“Vietnã, o novo tigre asiático” – Por Vanilo de Carvalho

Vanilo de Carvalho é advogado e escritor

Com o título “Vietnã, o novo tigre asiático”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, Coordenador do Curso de Direito e mestre em Negócios Internacionais. Da devastação da guerra ao extraordinário processo de desenvolvimento econômico e social

Como um país devastado por uma das guerras mais sangrentas do século XX conseguiu reconstruir sua economia, superar a pobreza e transformar-se em uma das economias emergentes mais dinâmicas da Ásia?

Confira:

A história do Vietnã representa um dos mais interessantes processos de reconstrução nacional e transformação econômica da história contemporânea. Um país que, durante décadas, foi palco de conflitos militares devastadores, enfrentou destruição de sua infraestrutura, perdas humanas incalculáveis, desorganização produtiva e isolamento internacional conseguiu, em poucas décadas, transformar sua realidade econômica e social. Hoje, o Vietnã ocupa posição de destaque no comércio internacional e é frequentemente denominado um dos novos Tigres Asiáticos.

Para compreender essa transformação, é necessário voltar à história de um país que conheceu a guerra, a pobreza, a fome e as dificuldades de reconstrução, mas que encontrou, por meio de decisões políticas e econômicas estratégicas, um caminho para o desenvolvimento.

1. A Guerra do Vietnã e a destruição de um país

A Guerra do Vietnã, que se estendeu de 1955 a 1975, foi um dos conflitos mais devastadores do século XX. De um lado, encontrava-se o Vietnã do Norte, de orientação comunista, apoiado pela União Soviética e pela China. De outro, o Vietnã do Sul, apoiado militarmente pelos Estados Unidos e por seus aliados.

O conflito ultrapassou as fronteiras vietnamitas, envolvendo interesses geopolíticos, ideológicos e estratégicos próprios da Guerra Fria.

Durante aproximadamente duas décadas, o território vietnamita foi submetido a bombardeios intensos, utilização de armas q ímicas, destruição de cidades, plantações, estradas, pontes e instalações industriais. A utilização do agente químico conhecido como Agente Laranja provocou consequências ambientais e sanitárias que continuam repercutindo sobre gerações de vietnamitas.

Em 30 de abril de 1975, com a queda de Saigon, encerrou-se a guerra, consolidando-se a vitória do Norte. Em 1976, ocorreu formalmente a reunificação, com a criação da República Socialista do Vietnã.

Entretanto, o fim da guerra não significou o início imediato da prosperidade.

O país estava profundamente empobrecido, com infraestrutura comprometida, agricultura debilitada, indústria pouco desenvolvida e uma população que precisava reconstruir praticamente todas as dimensões da vida nacional.

A situação econômica tornou-se ainda mais difícil nos anos seguintes. O governo adotou um modelo de planejamento centralizado, com forte controle estatal sobre a produção, a distribuição e os preços. A coletivização agrícola e as dificuldades de inserção no comércio internacional agravaram os problemas de abastecimento e produtividade.

Na década de 1980, o Vietnã enfrentava inflação extremamente elevada, escassez de alimentos e dificuldades financeiras.

Era necessário mudar.

2. Đổi Mới: a grande virada econômica de 1986

O momento decisivo da transformação vietnamita ocorreu em 1986, quando o Partido Comunista do Vietnã aprovou um amplo programa de reformas econômicas denominado Đổi Mới, expressão que significa renovação.

Esse processo representou uma mudança profunda na orientação econômica do país. O Vietnã não abandonou seu sistema político socialista, mas promoveu uma transformação significativa de seu modelo econômico, permitindo maior participação da iniciativa privada, abertura ao capital estrangeiro e utilização de mecanismos de mercado.

Entre as principais medidas adotadas, destacam-se:

* Redução dos controles estatais sobre a atividade econômica.
* Ampliação da autonomia dos agricultores para produzir e comercializar seus produtos.
* Reconhecimento e fortalecimento da atividade econômica privada.
* Abertura para investimentos estrangeiros.
* Reformulação do sistema de preços e dos mecanismos de produção.
* Incentivo às exportações e à integração com o comércio internacional.

Uma das mudanças mais importantes ocorreu no campo. O país deixou progressivamente para trás o modelo de produção agrícola rigidamente centralizado e passou a permitir maior autonomia às famílias rurais, com direitos de uso da terra e incentivos à produtividade.

Os resultados foram expressivos. O Vietnã, que enfrentava dificuldades de abastecimento alimentar, transformou-se em um dos grandes exportadores mundiais de arroz e também conquistou posição de destaque na produção e exportação de café.

A grande lição dessa transformação foi a compreensão de que o desenvolvimento econômico exigia produtividade, competitividade, investimentos e integração internacional.

3. A abertura econômica e a integração internacional

Outro fator determinante para o crescimento vietnamita foi a abertura ao mundo.

O país compreendeu que não poderia reconstruir sua economia permanecendo isolado das grandes correntes do comércio internacional.

Em 1995, ingressou na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), ampliando sua integração regional. Em 2007, tornou-se membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), consolidando sua inserção no sistema multilateral de comércio.

A normalização das relações diplomáticas com os Estados Unidos, em 1995, também representou um marco importante.

Essas mudanças permitiram ao Vietnã atrair investimentos de grandes empresas internacionais, ampliar suas exportações e participar das cadeias globais de produção.

Empresas multinacionais passaram a instalar fábricas e centros produtivos no país, especialmente nos setores de eletrônicos, equipamentos de informática, vestuário, calçados e componentes industriais.

A Samsung, por exemplo, tornou-se uma das grandes investidoras industriais no território vietnamita.

O país passou a ser visto como uma alternativa estratégica para empresas interessadas em diversificar suas cadeias de produção na Ásia.

Assim, o Vietnã deixou de ser apenas uma economia agrícola e passou a construir uma base industrial voltada para o mercado internacional.

4. Educação, trabalho e planejamento econômico

O crescimento vietnamita não pode ser explicado exclusivamente pela abertura comercial ou pela chegada de empresas estrangeiras.

Outro elemento fundamental foi o investimento na educação e na formação de sua população.

O país fortaleceu a educação básica, ampliou o acesso à escolarização e desenvolveu políticas de formação profissional destinadas a atender às necessidades de uma economia cada vez mais industrializada.

A existência de uma população trabalhadora, com níveis crescentes de escolarização e custos de produção competitivos, contribuiu para atrair investimentos internacionais.

Além disso, o governo adotou uma estratégia de desenvolvimento com prioridades de longo prazo, procurando articular infraestrutura, industrialização, educação e comércio exterior.

A construção de rodovias, portos, instalações industriais e redes de energia tornou-se parte importante desse processo.

O desenvolvimento das cidades, especialmente Ho Chi Minh, Hanói e Da Nang, expressa a transformação de uma sociedade predominantemente rural em uma economia progressivamente urbanizada e industrializada.

5. O Vietnã como novo Tigre Asiático

A expressão Tigres Asiáticos foi tradicionalmente utilizada para identificar quatro economias que experimentaram extraordinário crescimento industrial e comercial na segunda metade do século XX: Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura.

Essas economias demonstraram que países com limitações territoriais ou recursos naturais relativamente restritos poderiam alcançar elevados níveis de desenvolvimento por meio da industrialização, da educação, da inovação e da inserção no comércio mundial.

O Vietnã apresenta características semelhantes.

Embora não integre o grupo histórico dos quatro Tigres Asiáticos, passou a ser frequentemente identificado como um novo Tigre Asiático, em razão de sua expansão industrial, crescimento econômico e crescente importância nas cadeias internacionais de produção.

Os números demonstram a dimensão dessa transformação.

De acordo com o Banco Mundial, o PIB per capita vietnamita passou de menos de 500 dólares em 1986 para aproximadamente 5.066 dólares em 2025. A economia cresceu cerca de 8% em 2025, impulsionada principalmente pela indústria de transformação e pelas exportações.

A pobreza extrema, medida pela linha internacional de 4,20 dólares diários, caiu de aproximadamente 14% da população em 2010 para menos de 4% em 2025.

Em julho de 2026, o Banco Mundial reclassificou o Vietnã como país de renda média-alta, um marco significativo de sua trajetória de desenvolvimento.

Esses indicadores revelam que o crescimento não se limitou à expansão da produção econômica: também houve importantes melhorias nas condições de vida da população.

6. Os desafios do desenvolvimento vietnamita

Apesar dos resultados alcançados, o Vietnã ainda enfrenta desafios importantes.

O crescimento industrial continua bastante dependente de investimentos estrangeiros, e o país precisa ampliar a participação de empresas nacionais nas etapas de maior valor agregado da produção.

Também enfrenta problemas relacionados à desigualdade regional, à poluição ambiental, à urbanização acelerada e à necessidade de ampliar sua capacidade tecnológica.

Outro desafio consiste em avançar da condição de grande centro manufatureiro para uma economia baseada em inovação, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e maior produtividade.

O objetivo declarado de alcançar a condição de país de alta renda até 2045 demonstra que o governo vietnamita pretende dar continuidade ao processo de modernização. Portanto, o chamado milagre vietnamita não deve ser entendido como uma transformação concluída, mas como um processo histórico ainda em desenvolvimento.

7. O que o Vietnã ensina ao mundo?

A experiência vietnamita oferece importantes reflexões para os países em desenvolvimento.

A primeira é que a reconstrução nacional exige planejamento, continuidade institucional e capacidade de adaptação às transformações econômicas internacionais.

A segunda é que o crescimento econômico depende de investimentos em educação, infraestrutura, tecnologia e produtividade.

A terceira é que a integração internacional, o comércio exterior e a atração de investimentos podem representar instrumentos importantes de desenvolvimento, desde que acompanhados de políticas capazes de fortalecer a economia nacional.

A quarta é que modelos econômicos não precisam permanecer imutáveis. O Vietnã preservou seu sistema político, mas compreendeu que precisava modificar profundamente sua organização econômica para superar a estagnação.

É importante observar, entretanto, que crescimento econômico e desenvolvimento humano não são conceitos inteiramente equivalentes. O avanço econômico precisa ser acompanhado de melhoria das condições de trabalho, proteção ambiental, redução das desigualdades e fortalecimento das instituições.

O desenvolvimento sustentável exige que os resultados econômicos sejam efetivamente convertidos em bem-estar social.

Conclusão

A trajetória do Vietnã é uma demonstração histórica de como uma nação pode superar as consequências de um conflito devastador e construir uma nova realidade econômica.

Em 1975, o país saía de uma guerra que havia destruído grande parte de sua infraestrutura e provocado enormes perdas humanas. Na década seguinte, enfrentava dificuldades econômicas, inflação e isolamento internacional. Em 1986, tomou uma decisão histórica: reformar sua economia, abrir-se ao mundo e estimular a produção e os investimentos.

Quatro décadas depois, o Vietnã apresenta uma economia industrializada, participa ativamente do comércio internacional, atrai grandes empresas multinacionais e registra indicadores de crescimento que o colocam entre as economias emergentes mais importantes da Ásia.

A história vietnamita demonstra que a destruição provocada por uma guerra não precisa determinar permanentemente o destino de uma nação.

A capacidade de planejar, reformar, investir em educação, desenvolver infraestrutura e integrar-se estrategicamente à economia mundial pode modificar profundamente a trajetória de um país.

O Vietnã não apagou as marcas de sua história, mas transformou sua experiência de sofrimento em um projeto de reconstrução nacional. De um território devastado pela guerra, tornou-se uma das economias mais dinâmicas do Sudeste Asiático e um exemplo contemporâneo de transformação econômica.

É por isso que a expressão novo Tigre Asiático representa não apenas o crescimento de sua economia, mas também a dimensão de uma transformação histórica: a passagem da devastação à reconstrução, da pobreza à expansão industrial e do isolamento à integração
internacional.

*Vanilo de Carvalho

Coordenador do Curso de Direito e mestre em Negócios Internacionais.

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