“Um Ode ao azedo” – Por Mirelle Costa

Enquanto escrevo esta crônica, o Paraguai elimina a Alemanha da Copa do Mundo.

A televisão mostra uma menininha paraguaia. Ela sorri, chora, ri de novo. Talvez nem ela saiba exatamente o que sente. Algumas emoções não cabem em palavras.

A Copa do Mundo importa, não apenas pelo futebol, mas porque, durante algumas semanas, o impossível ganha permissão para acontecer. Quem não abriu um sorriso ao ver Cabo Verde atrair a atenção do mundo inteiro? Um pequeno país africano avançou em um grupo com Espanha e Uruguai, escrevendo uma das maiores histórias do torneio. Curaçao também surpreendeu. A República Democrática do Congo mostrou que coragem não se mede pelo tamanho do território. A Colômbia contrariou prognósticos e fez o mundo rever certezas.

Nenhum desses países desconhece dificuldades, são nações que enfrentam desafios econômicos, sociais e estruturais assim como nós.

Às vezes, nós, brasileiros, cultivamos a impressão de que somos os únicos condenados às crises, aos tropeços, às desigualdades. Não somos.

O que nos aproxima dessas nações não é apenas uma bola rolando em um gramado, mas a insistência em acreditar, pois sonhar nunca foi privilégio de quem tem tudo, é necessidade de quem sabe o valor de conquistar quase tudo com muito pouco.

Hoje cedo, as redes sociais mostravam freiras vibrando pela Seleção Brasileira. No jogo passado, meninos assistiram a partida de Brasil e Haiti pela televisão de uma lavanderia. Enquanto alguns enxergam apenas carência, eu prefiro enxergar solidariedade, pois enquanto um azedo praguejou e desligou a tevê, um brasileiro ligou o aparelho na lavanderia.

Alguém abriu a porta.

Alguém dividiu aquele momento.

E isso também é vitória.

Muitos de nós crescemos vendo nossas ruas pintadas de verde e amarelo. Bandeirinhas que cruzaram quarteirões inteiros. Vizinhos reunidos para pintar o chão. Hoje a artista de rua aparece pintando o rosto de Neymar, uma turma prepara o churrasco, divide o café e até vê um peixe chutar uma bolinha com a quantidade prevista de gols do Brasil e tudo isso sendo exibido ao vivo na tevê. Essa loucura é o Brasil. Às vezes, sonhar é uma loucura mesmo.

A jornalista japonesa Kiyomi Nakamura, que começou a acompanhar a seleção brasileira desde a década de 90, afirmou torcer pelo Brasil. Emocionada, ela perguntou ao jogador Vini Júnior como ele conseguia manter-se tão forte ao enfrentar o racismo.

Nunca foi apenas futebol.

Com a camisa verde e amarela (a de propaganda da firma), o motoqueiro que trabalha exustivamente veio entregar minha encomenda estampando um sorrisão de felicidade de quem ia parar um pouquinho pra assistir a partida. Dia de jogo do Brasil é também dia de quem trabalha, quem estuda, quem acorda cedo, quem vende almoço para comprar a janta e continua acreditando que amanhã pode ser melhor.

Sonhar não é coisa de tolo.

Tolo é quem acredita que o mundo só muda se a gente for azedo.

Os sonhos nunca garantiram vitórias, mas são eles que fazem alguém entrar em campo quando todos apostam na derrota.

São eles que fazem uma criança pintar uma rua acreditando que isso pode dar sorte.

São eles que fazem uma freira vibrar diante da televisão.

São eles que fazem uma menina paraguaia rir e chorar ao mesmo tempo.

São eles que fazem um goleiro de Cabo Verde de quarenta anos de idade ganhar mais de dezessete milhões de admiradores na rede social.

São eles que fazem milhões de brasileiros vestirem a camisa da Seleção não porque ignoram os problemas do país, mas porque entendem que amar um lugar também é desejar que ele vença.

Que esta Copa nos devolva algo maior do que um título.

Que nos devolva a coragem de sonhar juntos.

O jogo desta segunda-feira eu escolhi assistir com minha mãe. Ela que tanto falava das pernas tortas do Garrincha e da realeza de Pelé hoje está em estado vegetativo. Mamãe não consegue mais rezar uma ave maria pela seleção brasileira, mas honrando a sua existência, eu segurei sua mão e repeti as suas mesmas orações:

– Senhor, o brasileiro é um povo tão sofrido. Olhe pelos menininhos nas comunidades que, sem camisa, sonham em ser Vini Júnior ou Neymar. Se for para o Teu Bem, Senhor, que nós avancemos nessa partida.

Lembrei-me que, após poucos segundos de amém, vinham os gritos de Mainha:

– Tira essa bola daíiiiii, Brasil!

– Tem ninguém ali, cadê a defesa do Brasil?

Acompanhar os jogos da seleção brasileira é, por um momento, ouvir a voz da mamãe de novo. É lembrar tantos momentos que vivemos juntas, porque um povo que ainda sonha continua encontrando motivos para seguir em frente.

VAI BRASIL!!!!!!!!

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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