Com o título “Uma polarização que só faz mal”, eis artigo de Juracy Mendonça, radialista, cantor, compositor e assessor parlamentar. “A intolerância ultrapassou os limites do debate democrático e invadiu espaços onde deveriam prevalecer o respeito, a convivência civilizada e a liberdade de pensamento”, expõe o articulista.
Confira:
A sociedade brasileira está doente.
E os sintomas dessa enfermidade se manifestam, cada vez mais, nas relações humanas, corroendo afetos, destruindo amizades e abrindo feridas até mesmo no seio das famílias.
Amizades construídas ao longo de décadas são desfeitas. Pais e filhos se afastam; irmãos se tornam adversários; parentes rompem laços; vizinhos deixam de se cumprimentar; amigos, colegas de trabalho e até parceiros de negócios passam a se enxergar como inimigos.
Tudo isso porque pensam de maneira diferente sobre os rumos políticos do país.
A intolerância ultrapassou os limites do debate democrático e invadiu espaços onde deveriam prevalecer o respeito, a convivência civilizada e a liberdade de pensamento.
Há empresários que, em vez de considerar a competência e a qualificação profissional, contratam ou demitem funcionários de acordo com suas preferências eleitorais, como se a capacidade de trabalhar e produzir estivesse condicionada à escolha de um candidato.
Não bastasse isso, o preconceito regional também ganhou terreno. Brasileiros de determinadas regiões passaram a tratar seus próprios conterrâneos com desprezo, numa demonstração explícita de xenofobia, arrogando-se uma suposta superioridade intelectual sobre aqueles que vivem em outras partes do país.
O mais lamentável é perceber que o ambiente de cordialidade, que durante tanto tempo caracterizou nossas relações sociais, começou a se deteriorar de maneira mais acentuada quando um cidadão decidiu usar a intolerância, o preconceito e o desrespeito às instituições democráticas como meios de chegar à Presidência da República.
Por mais incrível que pudesse parecer, a verdade é que os discursos de Jair Bolsonaro receberam apoio de uma parcela da sociedade. Ou seja, suas ideias, embora absurdas, encontraram terreno fértil em sentimentos e convicções que já estavam presentes entre nós, mas que ninguém se sentia a vontade para manifestar publicamente.
A partir daí, divergências que poderiam ser resolvidas pelo diálogo passaram a alimentar ressentimentos, hostilidades e rupturas. O adversário político deixou de ser alguém com ideias diferentes para se transformar, aos olhos de muitos, em um inimigo a ser combatido.
E assim fomos perdendo algo precioso: a capacidade de conviver com as diferenças sem permitir que elas destruam os nossos vínculos afetivos.
Talvez jamais recuperemos plenamente aquele clima de paz e cordialidade que tornava tão agradáveis os encontros entre pessoas que, mesmo pensando de maneira diferente, cultivavam o respeito, a amizade e o bem-querer.
Porque, quando a política se transforma em instrumento de ódio, não é apenas a democracia que adoece. Adoecem também as famílias, as amizades e a própria sociedade.
E nenhuma vitória eleitoral será capaz de compensar tamanha perda.
Lamentavelmente.
*Juracy Mendonça
Radialista, cantor e assessor parlamentar.