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“Trump entrou na eleição brasileira. Até onde ele irá?” – Por Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista e escritor

“A seis semanas do primeiro turno, Washington aumenta a pressão sobre a eleição brasileira. O que acontecerá se Flávio Bolsonaro perder?”, aponta o jornalista Gustavo Tapioca

Confira:

Faltam seis semanas para o primeiro turno da eleição presidencial e o Brasil continua discutindo pesquisas, alianças, palanques, gafes, fofocas e estratégias de campanha como se estivesse diante de mais uma eleição normal.

Lula disputa a reeleição. Flávio Bolsonaro tenta levar novamente o bolsonarismo ao Palácio do Planalto. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 21 de agosto, mostrou Lula com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa simulação de segundo turno, 47% a 43%, diferença no limite da margem de erro. A disputa é real e está aberta.

Mas talvez os números não sejam, neste momento, a informação mais importante da eleição. Pela primeira vez desde a redemocratização, uma eleição presidencial brasileira transcorre com a maior potência militar do planeta transformada em variável explícita do processo político. Os Estados Unidos de Donald Trump já não são apenas espectadores interessados no resultado. Entraram no jogo.

Uma cena provoca espanto

Talvez nenhuma imagem simbolize melhor a excepcionalidade desta eleição do que o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, em Copacabana, no domingo, 16 de agosto. Em meio ao verde e amarelo dos bolsonaristas apareceram bandeiras dos Estados Unidos e símbolos associados ao movimento MAGA de Donald Trump.

Flávio transformou o pai no grande personagem ausente do comício. Reproduziu um áudio de Jair Bolsonaro e apresentou sua candidatura como continuidade do projeto político do ex-presidente. Uma bandeira americana numa manifestação brasileira não prova interferência estrangeira. Mas a imagem ganha outro significado quando colocada ao lado do que aconteceu nos últimos meses.

Flávio Bolsonaro foi recebido por Donald Trump na Casa Branca como candidato à Presidência. A família Bolsonaro construiu relações políticas com o trumpismo. Marco Rubio, secretário de Estado e um dos principais formuladores da política americana para a América Latina, passou a intervir publicamente nas controvérsias brasileiras. E o governo Trump adotou tarifas contra produtos brasileiros que entraram imediatamente no debate eleitoral.

A Reuters resumiu a mudança com precisão ao noticiar, em julho, que as tarifas impostas pela administração Trump haviam colocado Washington dentro da eleição presidencial brasileira. A pressão externa sobre o ambiente eleitoral deixou de ser uma abstração.

Sinais de pressão

Foi essa contradição que o Foro de Teresina, da revista Piauí, colocou no centro de seu programa divulgado nesta sexta-feira, 21.

Ao discutir o lançamento da campanha de Flávio, Celso Rocha de Barros chamou atenção para algo que deveria inquietar o país: enquanto aparecem sinais de pressão americana sobre a eleição, grande parte da cobertura política continua concentrada nas pesquisas, alianças, movimentações do Centrão e ocorrências cotidianas de uma campanha convencional.

O próprio Foro apresentou o primeiro bloco como uma discussão sobre os riscos da pressão e da interferência do governo Trump na eleição brasileira e o alinhamento de Flávio Bolsonaro aos interesses americanos. Será que estamos olhando para a eleição errada?

Naturalmente importam pesquisas, debates, programas, palanques e alianças. Mas existe uma questão anterior a todas essas: em que condições de soberania o eleitor brasileiro chegará às urnas?

Eleições “livres e justas”

Não é necessário recorrer a teorias conspiratórias. Os fatos estão à vista. Em julho, o governo brasileiro negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado que pretendiam vir ao país num momento de crescente tensão sobre o processo eleitoral.

Washington sustentou que a missão trataria de integridade eleitoral, liberdade de expressão e liberdade religiosa. Autoridades brasileiras interpretaram a iniciativa como interferência indevida. A “integridade” da eleição brasileira tornou-se assunto de controvérsia entre Brasília e Washington antes que um único voto tenha sido depositado nas urnas.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro voltou a questionar o sistema eleitoral. E autoridades americanas afirmaram que respeitarão eleições brasileiras “livres e justas”. A expressão pertence ao vocabulário tradicional da diplomacia. Em outro contexto, talvez passasse despercebida. Neste, não. Porque o Brasil conhece o mecanismo político de lançar dúvidas sobre uma eleição antes de ela acontecer.

Dois traumas de janeiro

Em 2020, Donald Trump começou a questionar antecipadamente a legitimidade da eleição presidencial americana. Perdeu. Recusou-se a aceitar a derrota. Em 6 de janeiro de 2021, seus seguidores invadiram o Capitólio enquanto o Congresso certificava a vitória de Joe Biden.

Dois anos e dois dias depois, o Brasil viveu seu próprio trauma. Jair Bolsonaro havia passado meses atacando a confiabilidade das urnas eletrônicas. Perdeu para Lula. Em 8 de janeiro de 2023, seus seguidores invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.

Não se trata de afirmar que a história obrigatoriamente se repetirá. Trata-se de reconhecer que ela aconteceu. Donald Trump voltou à Casa Branca. Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos pela tentativa de golpe e está preso. Seu filho disputa a Presidência apresentando-se como continuador do projeto político do pai. Por isso, duas perguntas não podem ser consideradas alarmistas apenas porque são incômodas. Se Flávio Bolsonaro perder, aceitará a derrota? E o que fará Donald Trump?

A pergunta chegou aos Estados Unidos

A preocupação não existe apenas no Brasil. Neste sábado, 22 de agosto, a deputada democrata americana Pramila Jayapal acusou Trump de tentar interferir na eleição brasileira e afirmou que os democratas atuarão para que o resultado seja respeitado.

Jayapal relacionou a política americana para o Brasil à chamada “Doutrina Donroe”, criticou tarifas e o apoio a candidatos específicos e lembrou o contraste com 2022, quando o governo Joe Biden reconheceu rapidamente o resultado da eleição brasileira.

Jayapal é parlamentar de oposição e sua manifestação não representa a posição oficial dos Estados Unidos. Mas revela algo importante: a possibilidade de interferência na eleição brasileira já se tornou objeto de disputa dentro dos próprios Estados Unidos.

Em 2022, o governo americano reconheceu rapidamente a vitória de Lula e deixou claro que não apoiaria uma ruptura institucional. Em 2026, a Casa Branca está ocupada pelo homem que tentou reverter sua própria derrota eleitoral. A equação se inverteu.

A diferença entre Trump e Rubio

Também seria um erro simplificar o quadro. Nesta sexta-feira, 21, Lula e Trump conversaram durante cerca de uma hora e vinte minutos. A conversa foi considerada cordial. Discutiram tarifas, comércio, crime organizado e abriram caminho para novas negociações. Trump perguntou sobre as eleições e Lula defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

O episódio mostra que a relação entre os dois governos é mais complexa do que uma guerra política linear. O Financial Times chamou atenção neste sábado para uma diferença importante: enquanto Marco Rubio mantém uma linha particularmente hostil ao governo Lula, Trump alterna confrontação e negociação direta com o presidente brasileiro.

Essa nuance precisa ser registrada. Não há, até agora, prova de que Trump tenha decidido desconhecer uma eventual vitória de Lula. Muito menos evidência pública de que os Estados Unidos tenham decidido apoiar uma ruptura institucional no Brasil. Afirmar isso como fato seria substituir investigação por profecia.

Mas ignorar os sinais existentes seria cometer o erro contrário.

O Brasil é diferente

A eleição brasileira integra uma reorganização política mais ampla das Américas. Trump recuperou explicitamente a ideia de primazia americana sobre o Hemisfério Ocidental. Rubio fez da América Latina o centro de sua atuação. Governos conservadores e de extrema direita avançaram pelo continente.

Mas o Brasil possui uma dimensão que nenhum outro país latino-americano reúne: maior economia da região, mais de 200 milhões de habitantes, território continental, alimentos, petróleo, minerais estratégicos, água e biodiversidade. Integra os BRICS e tem na China seu principal parceiro comercial — justamente o principal concorrente global dos Estados Unidos.

Por isso a eleição brasileira interessa a Washington para além de simpatias pessoais por Lula ou pelos Bolsonaro. Está em disputa também o lugar do Brasil na nova geopolítica das Américas.

E se fosse a China?

O Foro de Teresina propôs uma comparação provocadora. Imagine Pequim adotando medidas econômicas contra o Brasil durante uma campanha presidencial. Autoridades chinesas questionando aspectos do sistema eleitoral. Lula sendo recebido por Xi Jinping. E o lançamento de sua candidatura com apoiadores empunhando bandeiras chinesas.

Qual seria a reação brasileira? A comparação não equipara China e Estados Unidos nem prova, por analogia, uma operação americana. Revela outra coisa: até que ponto o Brasil se acostumou a considerar normal aquilo que provocaria escândalo imediato se viesse de outra potência?

Talvez por isso a excepcionalidade desta eleição ainda não tenha sido inteiramente percebida.

Não estamos numa eleição normal

Faltam seis semanas. Em 4 de outubro, mais de 150 milhões de brasileiros estarão aptos a escolher o próximo presidente da República. Talvez haja segundo turno. Talvez Lula seja reeleito. Talvez Flávio Bolsonaro vença. Isso será decidido pelo eleitor brasileiro. Ou deveria ser.

Porque a pergunta que começa a pairar sobre esta campanha já não é apenas: quem receberá mais votos? É também: o resultado será aceito por todos os atores que já entraram nesta eleição?

O Brasil carrega as cicatrizes do 8 de janeiro. Os Estados Unidos, as do 6 de janeiro. Agora Trump voltou à Casa Branca e um Bolsonaro voltou às urnas. Não sabemos o que acontecerá se Flávio perder. Não sabemos o que Washington fará se Lula vencer.

Mas sabemos algo que já deveria ter mudado a maneira como o país acompanha esta campanha: não estamos numa eleição normal.

E existe uma pergunta anterior ao que poderá acontecer depois da votação. Ela diz respeito ao que acontece antes do voto. Quando tarifas, sanções e outras formas de pressão econômica entram numa campanha presidencial, o eleitor escolhe apenas entre dois candidatos ou começa também a calcular o preço que seu país poderá pagar pela escolha?

Esta é a próxima questão. Porque talvez a forma mais eficiente de interferir numa eleição não seja alterar um voto depois que ele foi depositado.

Talvez seja aumentar o preço de uma das escolhas antes que o eleitor aperte a tecla confirma.

Gustavo Tapioca
Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de “Meninos do Rio Vermelho”, publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado, e “Entre o golpe e a eleição”

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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