Com o título “Universalização da Assistência Técnica Rural”, eis artigo de Nizomar Falcão, PhD e engenheiro agrônomo da Ematerce. “Qualquer agricultor, em qualquer lugar do planeta – desde as serras cearenses até o interior da África -, que possua conectividade básica, tem agora acesso imediato a um acervo técnico robusto, validado e adaptável à sua realidade…”, expõe o articulista
Confira:
Ao longo de mais de um século de políticas públicas agrárias, o Brasil e o mundo Subdesenvolvido conviveram com uma promessa recorrente e invariavelmente frustrada: a universalização da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Historicamente, o aparato do Estado, por mais bem-intencionado que fosse seu corpo técnico, revelou-se pesado, burocrático e fisicamente incapaz de capilarizar o conhecimento até o último agricultor na ponta do roçado. O resultado dessa limitação estatal foi a marginalização tecnológica de milhões de famílias.
Enquanto o agronegócio de larga escala importava inovação, o pequeno produtor – especialmente nas terras secas e no Semiárido – era deixado à própria sorte, refém do improviso, do assistencialismo reativo e da escassez de informações para lidar com pragas, secas e solos degradados. O Estado falhou em estar presente onde a terra mais precisava dele. Hoje, no entanto, celebramos a quebra definitiva desse monopólio e dessa limitação física. O que o poder público não conseguiu entregar em décadas, a tecnologia aliada à inteligência coletiva agora torna realidade.
É com imenso entusiasmo que apresentamos a quebra desse paradigma estrutural por meio da plataforma reciprocidalismo.org. Baseada nos pilares do Reciprocidalismo – que substitui a dependência passiva pela autonomia, pelo mérito e pela cooperação genuína -, esta plataforma digital atua como o maior e mais democrático Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido (NIT) já concebido. Ela transforma qualquer smartphone conectado à internet na mais poderosa ferramenta de assistência técnica rural existente. A Revolução Sem Fronteiras – O Que Muda? A introdução do reciprocidalismo.org redefine a relação do agricultor com o conhecimento por meio de três frentes emancipatórias: (i) Alcance Global, Aplicação Local – Não existem mais barreiras geográficas, falta de veículos oficiais ou orçamentos estatais limitados.
Qualquer agricultor, em qualquer lugar do planeta – desde as serras cearenses até o interior da África -, que possua conectividade básica, tem agora acesso imediato a um acervo técnico robusto, validado e adaptável à sua realidade; (ii) Democratização da Ciência – A plataforma traduz o rigor acadêmico e biotecnológico (como o uso de bioestimulantes microbianos, sistemas agroflorestais e engenharia hídrica de convivência etc.) em uma linguagem direta, acessível e aplicável ao minifúndio; (iii) Horizontalidade e Troca Justa (O Dom) – Mais do que um repositório de apostilas, a essência do domínio reciprocidalismo.org é o fluxo de saberes. O agricultor deixa de ser apenas um “receptor” de ordens estatais e passa a integrar uma rede global de inteligência agrícola, onde o conhecimento empírico validado no campo retroalimenta a ciência.
O Futuro é Autônomo – Não precisamos mais aguardar que a universalização da assistência técnica venha, de cima para baixo, por meio de decretos governamentais que raramente se materializam. A ponte já está construída no ambiente digital. Convidamos todas as instituições, cooperativas, sindicatos e, sobretudo, os agricultores domésticos e familiares a acessarem, divulgarem e se apropriarem do reciprocidalismo.org. O conhecimento rural, finalmente, deixou de ser um privilégio de poucos ou uma promessa não cumprida do Estado. Ele agora pertence a quem de fato cultiva a vida. Em defesa da autonomia dos Agricultores e do desenvolvimento rural sustentável.
*Nizomar Falcão
PhD e engenheiro agrônomo da Ematerce.