“São Marias, Gardênias, desesperadas, serenas, seguras, no desvario da perda que as assola desde o princípio. Ganho para a eternidade. Não se iludam que isto é romântico. Nem grotesco. É o que é, sem aparas, ajustes ou reparos”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório
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Há uma mãe com o filho ferido ou morto em seus braços. Talvez quase. Quadros, esculturas, vida. Há milênios. Neste milênio, milhares de mães que choram. De dor, de alegria, porque escolheram ser mães. A maternidade é sempre uma escolha. Existam ou não filhos. Postura, padecimento, regozijo. Nas guerras, nas missões, sofrem, rezam, somente elas compreendem o sentido de serem as mais felizes. Gerar é mais que fazer nascer. Oferecer corpo e alma. Oferecer, doar, é disto que se trata.
O quase é por conta da incompletude que a maternidade desconhece. Parece estranho, porém, é assim. Tem muita força. Olhem com olhos de ver os sinais de trânsito repletos delas nas grandes cidades. Os campos por elas ceifados com os filhos às costas, em cestos, panos, jamais fardos. São Marias, Gardênias, desesperadas, serenas, seguras, no desvario da perda que as assola desde o princípio. Ganho para a eternidade. Não se iludam que isto é romântico. Nem grotesco. É o que é, sem aparas, ajustes ou reparos.
Viagem sem volta, rumo rumado sem mapas, bússolas, guias. Embarcou, é naquele barco que vai prosseguir por gerações e encarnações. Não se iluda quem não os teve das próprias entranhas. Existem muitas maneiras de ser mãe. E há as que o são de todas as maneiras. Biológicas, de criação, ficção, na margem, no olho do furacão. Palavras com o poder de significar tudo ou nada. O possível, o improvável, a contradição, incoerência. São as loucas a berrar acalantos, a ninar Prósperos e Calibãs**.
Crônica do fantástico que se impõe ao real, é como perder o senso, ouvir estrelas. E vos dizer, no entanto. Não existe aqui e além, maior encanto. Fartem-se desta prosa desalinhada, torpe. Pois que ser mãe é mesmo muito bizarro, monumental. Michelângelo que a cinzelou acolhendo o Cristo, sabia e expressou.
Em profusão, histórias contemporâneas não se cansam de o imitar.
*Nome da escultura de Michelângelo, o italiano que esculpia estátuas falantes.
** Referência a personagens de A TEMPESTADE, de Shakespeare.
Tuty Osório é jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais