“Uma janela para chamar de sua” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“Para quem tem insônia, a janela é o acesso para um mundo que pode ser só seu”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

Morar em apartamento pode parecer, à primeira vista, uma prisão ou um quartel, conforme seu modo de ver a vida. Tem regra para tudo. Pode isso, não pode aquilo. Olha o barulho, olha o horário. Mas também tem suas vantagens. Uma delas é ver tudo por cima, pela janela, sem ninguém perceber que você está lá. O ângulo superior permite ver o mundo de outra forma, como se não fizesse parte dele, mesmo estando inserido na loucura cotidiana. Quem tem uma janela para chamar de sua é um sujeito feliz.

Desde a pandemia tem um sujeito no prédio aqui em frente que faz ginástica todo dia no corredor do andar dele. Dá uns 30 a 40 metros de comprimento. Logo que o Sol aparece pelo lado do mar lá está ele, correndo de um lado para o outro. É um homem de certa idade, uns 65 anos. A verdade é que se o encontrar na rua, não sei quem é, pois da minha janela só o vejo dos ombros para baixo.

Logo adiante, em um prédio de três andares, há um casal de idosos que deve sofrer de insônia como eu. Os dois passam a noite com a luz da sala acesa, sentados no sofá. A tela azul da tv ilumina ainda mais aquele pequeno cubículo. O apartamento é o único do condomínio que demonstra alguma vida. Os outros dormem. Amanhece e só então eles fecham a cortina e devem ir repousar, repetindo o ritual no dia seguinte.

Daqui da minha janela dá para ver um pouco do mar. É um pedaço da praia da Leste-Oeste. Sei que é porque é possível distinguir o Centro Fashion e os dois prédios por perto, um azul e outro amarelo, que apelidei de torres gêmeas. Vez por outra surge um foguetório danado por aquelas bandas. Luzes e rojões papocam no ar. Lembram as festas de fim de ano, mesmo sendo pleno abril. Dizem que é aviso das facções da região. Pode ser, pois não demora e logo aparece o helicóptero da PM sobrevoando onde os fogos faziam a festa.

Para quem tem insônia, a janela é o acesso para um mundo que pode ser só seu. Basta imaginação. Dois carros passam à toda velocidade pela avenida. Será um racha? Estarão fugindo de algo? Ou perseguindo alguém? Ouço sirenes e fico aguardando para saber se é de polícia ou de ambulância. Aliás, você sabe diferenciar uma da outra? Eu só aprendi depois dessas incursões na janela, apostando comigo mesmo qual carro apareceria naquele som estridente que estava vindo.

Quando era criança – enquanto reformava a nossa casa – morei temporariamente em um apartamento em uma avenida bem movimentada perto de Guarulhos (SP). Nossa casa ficava no andar superior. No inferior, era um açougue. A janela vivia fechada devido ao barulho dos carros e a poluição. Mas quando era de noite, no lugar de contar carneirinhos pulando nuvens, contava as luzes que passavam na avenida e brincava de adivinhar, pelo barulho do motor, a que carro pertenciam.

– Era uma Brasília ou uma Kombi, arriscava. E meu irmão ia conferir se tinha acertado. Bingo! Era a Brasília de dois carburadores, sensação no final dos anos 70.

Do outro lado da avenida, na esquina, havia um bar que tinha aquelas máquinas antigas de tocar música, as Jukeboxes. Por ali se reuniam boêmios, bêbados, moçoilas e adeptos da madrugada fria. Deitado em minha cama, enquanto contava as luzes, dava para ouvir, pelas frestas da janela a conversa do povo, as risadas, palavrões, o barulho de vidro quebrando e das bolas de sinuca batendo umas nas outras. Mas o que me hipnotizava era o som que vinha daquela máquina.

As músicas falavam de amores perdidos, traições, mortes trágicas, filhos perdidos, sonhos desfeitos. Coisas do cotidiano. Mesmo com 11 anos, conseguia entender a tristeza contidas naquelas melodias e as histórias que as letras contavam. Esperava o sono embalado por elas, pelo som que vinha da janela, meu canal com o mundo.

Acordo das minhas lembranças com um barulho estridente ecoando no meio da madrugada. Era a “rasga-mortalha” cruzando os prédios e pousando acima de mim, invadindo meu cenário.

– Viva os noivos! Respondo gritando. Fecho a janela, a cortina e a crônica de hoje.

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias