Com o título “Tragédia das redes e o mundo real”, eis artigo de Valdélio Muniz, analista Judiciário (TRT7), mestre em Direito Privado (Uni7), professor de Direito Processual do Trabalho (Fadat) e membro do Grupo de Estudos em Direito do Trabalho (Grupe/UFC).
Confira:
A gente tenta seguir o sábio conselho (exemplo) de Ariano Suassuna e ser um realista esperançoso, mas, francamente, está difícil. Para o escritor paraibano, o otimista é um tolo e o pessimista é um chato, mas essa pós-modernidade nos empurra quase que irremediavelmente à chatice. Nestes dias, recebi pelo whatsapp a figura de uma pirâmide do conhecimento adaptada aos dias atuais, segundo a qual o topo, na hierarquia, não estava reservado ao pós-doutorado ou algo que o valha e, sim, acima de todos os níveis de ensino (formação), aos conteúdos (vídeos) vistos no tiktok. Sim, até parece cômico. Se não fosse trágico…
Em tempos de terraplanismo, difícil entender por que ainda há quem acredite e invista tempo e dinheiro em graduação, mestrado, doutorado, livros, jornais, cinema, teatro, artes plásticas. Será que não bastam as informações rigorosamente produzidas e difundidas com neutralidade ímpar por influencers e gênios do instagram e do tiktok? Sim, porque, em qualquer discussão com a multidão de pensadores contemporâneos que não se intimidam de opinar sobre tudo e sobre todos, o que vale é o que está na rede. São especialistas formados pela
Universidade do Facebook ou versados em Medicina por meio dos episódios de Grey´s Anatomy.
Tudo o mais é irrelevante!
Por mais que se tenha dedicado uma vida (ou parte expressiva dela) aos estudos e se tenha considerável experiência em torno de determinados temas, está quase impossível, por melhores e mais embasados (fundamentados) que sejam os argumentos, competir com as mensagens, em regra superficiais (para não dizer quase vazias), difundidas por experts (ou charlatães?) do youtube, do instagram, do tiktok ou do facebook. E ainda há quem pense (ou até diga): se você fosse realmente bom, era você quem estaria lá.
Portanto, pense bem antes de ousar contestar as subcelebridades do momento ou sequer relativizar suas mensagens. Talvez, numa autocrítica, o problema não esteja propriamente nos conteúdos (nossos e delas!). Não devemos nos sentir culpados por sabermos a adequação e o valor (peso) das palavras. O segredo pode ser o tipo de embalagem que melhor agrada ao público, cada vez mais desapegado àquilo que exige mais esforço mental. Para muitos, pensar dói.
Mas, fala sério!
(Re)Vivemos um antigo dilema entre o que é mais importante em matéria de comunicação: o que é verdadeiramente de interesse público e o que é de interesse do público. Bibliotecas e museus podem se considerar estruturas ameaçadas de extinção, ao menos se depender do amor que muitos seres humaninhos demonstram à literatura, à história e à cultura em geral. Para que gastar tempo lendo páginas e páginas, sejam impressas em papel (logo talvez não se saberá nem do que isso se trata, como muitos desconhecem o que era um orelhão ou um telefone fixo) ou em formato digital, se tudo que se precisa (na visão destes, claro) está a um clique no Google?
Vez ou outra, quando converso com alguém a respeito dos riscos (ameaças) e expectativas exageradas depositadas na Inteligência Artificial (IA), há sempre quem faça a ressalva de que a IA fornecerá resposta, mas caberá ao humano-usuário avaliá-la para legitimar (validar) ou não. Mas, meu pessimismo insiste em duvidar: como alguém que não lê (por mera preguiça ou desconhecimento do prazer que este hábito é capaz de proporcionar) terá repertório para rejeitar qualquer resposta que receber? Ou, pior, como saberá ao menos formular as perguntas certas?
Como confiar às mãos de terceiros a nossa saúde, a defesa dos nossos direitos, a gestão dos nossos recursos ou a construção das obras de que necessitarmos sabendo que estes, por sua vez, já se confiam de que poderão, por comodidade, delegar às máquinas a apresentação da
solução pretensamente mais adequada?
Insisto, não se trata de mera resistência jurássica ao “novo” que nos vem trazido pelos avanços tecnológicos. Que seria de nós, em vários campos, se não fossem as descobertas científicas, especialmente na saúde, entre tantos setores? O problema, sempre digo, não está nas
invenções e nos dispositivos que se multiplicam em velocidade nunca antes vista, mas no uso que se dá a elas (por vezes, em dissonância com a promessa que as acompanha). O medo, que espero seja passageiro, é da inversão indevida: em vez de termos as máquinas a nosso serviço (melhor dos mundos), nos tornemos reféns delas (pior dos mundos).
E, sim, este desabafo nada tem a ver com tentar “farmar aura”! É só um desabafo mesmo!
E, se você conseguiu lê-lo até o fim, parabéns! Você ainda faz parte de um universo restrito para o qual a leitura não é dolorosa! Que assim perdure! E, concordando ou discordando, escreva também e compartilhe seu ponto de vista. Antes que desaprendamos todos!
*Valdélio Muniz
Analista Judiciário (TRT7), mestre em Direito Privado (Uni7), professor de Direito Processual do Trabalho (Fadat) e membro do Grupo de Estudos em Direito do Trabalho (Grupe/UFC).