“Tempo não é dinheiro” – Por Plauto de Lima

Plauto de Lima é coronel RR da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

Com o título “Tempo não é dinheiro”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel da reserva da PMCe e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “Estamos cada vez mais ocupados em ganhar e vida…e cada vez menos disponíveis para vivê-la”, expõe o articulista.

Confira:

Esses dias, peguei-me observando as pessoas no trânsito de Fortaleza. Parecia que todos estavam atrasados para alguma coisa. A ansiedade em arrancar o carro no exato instante em que o sinal abria lembrava a largada de uma corrida de Fórmula 1. Mãos comprimindo o volante, corpos tensos, olhos inquietos, o pé esmagando o acelerador como se cada segundo perdido fosse uma tragédia irreparável.

Era como se todos gritassem silenciosamente: “Saia da frente. Eu não tenho tempo a perder.”

Olhando para outras épocas, percebo que cada tempo produz suas próprias enfermidades. Houve a era das bactérias, parcialmente vencida pelos antibióticos. Mais recentemente, atravessamos uma pandemia viral cujo encerramento jamais compreendemos completamente. Apenas nos disseram que havia acabado, e voltamos à rotina como quem retorna de uma guerra fingindo não carregar cicatrizes.

Mas alguma coisa permaneceu quebrada.

Talvez o maior dano não tenha sido pulmonar, econômico ou político. Talvez tenha sido interior.
Vivemos hoje uma epidemia silenciosa de exaustão emocional. Ansiedade, depressão, hiperatividade mental, burnout. A mente contemporânea parece incapaz de repousar. O silêncio incomoda. A pausa produz culpa. Descansar passou a soar quase como fracasso.

Isso ocorre porque nossa época não é marcada apenas pela repressão, mas pelo excesso. Excesso de estímulos, de cobrança, de exposição e de comparação. Somos pressionados o tempo inteiro a produzir, performar, aparecer, reagir, postar, vencer.

Não podemos perder tempo. Afinal, fomos ensinados de que tempo é dinheiro.

E talvez aí esteja uma das grandes tragédias modernas.

A lógica do desempenho transformou cada indivíduo em empresário de si mesmo. Carregamos o trabalho no bolso, na tela do celular, na ansiedade das notificações e na necessidade permanente de aprovação. Tornamo-nos simultaneamente prisioneiros e vigilantes de nós mesmos. Vítimas e algozes.

A sociedade antiga, marcada pela disciplina e pela proibição, produzia rebeldes e delinquentes. A sociedade atual, dominada pela cobrança de desempenho e pela obsessão do sucesso, produz cansados, ansiosos e deprimidos.

É uma guerra travada dentro da própria alma.

Talvez por isso exista tanta agressividade no trânsito. Talvez aquela expressão dura atrás do volante não seja raiva do outro, mas esgotamento de si mesmo.

E o mais inquietante é perceber que não há grande diferença entre quem está dentro dos carros e quem caminha pelas calçadas. Todos parecem seguir no mesmo ritmo febril. Rostos apressados. Olhares distantes. Pessoas incapazes de desperdiçar alguns minutos numa conversa sem utilidade prática.

A contemplação foi substituída pela agitação. O silêncio pela necessidade de estímulo. A presença pelo registro da presença. Vivemos para demonstrar, mesmo quando estamos emocionalmente falidos. Nesse processo, deixamos de buscar a boa vida para apenas sobreviver correndo.

Aqui vale recordar Aristóteles, quando advertia que dedicar a existência exclusivamente ao acúmulo material era uma deformação da própria vida humana. Segundo ele, passávamos a viver apenas em função da manutenção da vida biológica, e não da boa vida, da vida plena de sentido.

Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo conosco.

Estamos cada vez mais ocupados em ganhar e vida…e cada vez menos disponíveis para vivê-la.

*Plauto de Lima

Coronel da reserva da PMCe, mestre em Planejamento de Políticas Públicas e membro da Academia Cearense de Letras, Arte e Cultura Militar.

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias