamente o grau de vulnerabilidade socioambiental.
É nesse contexto que a adaptação às mudanças climáticas deixa de ser uma agenda opcional e passa a ocupar o centro das políticas públicas. Mais do que reagir a desastres, é preciso antecipar riscos, compreender o território e planejar o uso dos recursos de forma estratégica. A construção de políticas municipais de adaptação climática surge, portanto, como um instrumento essencial para reduzir impactos, proteger populações vulneráveis e garantir a continuidade das atividades econômicas.
Essas políticas precisam ser estruturadas com base em conhecimento técnico consistente. Não se trata apenas de elaborar documentos formais, mas de desenvolver diagnósticos precisos e propostas viáveis, capazes de dialogar com a realidade de cada município. Isso envolve, por exemplo, o mapeamento detalhado de áreas de risco, a análise da dinâmica climática local, o planejamento do uso e ocupação do solo, a gestão integrada dos recursos hídricos e a implantação de sistemas de monitoramento e alerta.
Nesse ponto, o papel do geógrafo ganha destaque. Trata-se do profissional que possui formação específica para compreender a complexa relação entre sociedade e natureza, integrando aspectos físicos, ambientais, econômicos e
sociais do território. Em um cenário de mudanças climáticas, essa visão sistêmica é indispensável para transformar dados e informações em estratégias concretas de adaptação.
Entretanto, é fundamental que essa atuação ocorra dentro dos parâmetros legais e técnicos estabelecidos no Brasil. A presença de profissionais devidamente habilitados junto ao sistema CREA garante não apenas a qualificação técnica, mas também a responsabilidade formal sobre os estudos e projetos desenvolvidos. Isso assegura maior confiabilidade às políticas públicas, além de oferecer respaldo jurídico aos gestores municipais.
Os geógrafos com registro no CREA estão aptos a atuar em diversas frentes estratégicas para a adaptação climática. Entre elas, destacam-se o uso de geotecnologias para análise espacial, a elaboração de zoneamentos ecológico-econômicos, o desenvolvimento de estudos de vulnerabilidade e risco, além do planejamento territorial orientado para a sustentabilidade. Essa atuação técnica permite que os municípios deixem de agir de forma reativa e passem a adotar
uma postura preventiva e estruturada.
A ausência desse tipo de planejamento, por outro lado, tende a agravar os impactos dos eventos extremos. Sem uma leitura adequada do território, decisões sobre expansão urbana, infraestrutura e uso dos recursos naturais podem aumentar a exposição a riscos, gerar prejuízos econômicos e comprometer a qualidade de vida da população. Em um cenário de intensificação climática, erros de planejamento custam cada vez mais caro.
Por isso, o momento atual deve ser encarado como uma janela de oportunidade. O alerta sobre o possível Super El Niño em 2026 oferece aos municípios a chance de se antecipar, estruturando políticas e fortalecendo suas capacidades institucionais. Investir em planejamento técnico qualificado não é apenas uma medida preventiva, mas uma estratégia de desenvolvimento.
Municípios que incorporam a adaptação climática em sua agenda tendem a se tornar mais resilientes, capazes de enfrentar crises com menor impacto e maior capacidade de recuperação. Além disso, esse tipo de abordagem contribui para atrair investimentos, melhorar a gestão pública e promover um crescimento mais equilibrado e sustentável.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é se os efeitos climáticos irão ocorrer, mas sim como cada município irá enfrentá-los. O conhecimento técnico já está disponível, assim como os profissionais capacitados para aplicá-lo. Cabe agora aos gestores públicos reconhecerem a urgência do tema e transformarem essa preocupação em ação concreta.
O futuro climático do Ceará está sendo desenhado no presente. E a diferença entre vulnerabilidade e resiliência dependerá da capacidade de planejar o território com inteligência, responsabilidade e base técnica qualificada.
*Cândido Henrique de Aguiar Bezerra
Geógrafo e vice-presidente da Associação dos Profissionais em Geografia do Estado do Ceará (APROGEO-CE).