“Três séculos de história chinesa: da submissão às potências estrangeiras ao retorno como potência mundial” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvalho é professor, advogado e mestre em Negócios Internacionais. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “Três séculos de história chinesa: da submissão às potências estrangeiras ao retorno como potência mundial”, eis artigo de Vanilo de Carvlaho,Especialista em Direito Constitucional e mestre em Negócios Internacionais. 

Confira:

A história da China nos últimos três séculos pode ser compreendida como uma extraordinária trajetória de queda, humilhação, revolução, reconstrução e ressurgimento. Poucos países experimentaram uma transformação tão profunda. Uma civilização milenar, que durante séculos se considerou o centro de uma ordem política e cultural própria, viu-se submetida, a partir do século XIX, à pressão militar, econômica e política das potências ocidentais e do Japão. Perdeu territórios, soberania, privilégios comerciais e parte significativa de sua autonomia. Viveu
guerras civis, invasões, revoluções e uma ocupação estrangeira devastadora.

Entretanto, a China não desapareceu. Ao contrário: preservou sua identidade civilizacional, reorganizou suas estruturas políticas e econômicas e, sobretudo a partir do final do século XX, iniciou um processo de transformação que a conduziu novamente ao centro da política mundial.

Hoje, a República Popular da China constitui uma das maiores economias do planeta, possui enorme capacidade industrial, tecnológica, científica, financeira e militar e exerce influência crescente sobre o comércio internacional, a infraestrutura, a diplomacia e as relações geopolíticas. O país que no século XIX era tratado pelas potências estrangeiras como território a ser explorado tornou-se, no século XXI, um
dos principais protagonistas da ordem internacional.

I — A China antes da grande crise

No início do século XVIII, a China ainda era governada pela dinastia Qing, estabelecida pelos manchus em 1644. O Império Qing alcançaria enorme extensão territorial e administraria uma das maiores populações do mundo.

Durante boa parte desse período, a China possuía uma economia dinâmica, grandes cidades, sofisticada produção artesanal, agricultura desenvolvida e uma burocracia estatal altamente estruturada. A civilização chinesa possuía uma longa tradição filosófica, administrativa e científica, fortemente marcada pelo confucionismo.

A China não se percebia simplesmente como mais um Estado entre outros. Sua visão tradicional das relações internacionais era fortemente hierarquizada e estava associada à ideia de que o imperador ocupava posição central na ordem política e civilizacional da Ásia.

Essa estrutura começou a ser profundamente questionada quando as potências europeias, impulsionadas pela Revolução Industrial e pela expansão do capitalismo comercial e financeiro, passaram a exigir acesso cada vez maior ao mercado chinês.

A Grã-Bretanha encontrou no comércio de ópio uma maneira de compensar seu déficit comercial com a China. O governo chinês tentou combater a disseminação da droga e apreendeu grandes carregamentos de ópio em Cantão. A resposta britânica foi militar.

Começava, em 1839, a Primeira Guerra do Ópio.

A derrota chinesa revelou uma realidade até então inimaginável para o Império: sua estrutura militar e tecnológica era incapaz de enfrentar adequadamente uma potência industrial europeia.

O Tratado de Nanquim, de 1842, obrigou a China a fazer concessões significativas. Hong Kong foi cedida aos britânicos e diversos portos foram abertos aocomércio estrangeiro.

A derrota não foi apenas militar. Representou uma ruptura psicológica e civilizacional.

Outras potências perceberam a vulnerabilidade chinesa e passaram a exigir concessões. França, Rússia, Estados Unidos, Alemanha e posteriormente Japão ampliaram sua presença e seus privilégios.

A China entrou naquilo que sua historiografia denomina “Século da Humilhação”, período que, em sentido amplo, vai das Guerras do Ópio até a consolidação da República Popular em 1949.

II — O século da humilhação

A Segunda Guerra do Ópio, entre 1856 e 1860, aprofundou a crise. Tropas estrangeiras chegaram a Pequim e o Palácio de Verão foi saqueado e destruído. Ao mesmo tempo, a China enfrentava enormes conflitos internos. A Rebelião Taiping, uma das guerras civis mais sangrentas da história, devastou extensas regiões e provocou dezenas de milhões de mortes.

A fragilidade do Estado Qing tornou-se evidente.

No final do século XIX, outra potência surgiria para desafiar a China: o Japão. Depois da Restauração Meiji, iniciada em 1868, o Japão promoveu rápida modernização militar, industrial e administrativa. O antigo império asiático que havia sido influenciado culturalmente pela China transformou-se em uma potência imperial moderna.

A Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895 representou uma enorme humilhação para os chineses. A China foi derrotada e perdeu Taiwan, além de reconhecer a independência da Coreia e fazer outras concessões.

A situação se agravaria nas primeiras décadas do século XX.

Em 1900, a Rebelião dos Boxers provocou uma intervenção militar internacional. Uma força composta por oito potências estrangeiras entrou em Pequim. A dinastia Qing encontrava-se cada vez mais enfraquecida.

Em 1911, a Revolução Xinhai derrubou a monarquia e estabeleceu a República da China. Sun Yat-sen tornou-se uma das grandes figuras políticas do novo período. Mas a queda do império não trouxe estabilidade.

A China mergulhou em décadas de fragmentação política, conflitos entre senhores da guerra, disputas entre nacionalistas e comunistas e crescente ameaça japonesa.

Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria e criou o Estado-fantoche de Manchukuo. A partir de 1937, a guerra sino-japonesa assumiu proporções ainda maiores. A ocupação japonesa foi marcada por massacres, violência contra civis e destruição em larga escala. O Massacre de Nanquim tornou-se um dos símbolos mais traumáticos desse período.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945 com a derrota japonesa. Entretanto, a China ainda enfrentaria uma guerra civil. Em 1949, Mao Zedong proclamou, em Pequim, a fundação da República Popular da China.

Começava uma nova etapa.

III — Revolução, isolamento e reconstrução

A China de 1949 era um país extremamente pobre, predominantemente rural e devastado por décadas de guerra. Mao promoveu uma transformação radical da sociedade. Foram realizadas reformas agrárias, nacionalizações e campanhas destinadas a modificar profundamente as estruturas econômicas e sociais.

Entretanto, o período maoísta também foi marcado por tragédias. O “Grande Salto Adiante”, lançado no final da década de 1950, provocou uma enorme crise econômica e uma das maiores fomes da história contemporânea.

Posteriormente, a Revolução Cultural, iniciada em 1966, produziu perseguições políticas, desorganização institucional e enorme turbulência social e cultural.

Ainda assim, a China preservou uma característica fundamental: a existência de um Estado centralizado capaz de projetar políticas de longo prazo. A grande transformação ocorreria depois da morte de Mao, em 1976.

IV — Deng Xiaoping e a abertura para o mundo

A ascensão de Deng Xiaoping marcou uma das maiores inflexões da história econômica contemporânea.

A partir de 1978, a China começou a abandonar diversos dogmas econômicos do período maoísta e iniciou reformas orientadas para a produção, o comércio e a atração de investimentos estrangeiros.

A fórmula chinesa não foi uma simples cópia do capitalismo ocidental. O Estado continuou exercendo enorme influência sobre setores estratégicos, enquanto mecanismos de mercado foram progressivamente incorporados à economia.

Foram criadas zonas econômicas especiais, inicialmente em regiões costeiras. Shenzhen, que era uma pequena localidade, tornou-se um dos maiores símbolos dessa transformação.

A estratégia era pragmática: abrir-se ao mundo, atrair tecnologia, aumentar a produtividade, desenvolver infraestrutura e elevar o padrão de vida da população.

Milhões de pessoas deixaram a pobreza.

A China passou a ser progressivamente integrada às cadeias produtivas internacionais. Empresas estrangeiras instalaram fábricas no país. A mão de obra chinesa, combinada com investimentos em infraestrutura e políticas industriais, transformou a

China na grande plataforma manufatureira do planeta.

Em 2001, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio consolidou sua integração à economia internacional.

A transformação foi extraordinária.

V — Da fábrica do mundo à potência tecnológica

Durante as primeiras décadas do século XXI, a China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo”.

Passou a investir maciçamente em educação, pesquisa, tecnologia, infraestrutura, inteligência artificial, telecomunicações, energia, veículos elétricos, baterias, semicondutores e exploração espacial.

Empresas chinesas passaram a competir em setores que antes eram dominados quase exclusivamente por empresas ocidentais.

A China também construiu uma das maiores redes ferroviárias de alta velocidade do planeta, desenvolveu grandes projetos de infraestrutura e ampliou sua presença econômica na Ásia, África, América Latina e Europa.

O país passou a utilizar sua capacidade financeira e industrial para projetar influência internacional.

A Iniciativa do Cinturão e Rota tornou-se um dos principais instrumentos dessa estratégia, promovendo investimentos em infraestrutura, portos, ferrovias, energia e logística em diversos países.

Ao mesmo tempo, Pequim passou a buscar maior protagonismo em instituições multilaterais e a defender uma ordem internacional menos dependente da hegemonia ocidental.

A ascensão chinesa naturalmente provocou reação.

Os Estados Unidos passaram a considerar a China seu principal concorrente estratégico. A disputa comercial, tecnológica e geopolítica entre Washington e Pequim tornou-se uma das características centrais do sistema internacional contemporâneo.

VI — A memória da humilhação como elemento de identidade nacional

Para compreender a China contemporânea é necessário compreender a importância da memória histórica.

A experiência das Guerras do Ópio, das concessões estrangeiras, da ocupação japonesa e da perda de soberania territorial permanece profundamente presente na narrativa nacional chinesa.

O chamado “Século da Humilhação” funciona como uma espécie de contraponto histórico ao projeto contemporâneo de rejuvenescimento nacional.

A mensagem é simples: a China jamais deverá voltar a ser uma nação vulnerável diante das grandes potências estrangeiras.

Isso ajuda a explicar a enorme importância atribuída à soberania, à integridade territorial, à capacidade militar, ao desenvolvimento tecnológico e à autonomia econômica.

A China contemporânea não pretende apenas ser rica. Pretende ser independente.

Essa diferença é fundamental.

O objetivo estratégico não é simplesmente aumentar o PIB, mas impedir que o país volte a depender de outras potências em áreas consideradas essenciais.

VII — O ressurgimento chinês

A história chinesa dos últimos três séculos pode, portanto, ser interpretada como um grande movimento de retorno.

A China que havia sido submetida à força militar estrangeira tornou-se potência militar.

A China que dependia da tecnologia ocidental tornou-se competidora tecnológica.

A China que era obrigada a abrir seus portos passou a possuir empresas e capitais espalhados pelo mundo.

A China que teve sua soberania territorial violada tornou-se uma potência capaz de influenciar profundamente a política internacional.

Não se trata, evidentemente, de afirmar que a China seja um país sem problemas. Permanecem desafios econômicos, demográficos, sociais, ambientais e políticos. A relação com Taiwan, as tensões no Mar do Sul da China e a competição estratégica com os Estados Unidos representam questões de enorme complexidade. Também seria equivocado transformar a ascensão chinesa em uma narrativa
exclusivamente triunfalista.

Mas é impossível compreender o século XXI sem reconhecer a dimensão histórica da transformação chinesa.

Em pouco mais de quatro décadas, centenas de milhões de pessoas foram retiradas da pobreza, o país tornou-se centro das cadeias globais de produção e a China passou a ocupar posição central no comércio, na indústria, na tecnologia e na geopolítica mundial.

Conclusão — De país humilhado a protagonista do século XXI

Talvez a melhor maneira de compreender a China contemporânea seja olhar para trás.

No século XIX, potências estrangeiras chegaram às suas costas com navios de guerra e obrigaram o Império Qing a aceitar tratados que não desejava.

No início do século XX, a China encontrava-se fragmentada, vulnerável e submetida à pressão de potências estrangeiras.

Em 1949, iniciou-se uma nova experiência revolucionária, marcada por enormes conquistas, mas também por erros dramáticos e tragédias humanas.

A partir de 1978, começou uma transformação econômica sem precedentes.

Hoje, a China não é mais objeto passivo da história mundial. É um de seus principais autores.

O ressurgimento chinês não representa apenas o crescimento de uma economia.

É o retorno de uma civilização que possui milhares de anos de continuidade histórica e que, depois de experimentar aproximadamente um século de intervenções, invasões e humilhações estrangeiras, recuperou a capacidade de determinar seu próprio destino.

A grande questão do século XXI talvez não seja mais se a China retornará ao centro do mundo.

Ela já retornou.

A questão que permanece é como esse novo poder será exercido e como o restante do mundo conviverá com uma China que deixou de aceitar uma posição periférica na ordem internacional.

O país que um dia foi obrigado a abrir suas portas pela força hoje disputa mercados, tecnologias, rotas comerciais, influência diplomática e liderança científica em praticamente todos os continentes.

É uma das mais impressionantes reviravoltas da história moderna: a nação que sofreu a humilhação das grandes potências transformou a memória de sua vulnerabilidade em combustível para construir poder, autonomia e protagonismo internacional.

*Vanilo de Carvalho

Especialista em Direito Constitucional e mestre em Negócios Internacionais.

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