“A história da Eternidade” – Por Tuty Osório

Ainda que não mais seja
Tuty Osório é jornalista, publicitária e escritora

“Entregou o celular e foi ditando nome completo, CPF, data de nascimento, CEP, quando chegou à raça iniciou novo ataque”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório

Confira:

Conchita precisou viajar a trabalho. Está aposentada da universidade. Não conseguiu parar. Ama, ama mesmo, a pesquisa, as pessoas, os projetos, os processos, os lugares para onde tudo isso a transporta. Lugares físicos, morais, sentimentos. O território da Conchita é o mundo. Caiu na estrada a convite de uma ONG. Pesquisa sobre os impactos da comunicação no período eleitoral. Midiática, pessoal, digital, presencial, de massa, de rede, padronizada, segmentada. Um estudo longo e pra lá de complexo. Só que a Conchita também ama a complexidade, o superficial não é com ela. Nem por lazer. Transforma um piquenique num seminário e uma visita numa entrevista focal em grupo. Passeia até na galáxia das ideias. Sem intervalo. Não julguem que Conchita é chata. Sisuda, Ácida, Irônica. Não é. É alegre, piadista, enleva-se com o canto dos pássaros de manhã cedo, com a borboleta que busca um escape pela fresta da janela entreaberta. Conchita corre e liberta a coitada, mesmo que a coitada nem queira tanto e insista em jogar-se contra as paredes, resistindo a sair. Parece a gente com a vida. Feito a Conchita com essa mania de trabalho.

Por causa da viagem fechou o Bar que tem em casa, exclusivo dos amigos. Ficou preocupada que a turma não cuidasse das coisas por um tempo mais longo. O Bar do Enock, nome que escolheu para o cantinho do jardim alongado pela varanda, é coisa séria. Os amigos, alguns deles, talvez não tivessem maturidade. Poderia virar bagunça, confusão com os vizinhos, amolação. Melhor fechar por um tempo. Os amigos não gostaram. Gotardo, recentemente adotado, já empolgado com a privacidade de um espaço para falar alto, fumar o seu cigarro sem patrulha, foi o primeiro a protestar. Afonso, o tutor, sussurrou que parasse com aquilo. Melhor deixar quieto e agir ao gosto da Conchita. Pior se ela decidisse fechar o Enock para sempre. Nossa, assustou-se Gotardo. Isso seria um desastre, sussurrou de volta, é tão bom aqui! Tentou disfarçar o constrangimento, porém, a cara amarrada dos demais entregou à Conchita que a medida não era popular. Melhor não arriscar, pensou com pena, decidida a não recuar. Passou o tempo de se fazer loucuras pela espontaneidade dos encontros. Até para relaxar é necessário um plano.

De plano pronto, Conchita desembarcou em Brasília para as reuniões prévias com a equipe técnica da ONG e os outros contratados temporários. No hotel, exausta da viagem de avião, foi surpreendida por um QRCODE para ler com o celular e preencher um cadastro. Não preencho, protestou imediatamente. E se eu não tiver celular, prosseguiu zangada. Não sou obrigada, desta idade, ter que preencher cadastro pelo celular, quase bradou. O recepcionista insistia que eram as regras, não do hotel, do governo. Conchita, inconformada, continuava que ninguém, nem o governo, principalmente o governo, poderia obrigá-la a ler um QRCODE para um cadastro. Está tudo nos dados da reserva, tudo pago, tudo esclarecido, insistiu. Quero subir, tomar um banho e dormir, antes que eu tenha um enfarte aqui, exasperou. Paciente, o recepcionista pediu que o deixasse fazer. Eu vou perguntando, a senhora me diz e eu digito, quase implorou. Conchita olhou bem para ele e percebeu que era mais velho que ela e apenas defendia o seu emprego precarizado, como todos, presentemente. Até era um sujeito de sorte por ter um emprego de seis horas, num hotel, podia-se classificar, bacana.

A consciência de classe venceu e Conchita topou a proposta. Entregou o celular e foi ditando nome completo, CPF, data de nascimento, CEP, quando chegou à raça iniciou novo ataque. O que é tem a minha raça a ver com me hospedar num hotel, nem sei que raça é, deve ser boa, normalmente, mas agora é ruim porque estou nervosa, irada! Caiu nela que seu próprio trabalho era relativo a dados, informações que definem humanos em sociedade. O cadastro era para produzir estatísticas do perfil de pessoas que se hospedam num hotel. As estatísticas mascaram a realidade, muitas vezes servem a substituir o essencial pelo acessório. São instrumentos de um conjunto, nunca um fim em si mesmas. O fato concreto é que não sabia a finalidade daquelas perguntas. Não saber não as tornava nocivas. Que irracionalidade, Conchita! Vencida a teimosia, acalmou-se, concluiu o questionário com o antigo desafeto, tornado um novo amigo e subiu elaborando que a maioria adora um QRCODE, só ela e meia dúzia de dinossauros é que reclama.

Agora tem sido essa a rotina. Saiu de casa é baile certo com os códigos de um planeta digitalizado, agonizando de calor, afogado em enxurradas, soterrando uma espécie que é única em agir contra si. Nem no elevador a caminho do berço, Conchita? Vai ser reflexiva, assim, no século XIX! Tem mais: esqueceu de passar o cartão no sensor para o elevador se mexer. É um elevador inteligente, com números piscantes, uma voz que indica os andares para onde vai, onde para, se a porta está abrindo ou fechando. Não bota preleção que enquadra negacionistas da modernidade cibernética. Sorte da Conchita.

Tuty Osório
jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais.

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